Uma vez constituído o grupo e definido o cronograma para as reuniões era necessário dar voz aos participantes. Para isso, seria necessário estabelecer os princípios que norteassem o trabalho colaborativo no processo de desenvolvimento do GDPF. Mais uma vez, a obra de Paulo Freire me ajudou a encontrar a solução.
O trabalho colaborativo requer troca. Para haver troca, é necessário que se estabeleça o diálogo. Para haver diálogo, é necessário a palavra. Na obra de Paulo Freire, a palavra é mais que um meio para fazer o diálogo acontecer. E, nos dizeres de Freire, se buscarmos os elementos constitutivos da palavra encontraremos duas dimensões:
[...] a ação e reflexão de tal forma solidárias, em uma interação tão radical que, sacrificada ainda que em parte, uma delas, se ressente, imediatamente a outra. Não há palavra verdadeira que não seja práxis. Daí que dizer a palavra verdadeira seja transformar o mundo. (Freire, 1993, p.77)
Bolzan (2002, p.74), apoiada nas idéias de Bakhtin, sugere que "a palavra se constitui em material fundamental da consciência, revelando-se como produto da interação entre os indivíduos durante a comunicação; ela constitui o meio pelo qual se produzem modificações sociais". Assim como para Paulo Freire, o papel da palavra é um tema caro a autores como Bakhtin. De certo, reconheço o peso relativo de sua obra na literatura sobre saberes escolares em geral e saberes docentes em particular. Apesar disso, resolvi adiar uma leitura mais cuidadosa de seus textos.
Para dar voz aos professores, era preciso criar um clima que propiciasse o estabelecimento do diálogo entre todos. Esse clima seria conquistado, aos poucos, por uma postura ética, pautada no respeito às idéias e opiniões dos participantes. Acreditava que à medida que os professores se sentissem respeitados, a confiança no ideal do grupo aumentaria e o diálogo surgiria de forma espontânea. Ao mesmo tempo, tinha consciência da importância do minha função de mediador do grupo no duplo papel de pesquisador e participante.
Nos primeiros encontros, esforçava-me ao máximo para superar ou atenuar os conflitos gerados por esse duplo papel. À medida que a pesquisa foi-se desenvolvendo, comecei a perceber, pelos relatos e opiniões de outros pesquisadores (MACCOTTER, 2001; BUENO, 2002), que esse era um problema comum no campo das pesquisas sociais, principalmente quando o pesquisador faz parte da comunidade que está sendo pesquisada. Assim, a angústia dos primeiros encontros foi diminuindo e o trabalho passou a se desenvolver com maior naturalidade.
Na opinião de Bueno (2002, p. 20), "quem conta a sua vida, não conta a um gravador, mas sim a um indivíduo. Além do mais, sua narrativa não é um relatório de acontecimentos, mas a totalidade de uma experiência de vida que ali se comunica". Essas palavras nos remetem a uma questão delicada da pesquisa: o constrangimento a que aquele que fala é submetido por saber que suas palavras estão sendo gravadas, para posteriormente serem analisadas e julgadas e a conseqüente influência que isso pode ter sobre aquilo que é dito.
Para minimizar esse problema, recorri novamente a Paulo Freire (1993, p.80-81), quando ele levanta as seguintes questões relacionadas ao estabelecimento do diálogo:
Como posso dialogar, se alieno a ignorância, isto é, se a vejo no outro, nunca em mim?
Como posso dialogar, se me admito como um homem diferente, virtuoso por herança, diante dos outros, meros "isto", em quem não reconheço outros eu? Como posso dialogar, se me sinto participante de um gueto de homens puros, donos da verdade e do saber, para quem todos os que estão fora são "essa gente", ou são "nativos inferiores"?
Como posso dialogar, se parto de que a pronúncia do mundo é tarefa de homens seletos e que a presença das massas na história é sinal de sua deterioração que devo evitar?
Como posso dialogar, se me fecho à contribuição dos outros, que jamais reconheço, e até me sinto ofendido com ela?
Como posso dialogar se temo a superação e se, só em pensar nela, sofro e definho?
A reflexão constante sobre essas questões me ajudavam a orientar e reorientar minhas ações na condução das reuniões. Após cada encontro, fazia um breve relato das ocorrências (via e-mail ou telefone) para o meu orientador, e, antes da reunião seguinte, discutíamos sobre os aspectos que poderiam ser melhorados. Esse processo de constante reavaliação do trabalho foi importante para que pudéssemos aprimorar a metodologia que estava sendo desenvolvida.
É certo que a proximidade entre o pesquisador e os pesquisados gera conflitos, mas ajuda a minimizar as dificuldades de comunicação. Isso está de acordo com o que diz Bourdieu (1997), ao notar que:
A proximidade social e a familiaridade asseguram efetivamente duas das condições principais de uma comunicação "não violenta".De um lado, quando o interrogador está socialmente muito próximo daquele que ele interroga, ele lhe dá, por sua permutabilidade com ele, garantias contra a ameaça de ver suas vazões subjetivas reduzidas a causas objetivas; suas escolhas vividas como livres, reduzidas aos determinismos objetivos revelados pela análise. Por outro
lado, encontra-se também assegurado neste caso um acordo imediato e continuamente confirmado sobre os pressupostos concernentes aos conteúdos e às formas da comunicação: esse acordo se afirma na emissão apropriada, sempre difícil de ser produzida de maneira consciente e intencional, de todos os sinais não verbais, coordenados com os sinais verbais, que indicam quer como tal o qual enunciado deve ser interpretado, quer como ele foi interpretado pelo interlocutor. (BOURDIEU, 1997, p.697, grifo do autor)
Entre vantagens e desvantagens, o fato de ser pesquisador e participante, ao mesmo tempo, provoca conflitos que não podem ser totalmente superados (MACCOTTER, 2001). Mas, com muita persistência e disciplina, é possível minimizá-los ao máximo e, com isso, reduzir a influência que poderiam ter na condução e nos resultados da pesquisa. Alguns dos conflitos que vivenciei serão abordados no próximo capítulo.