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O tema da espetacularização da política é antigo, contudo, com o desenvolvimento dos meios de comunicação, o debate contemporâneo sobre o tema ganha novo fôlego e sentido.

Como preconizado por Debord (1997) em seu clássico livro A sociedade do espetáculo, a sociedade capitalista acaba por transformar tudo em mercadoria. Essa visão pessimista da sociedade capitalista revela o poder da mídia na expansão de um formato em que “tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação” (Debord: 1997: 13).

Debord (1997: 14) adverte na tese 6:

(...) Sob todas as suas formas particulares – informação ou propaganda, publicidade ou consumo direto de divertimentos –, o espetáculo constitui o modelo atual da vida dominante na sociedade.

As relações sociais, na visão de Debord (1997), passam a ser mediadas por imagens, alimentando a alienação dos indivíduos: “o espetáculo é a afirmação da aparência e a afirmação de toda a vida humana – isto é, social – como simples aparência” (p. 16).

Afonso de Albuquerque (1999), ao discutir o conceito de espetáculo político, recupera o pensamento de diversos autores sobre a problemática. Schwartzemberg, em Estado Espetáculo, defende que o aparato estatal funciona como uma empresa teatral: as representações são mais importantes que a própria realidade. Edelman compreende o espetáculo político como uma ordem política na qual a mídia constrói, pelo discurso da dramatização, personalização e simplificação, uma realidade atraente para o consumo do público, tornando-o passivo. Peter Burke, ao estudar as representações presentes na construção do Rei Luis XIV, enfatiza a importância da dimensão simbólica no exercício do poder político. As aparições do rei eram cercadas de um poderoso repertório simbólico em suas apresentações à corte por meio de espetáculos e de encenações. Dayan & Kates sustentam que o espetáculo político nasce da necessidade de adaptação à lógica midiática, a qual confere maior visibilidade ao campo político. Os eventos públicos ganham uma nova gramática, obrigando os políticos a controlar sua imagem pública. Albuquerque (1999) conclui que o espetáculo político contemporâneo pode ser entendido como um processo de julgamento público, possibilitado pelo desenvolvimento tecnológico da mídia, no qual os agentes políticos são julgados

por sua aparência. A visibilidade da política a transforma em um espetáculo, adequado à estética dos meios de comunicação.

Thompson (1998) e Debray (1994) também apontam para a presença do espetáculo dentro do universo da política desde a antiguidade. A política sempre se valeu dos recursos espetaculares em suas práticas e ações. Contudo, a integração das massas no processo político, assistido principalmente no século XX, aliada a uma sociedade midiatizada, trouxe uma nova dinâmica para a realização do espetáculo político.

Debray (1994) sustenta que o Estado precisa se promover, criar acontecimentos espetaculares que lhe garantam legitimidade. O governo realiza-se através de sua imagem: “é o espetáculo do Estado que faz o Estado” (Debray, 1994: 62). A passagem do Estado Educador para o Telestado, assinalado por Debray (1994), é resultado do desenvolvimento dos meios de comunicação e das “revoluções midiáticas do poder”. A informação política perdeu seu caráter educador e ganhou uma forma recreativa, mais adequada ao gosto da audiência. O Estado Sedutor ganha feições simpáticas e humanitárias para agradar a sua audiência.

Silveira (1998), ao falar sobre o novo eleitor não-racional, sustenta que as campanhas agem dentro da lógica do espetáculo na tentativa de mobilizar os eleitores. Os candidatos em campanha, ou mesmo no exercício de cargos públicos, são atores que ocupam o palco da política, desempenhando e dramatizando as suas ações para atender à sua audiência, alimentando, assim, o espetáculo político.

O agente político, como um ator, se apresenta frente aos eleitores de determinada forma, deixando transparecer elementos subjetivos e buscando passar uma certa imagem, uma certa impressão de si mesmo. Ele expressa sentimentos, emoções e desejos, de modo que os eleitores se identificam subjetivamente, emocionando-se através de suas manifestações expressivas, reconhecendo-as como autênticas e sintonizadas com seus sentimentos internos. A capacidade de mobilizar sentimentos, emoções e desejos, o olhar, o estilo, a expressão estética, os atos carregados de força simbólica, constituem elementos fundamentais do agir político, pois é através dele que a grande quantidade de novos eleitores não-racionais estabelece identificações e escolhe certas alternativas no processo eleitoral. (Silveira, 1998: 209-210) Silveira (1998) vislumbra que a ação política contemporânea perpassa a estética do espetáculo como estratégia de comunicação e capitalização de capital simbólico. Nesse contexto, os atores políticos precisam saber explorar o poder de visibilidade dos meios de comunicação, que seguem o padrão do espetáculo, trazendo a política para uma gramática mais simples, mais atraente

e com maior capacidade de sensibilização. O eleitor perde seu status de cidadão e assume o papel de espectador, assistindo ao show, espetáculo político, através dos meios de comunicação.

Maria Helena Weber (2004), ao abordar a questão da espetacularização, diz que vivemos na “democracia da visibilidade midiática”. A democracia atual é pautada pelo regime da visibilidade, “que opera na supremacia da aparência, na construção de padrões e oscila entre proximidade e distanciamento da realidade e pressões do campo social” (Weber, 2004: 04). A visibilidade confere credibilidade e legitimidade ao poder político, mas exige que a democracia atue dentro da lógica midiática na produção de marcas, informações e cerimoniais, que reforçam e alimentam a espetacularização da política. Weber vê nesse movimento uma submissão dos atores políticos à lógica do espetáculo e da visibilidade. É por meio da mídia que são desenvolvidas estratégias políticas de reconstrução encenada da realidade, empregando a gramática do espetáculo com o objetivo de cativar a audiência.

Para Maria Helena Weber (2004: 12), “o conceito de espetáculo tem sido utilizado como um facilitador de análises e das tentativas de entender a complexidade” da inferência da mídia sobre o campo político. O espetáculo político é um fenômeno social antigo, que precede o surgimento dos meios de comunicação de massa, mas, com o desenvolvimento deles, as encenações do poder ganham potência em sua ação de se fazer acreditar pela lógica da visibilidade. Maria Helena Weber vislumbra no espetáculo uma relação social mediada por imagens, uma forma de ler a realidade, que, ao mesmo tempo em que mostra uma realidade dirigida pelo apelo espetacular, também cumpre o papel de refletir a nova configuração social.

Rubim (2002) introduz uma nova abordagem que fornece o melhor referencial para a reflexão da espetacularização da política.

(...) o espetáculo deve ser compreendido como inerente a todas as sociedades humanas e, por conseguinte, presente em praticamente todas as instâncias organizativas e práticas sociais, dentre elas o poder político e a política. (Rubim, 2002:01).

A recorrência ao espetáculo na política encontra-se em seu poder de sensibilizar as pessoas, que, nas democracias representativas modernas, é um importante instrumento na disputa pelo poder, uma vez que os espetáculos produzidos pelas campanhas permitem a capitalização de votos para a legitimação do poder.

A política supõe sempre um conjunto de instituições, práticas, atores capazes de produzir sua apresentação e sua representação visíveis na sociedade. A plasticidade desses inevitáveis regimes de visibilidade obriga a política a possuir uma dimensão estética que não pode ser desconsiderada, em particular em uma sociedade na qual a visibilidade adquiriu tal relevância,

como na contemporaneidade, através da nova dimensão pública de sociabilidade. A necessidade de considerar tal dimensão torna-se algo essencial nessa nova circunstância societária. (Rubim, 2002: 08).

A mudança da antiga ação política espetacular está relacionada à questão da visibilidade, conforme indica Thompson (1998). A transformação da natureza da visibilidade alterou as relações entre o público e o privado. Com o advento da mídia, as práticas políticas se tornaram mais visíveis, rompendo com a “publicidade tradicional de co-presença”15. O desenvolvimento dos meios de comunicação permitiu que pessoas, em diferentes espaços e contextos, tivessem acesso aos acontecimentos da política, criando novas formas de publicidade mediada.

Voltando às considerações de Rubim (2002) sobre o espetáculo na política, o autor considera a política como um produto simbólico cultural, que se realiza por meio de encenações, rituais e outros atributos simbólicos. A transformação ocorrida na visibilidade em virtude da mídia “não diz respeito à dimensão estética ou espetacular da política, mas à potência e à modalidade de seu acionamento em uma nova formação social” (Rubim, 2002: 09). Os meios de comunicação aumentaram os potenciais simbólicos da política, que incorporaram em suas práticas a linguagem e estética da mídia, na qual o sensacional e o emocional dominam as interações entre a política e a sociedade. A recorrência ao espetáculo deve-se a fato de que:

(...) a vida cotidiana e a política não midiatizada também possuem suas modalidades específicas de encenação e que dramaticidade e teatralidade também estão umbilicalmente presentes na vida cotidiana e na política, como componentes imprescindíveis à existência da sociedade. (Rubim, 2002: 12). Rubim (2002) afirma que a sociedade contemporânea, ambientada pela mídia, possui uma tendência para a espetacularização derivada de três eixos de força: sociabilidades complexas e disputa por visibilidade; a proliferação numérica e a multiplicidade de modalidades de mídia; e a emergência de uma economia da cultura e do espetáculo. Contudo, o autor sustenta que a relação entre política e mídia não pode ser reduzida à mera espetacularização, pois nem todo fato político midiatizado vira um espetáculo. Somente os acontecimentos políticos que rompem com o cotidiano, como as eleições, recorrem a expedientes de espetacularização. As eleições, particularmente, acumulam uma dupla potencialidade de espetacularização: momento principal e de maior visibilidade da disputa pelo poder político e acontecimento político que chama a atenção da cobertura midiática. As campanhas eleitorais e o desempenho dos candidatos despertam a atenção

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A publicidade tradicional de co-presença refere-se às relações face a face ou às pessoas que compartilham o mesmo espaço.

do eleitorado, que precisa decidir seu voto, e da mídia que precisa cobrir o episódio de grande relevância social.

Resumindo o pensamento de Rubim (2002), a espetacularização é um fenômeno freqüente dentro das relações sociais e, no campo político, o espetáculo também é um elemento comum às relações de disputa pelo poder político. A gramática e as práticas do espetáculo tornam- se instrumentos de competição das representações sociais conflitantes, acendendo o universo da política, distante do cidadão comum. A recorrência ao espetáculo, empregada pelas campanhas, é própria da natureza humana que se interessa pelo que foge à normalidade, chamando a atenção e despertando a curiosidade.

In document HMS i design av produksjonssystemer (sider 7-10)