Para a coleta de dados desta pesquisa, emprega-se a técnica de entrevistas semiestruturadas e a pesquisa documental de material escrito, áudio e vídeos. A seguir cada um desses procedimentos são descritos.
A entrevista narrativa é muito mais que o processo de perguntas e respostas, conforme Jovchelovitch e Bauer (2002). Ela envolve o participante (informante para estes autores), e a participação do pesquisador é minimizada. A perspectiva subjacente é que o participante possa revelar mais de suas perspectivas por meio das histórias que conta de maneira espontânea, narrando os acontecimentos. Contudo é importante ressaltar que não é um processo totalmente livre, como observam os autores, revelando uma estrutura definida que liberta as histórias dos participantes (os autores se referem a esse fenômeno como o “paradoxo da narrativa”).
O processo de entrevista é um dos métodos de pesquisa qualitativa mais utilizados, conforme King (2004). Neste método de entrevista, o pesquisador deve evitar o distanciamento do participante, evitando considerar este como um respondente apenas. Segundo o autor, as questões inter-relacionais são partes do processo de pesquisa, e juntamente com o participante deve moldar o curso da entrevista evitando o ato mecânico e passivo de pergunta-resposta (KING, 2004).
Numa abordagem distinta da pesquisa narrativa, Clandinin e Connelly (2000) atestam que pesquisa narrativa é um termo bastante amplo que contém os textos de campo previstos em
sua metodologia como forma de apreensão dos dados de pesquisa. Os textos de campo podem ser constituídos por diversos elementos, de acordo com Clandinin e Connelly (2000): histórias; escritas autobiográficas; diários; notas de campo; cartas; conversas; documentos; fotografias; experiência de vida; e entrevistas.
Para a realização da pesquisa, foram utilizados a entrevista semiestruturada e documentos no formato escrito e em áudio e vídeo, pertinentes à implantação da planta de fosfato, para a coleta de dados, de acordo com o contexto do campo de pesquisa, considerando o que Clandinin e Connelly (2000) identificam como “entrelaçamento dos textos de campo”. Isso implica que os dados podem assumir classificações distintas em momentos distintos, por exemplo, uma entrevista pode se transformar em uma conversa. Para a entrada no campo de pesquisa, propõe-se inicialmente a realização de entrevistas no formato semiestruturado, pois se fará uso de um guia.
Enquanto as conversas permitem uma maior interação entre pesquisador e participante, são mais flexíveis e permitem abordagens sobre a experiência (é um exercício de sondagem estabelecida em um ambiente de confiança mútua), as entrevistas são guiadas por perguntas que fornecem as ideias centrais a partir das quais “os participantes moldam relatos de suas experiências” (CLANDININ; CONNELY, 2015, p. 151-154). Os cinco aspectos: internalidade, externalidade, introspecção, extrospecção e localidade orientarão as perguntas feitas aos participantes. O que se pretende identificar como categorias são as mudanças, as permanências e as tensões relacionais das práticas estratégicas adotadas pelos distintos
stakeholders, mediante suas necessidade e intenções (CLANDININ; CONNELLY, 2000).
A composição dos textos de campo deve ser realizada mantendo a perspectiva da flexibilidade reconhecendo que o contexto (paisagem, para os autores) está sempre em transformação. Ao entrar no campo de pesquisa, no entremeio, o pesquisador pode se sentir como um invasor, oprimido pela incerteza das combinações com os participantes. Estes pesquisadores sugerem que as negociações para a entrada no campo podem ser: (a) de propósitos: pois estes são mutáveis e querem realinhamento; (b) de transições: pois há várias que ocorrem como do campo de pesquisa para os textos de campo, dos textos de campo para os intermediários, e dos intermediários para o texto de pesquisa (neste caso: dissertação); (c) de utilidade: do pesquisador e do participante que alternam seus papéis, uma vez que o pesquisador se apropria das histórias dos participantes para compor sentidos, ao se apropriar, ele faz parte dela, a experiência é então compartilhada (CLANDININ; CONNELLY, 2015).
Estes autores defendem um equilíbrio da ação relacional do pesquisador em função da profundidade da narrativa. Indo muito a fundo, pode gerar perda da objetividade, por outro lado,
superficialmente não será possível a compreensão do fenômeno social. Com o mesmo senso de equilíbrio, Clandinin e Connelly (2000) propõem que o pesquisador deve estar atento aos detalhes da paisagem no entorno do campo de pesquisa. As notas de campo têm papel importante para que a complexidade do campo possa ser compreendida com as nuances da história. Textos rasos não são capazes de revelar a realidade em sua completude. De acordo com os autores é preciso “deslizar” entre as notas de campo para contar e recontar histórias significativas (CLANDININ; CONNELLY, 2000, p. 125).
Foram realizas 10 entrevistadas com representantes dos grupos definidos como participantes desta pesquisa conforme o Quadro 10.
QUADRO 10 - Participantes das entrevistas Grupos de
Interesses Entrevistado Justificativa
Grupo Educação Entrevistado EDU As instituições de ensino superior se destacaram nas participações das audiências. Foram eleitos um entrevistado para uma IES privada e outro para a IES pública. Dado o processo eleitoral da diretoria no final de 2017, a entrevista não pode ser realizada com o representante da IES pública. Grupo Empreendedor Entrevistado EMP A conveniência de que o representante da empreendedora
atual (Mosaic, desde 2016) seja o participante da entrevista se mostra eficaz dada a possibilidade da existência de termos de confidencialidade que podem limitar a participação de representantes das empreendedoras anteriores.
Grupo Meio Ambiente Entrevistado MA1
Entrevistado MA2 Os entrevistados deste grupo são constituídos por representantes das organizações ambientais mais atuantes no município de Patrocínio e que tem registro de atuação nas diversas fases da mineração.
Grupo Moradores Entrevistado MO1
Entrevistado MO2 Os entrevistados foram identificados no Inquérito Civil Público de acompanhamento do processo e implantação da mineração que se encontra disponível no Ministério Público do Estado de Minas Gerais, dentro das três categorias de relacionamento com a empreendedora (reassentamento, indenização assistida e indenização simples) e dentre os que não negociaram com a empreendedora, neste caso por indicação dos próprios moradores da Comunidade de Mata da Bananeira.
Grupo Poder Público Entrevistado PP1
Entrevistado PP2 Os entrevistados foram selecionados de acordo com a participação histórica no processo de implantação da atividade mineral sendo representantes do poder executivo e legislativo atuais ou passados.
Grupo Setor Produtivo Entrevistado SP1 Entrevistado SP2
Os entrevistados selecionados são responsáveis pelas instituições que representam o setor produtivo de Patrocínio, as empresas comerciais e de prestação de serviços.
Fonte: desenvolvido pelo pesquisador
As entrevistas foram realizadas em janeiro e fevereiro de 2018. O tópico guia, conforme Apêndice A, foi elaborado e utilizado para orientar a realização das entrevistas com os entrevistados que representam grupos de interesse no fenômeno da mineração de fosfato em Patrocínio. Houve uma variação no tempo da entrevista com duração entre 20 a 30 minutos.
As entrevistas foram realizadas de acordo com o local indicado pelo entrevistado, sendo seus locais de trabalho e residência (ENTREVISTADO MO1). Dadas as circunstâncias de disponibilidade e conveniência dos entrevistados, as entrevista com o Entrevistado EMP e com o Entrevistado MO2 foram realizadas por telefone. Todas as entrevistas foram gravadas e posteriormente todas as entrevistas foram transcritas.
A pesquisa documental foi realizada tanto por meio físico com a visita do pesquisador aos locais em que os documentos estavam arquivados quanto em meio eletrônico. A pesquisa documental levou em conta a diversidade de material (mídias) disponíveis para evidenciarem as entrevistas e os textos de campo: documento escrito ou em formato de áudio, imagens e vídeo. As técnicas de coletas e as ações desenvolvidas para alcançar os objetivos da presente pesquisa são descritas no Quadro 11.
QUADRO 11 - Objetivos e técnicas de coleta de dados
Objetivo Geral Objetivos Específicos Técnica de
Coleta de dados
Ação
Analisar as mudanças, as permanências e a tensão relacional nas narrativas dos stakeholders, vistas como práticas estratégicas que refletem as
necessidades e os objetivos dos envolvidos no processo de
implantação de uma empresa que faz exploração mineral de fosfato.
Mostrar as fases desse processo de implantação de 1969 a 2018; Pesquisa Documental Coleta de dados, informações e matérias na imprensa e fontes formais Identificar os stakeholders no processo de implantação da planta mineral de fosfato na cidade de Patrocínio; Pesquisa
Documental Coleta de documentos em fontes formais
Analisar as narrativas, vistas como práticas estratégicas dos grupos de interesse e praticantes, ao longo das fases da implantação; Entrevistas Pesquisa Documental Campo de pesquisa, construção de textos de campo Mostrar as mudanças, as permanências e as tensões nas narrativas, vistas como praticas estratégicas, ao longo do processo de implantação. Entrevistas Pesquisa Documental Geração de textos de pesquisa
Fonte: Desenvolvido pelo pesquisador.
Imagens com ou sem acompanhamento de som, são elementos importantes e poderosos para expressarem os acontecimentos reais, como afirma Loizos (2002). Este autor aponta que os dados visuais em muitos casos podem superar o papel das palavras pela riqueza e precisão com que retratam uma realidade. Declara que o mundo é sensível aos meios de comunicação
que são influenciados pelos meios visuais, daí o uso de artefatos visuais, pode contribuir para interpretação mais apropriada dos fenômenos sociais.
QUADRO 12 - Narrativas analisadas na pesquisa
Fontes para a pesquisa dos elementos narrativos Quantidade de narrativas
Áudio e vídeos 18 narrativas
Documentos impressos e digitais 39 narrativas
Manifestações na mídia impressa e digital 93 narrativas
Fotos 13 narrativas
Fonte: Elaborado a partir dos dados
As 163 narrativas encontradas e suas classificações na presente pesquisa estão contidas no Quadro 12. Os áudios e vídeos referem-se ao material produzido pelos agentes da imprensa ou dos próprios stakeholders como forma de registro de suas práticas. Os documentos foram coletados sob forma de material impresso ou digitalizado. As manifestações da mídias foram ajuntadas em meio físico (jornais semanais) ou coletadas em meio digital na Internet. As fotos foram coletadas pelo pesquisador ou ofertadas pelos próprios stakeholders.