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No que tange a esta pesquisa, este grupo é composto por instituições que têm como objetivo a defesa da preservação dos recursos ambientais naturais, finitos que são, a preservação dos traços culturais, tradições, costumes, das comunidades impactadas pelo empreendimento e o bem estar social.

QUADRO 29 - Narrativas do grupo meio ambiente

Fase 1 – Pesquisa 1969 a 2003 2001 Audiência Pública

Fase 2 – Planejamento 2004 a 2015 09/06/2014 Relatório Pedido de vistas CERVIVO

05/10/2015 Ofício Pedido de Vistas - Audiência pública 2015 18/11/2009 Audiência Pública Indústria Química

30/09/2015 Audiência Pública Extração Mineral Fase 3 – Implantação 2016 2016 Inquéritos civis públicos

Fase 4 – Operação 2017

05/08/2017 CODEMA cassa licença da Vale que afirma operar dentro da legalidade Fonte: Dados da pesquisa

O grupo meio ambiente tem uma relação com outros praticantes do contexto da mineração baseada, na maioria dos casos, pela ação legal. O Quadro 29 mostra as narrativas encontradas que sustentam essa afirmação. As narrativas deste grupo demostram como elementos relevantes e potenciais geradores de tensões: (a) a mineração como ameaça e oportunidade; (b) a prática da responsabilidade socioambiental; e (c) poder econômico. Estes elementos são abordados a seguir.

As narrativas, retiradas de depoimentos de indivíduos representando instituições pertencentes a este grupo de interesses comuns, demonstram que a atividade mineral, especialmente por meio da empreendedora, representa (a) uma ameaça para o meio ambiente.

Eu sempre tive aquela ideia, bom, tá vindo [a mineração] é um processo que está acontecendo, e o que que a gente pode fazer de bom com isso? (ENTREVISTADO MA1, MEIO AMBIENTE, 2018)

Num primeiro momento, a gente como ambientalista, vai pensar na destruição mesmo. Você vai criar um buraco ali, você vai desmatar, você vai mexer no recurso hídrico. Então num primeiro momento, a gente vê como um empreendimento destruidor para o município (ENTREVISTADO MA2, MEIO AMBIENTE, 2018).

O temor de acidentes ambientais está sempre na pauta, especialmente após o acidente do rompimento da barragem de rejeitos da represa de Fundão, no município de Mariana/MG, já citado no referencial teórico desta pesquisa. Além disso outros riscos foram levantados

A gente vê que o mais sério é a questão hídrica, o rebaixamento do lençol freático. As ONGs não acreditam que o que propõem em devolver recurso hídrico, a gente tem visto casos aí que isso não acontece. Quando rebaixa o lençol automaticamente todas aquelas minas que fazem parte daquela mesma sub-bacia a tendência é de secar. Isso vai trazer um dano para a sociedade, vegetação, animais, a água é essencial para a vida (ENTREVISTADO MA2, MEIO AMBIENTE, 2018).

Ao mesmo tempo em que a atividade mineral ameaça, segundo os mesmos entrevistados, ela oportuniza. A regulamentação existente faz com que vários projetos de monitoramento, além daqueles que são obrigados passem a acontecer. No processo de implantação da mineração em tela foram encontradas narrativas que dão substância a essa constatação.

Essas audiências públicas, como elas são previstas na legislação, e é a maneira de a sociedade participar do processo de licenciamento, é claro que elas vêm no sentido de defender a parte ambiental. Mas também visando a questão da sustentabilidade, tanto o econômico quanto a preservação ambiental possam ter uma relação para que não prejudique (ENTREVISTADO MA2, MEIO AMBIENTE, 2018).

Apesar de todo o meu temor, o grupo do meio ambiente foi beneficiado porque antes da Vale não tinha esses patrocínios, essa ajuda, a gente não sabia a qualidade da análise da água, hoje a gente sabe, tem todo um histórico de anos atrás que é feito pela mineração. Tem todo um temor mas tem um lado positivo também (ENTREVISTADO MA1, MEIO AMBIENTE, 2018).

O programa de estudos do pato-mergulhão, espécie ameaçada de extinção foi citado como um dos programas de atuação da CERVIVO que conta com o patrocínio das empresas empreendedoras desde a fase inicial. Este patrocínio esteve inicialmente inserido em ações de (b) responsabilidade social da empresa.

A gente montou essa equipe e começou as buscas aqui no município. Capitaneadas pela organização e com o patrocínio na época, em 2008, da Vale Fertilizantes e da Galvani, para fazer a busca no entorno do complexo de mineração delas (ENTREVISTADO MA1, MEIO AMBIENTE, 2018).

Por outro lado, há narrativas que as ações são realizadas por força de normativas, da regulamentação legal exigida por órgão competentes. As ações são implementadas de acordo com o interesse na realização do projeto da mineração e não pela importância socioambiental.

A decepção é eles fazerem o trabalho obrigados. Porque eles têm um órgão ambiental por traz condicionando, apesar de a gente ver que os técnicos têm vindo com uma visão diferente para nós, na área técnica. A gente não vê isso na gerência (ENTREVISTADO MA1, MEIO AMBIENTE, 2018).

Essa narrativa revela a estratégia como prática sendo socialmente construída. De acordo com Whittington (2006) os praticantes da estratégia podem estar fora da organização como os consultores externos, como aqueles que detêm conhecimento acadêmico sobre temas de interesse. Para Hoon (2007) todos os níveis hierárquicos estão fazendo estratégia, estabelecendo suas posições, opiniões, expressando suas percepções. Nesta linha, as duas ideias se condensam na proposição de Sandberg e Dall’Alba (2009) que afirmam que a construção da estratégia não deve ser trabalho apenas da alta gerência, e nem mesmo se limitar aos atores internos da organização. Neste aspecto, esta relação, e diálogo da estratégia como prática se completa na operação em redes de stakeholders e na mutualidade defendida por Sachs e Rühli (2011).

O (c) poder econômico também foi apontado como um elemento que pode gerar tensões, desencadeando ações unilaterais, como toda forma de poder. Embora a forma que isso ocorra não tenha sido explicitada, a análise conduziu para uma associação à influência (como sendo a capacidade de reunir recursos para convencer outros grupos sobre o atendimento de seus interesses). Neste sentido, este elemento apareceu em narrativas distintas.

É uma força muito grande, é uma instituição, acaba que é um poder econômico muito grande. E desde quando eu vim para cá, Patrocínio não tem, não tinha essa consciência. Vou falar da minha área (ENTREVISTADO MA1, MEIO AMBIENTE, 2018).

Desde que a gente teve conhecimento e entrou no processo até agora a gente teve longas batalhas com relação à defesa do meio ambiente e à sustentabilidade. Na maioria das vezes as ONGs perdem para o setor econômico. Pode ver que a mineração é lucro mundo afora. O produto dela é primário e vai criar emprego lá na China. Você vende o minério e os empregos também (ENTREVISTADO MA2, MEIO AMBIENTE, 2018).

Essas narrativas podem estar associadas ao paradoxo sobre moral e ética apontado por Goodpaster (1991), reconhecendo a necessidade de se considerar não apenas os interesses dos proprietários, mas também de todos os envolvidos com a organização, e neste caso com o fenômeno da mineração de fosfato em Patrocínio. Defende um equilíbrio entre o ético e o econômico. Sachs e Rühli (2011) mostram que a diferença entre estes paradigmas é a mutualidade que assegura que os valores são criados com e para os stakeholders, divergindo da posição de valor criado com base meramente econômica, como retorno do capital. Dias, Rossetto e Marinho (2017) afirmam que a estratégia como prática é uma construção social e que a ação e interação dos atores influencia a estratégia da organização, neste sentido, a interação, a convivência com os grupos, embora em conflito, poderá concorrer para o equilíbrio das práticas éticas, morais e econômicas.

O aprendizado como narrativa foi encontrada neste grupo, como um processo de mudança de comportamento frente aos desafios que o empreendimento mineral representa.

Minha impressão sobre a mineração nunca foi muito boa, a gente sabe que gera muitos impactos ambientais e sociais. Hoje eu estou um pouco mais tranquila, porque eu estou vendo que está mudando também rápido. E eu estou percebendo que essas mudanças estão ocorrendo por um próprio aporte da Vale. Acaba que a mineração, ela mesma patrocina essa mudança de consciência, por um certo lado (ENTREVISTADO MA1, MEIO AMBIENTE, 2018).

O conhecimento, o lado positivo é esse conhecimento. O conhecimento que temos hoje da parte ambiental. Depois que o projeto do pato-mergulhão começou a ser realizado, o mundo olha para cá. As pessoas vêm conhecer esse projeto e acabam vendo outras espécies também. A parte do conhecimento foi um ganho muito grande (ENTREVISTADO MA1, MEIO AMBIENTE, 2018).

A prática da defesa ambiental se mostra articulada, baseando-se na narrativa abaixo, o que gera também aprendizado ao longo do tempo.

O grupo das ONGs, a gente tem uma rede em Minas Gerais que a gente conversa sobre todos os empreendimentos com alto impacto ambiental e a gente tem uma posição das ONGs. As minhas entidades conversam com as outras, inclusive para ter assento nestes colegiados, para que essa conversa seja igual, para chegar num denominador do que a gente vai defender, a estratégia de como a gente vai fazer isso (ENTREVISTADO MA2, MEIO AMBIENTE, 2018).

Eu acho que já foi muito pior. Eram minerações sem licenciamento, sem conversa, tudo empurrado “goela abaixo”, mas o modelo que foi criado de 80 pra cá nos traz a possibilidade de estar conversando com as ONGs, o setor econômico, o poder público, sentar numa mesma mesa e muitas vezes chegar num acordo para que o processo seja mais tranquilo (ENTREVISTADO MA2, MEIO AMBIENTE, 2018).

O grande ganho é as ONGs se apoderando dos processos, esse é um ganho (ENTREVISTADO MA2, MEIO AMBIENTE, 2018).

Neste aspecto essas narrativas também permitem constatar que a operação em redes de

stakeholder conforme Sachs e Rühli (2011) podem gerar valores superiores para todos os

envolvidos.