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As narrativas que se referem a esse grupo foram pesquisadas conforme disposto no Quadro 18.

QUADRO 18 - Narrativas relacionadas à Educação

Fase 1 – Pesquisa 1969 a 2003 30/11/2001 Audiência pública

Fase 2 – Planejamento 2004 a 2015 05/11/2009 Reunião – Encontro com a Sociedade

18/11/2009 Audiência pública 30/09/2015 Audiência pública

Fase 3 – Implantação 2015 a 2016 23/06/2016 UNICERP e Vale Fertilizantes se reúnem visando parceria

Fase 4 – Operação 2017

12/05/2017 UNICERP e Vale - criação do Centro de Pesquisa e Reprodução de espécies nativas da Flora do Cerrado 29/08/2017 Assinatura do convênio de arrendamento - reitor do UNICERP

01/09/2017 Arrendamento social concedido a 2 produtores rurais, cujos recursos serão administrados pelo Centro Universitário UNICERP Fonte: Dados da pesquisa

No grupo da educação estão presentes instituições que participaram em instâncias do processo de implantação da atividade mineral de fosfato em Patrocínio em suas fases. Notadamente a pesquisa documental revelou narrativas nas fases de planejamento e operação, especialmente na participação de seus representantes nas audiências públicas e reuniões formais. Neste grupo destaca-se a presença de instituições que ofertam o ensino superior tendo uma participação efetiva e interfaces com outros grupos cujos interesses remetem aos três pilares da educação (ensino, pesquisa e extensão) fazendo emergir elementos que tem potencial para gerar tensões como: (a) a discussão do alinhamento com a proposta educacional, (b) oportunidades de parcerias profissionais, acadêmicas, técnicas e estudantis; e (c) alinhamento de cursos ofertados pelas instituições com o que o mercado potencial demanda considerando possível aumento, que são aspectos relevantes pois uma das instituições é privada. Estes elementos, potenciais geradores de tensões, serão abordados a seguir.

Em relação (a) discussão do alinhamento com a proposta educacional observa-se que a interlocução entre membros do grupo educação em interlocução com a empreendedora e com a atividade mineral podem gerar mudanças e as práticas podem ser alteradas na medida da interação com outros grupos de interesse.

Nós estamos começando um novo PDI, e esse PDI já vem diferente do anterior porque nós podemos avançar, a gente pode ousar um pouco mais com os convênios e o suporte que a gente tem com a empresa. (...) Avançar no ensino porque eu consigo fazer com que o meu aluno em algumas áreas, ele esteja muito próximo das atividades que a empresa desenvolve, com isso eu melhoro meu ensino, principalmente na área profissionalizante (ENTREVISTADO EDU, 2018).

Essa narrativa mostra uma porosidade (BONNAFOUS-BOUCHER; RENDTORFF, 2016) na estrutura da Instituição de Ensino Superior (IES) e se alinha ao conceito de construção da estratégia de maneira transparente e colaborativa (HAUTZ; SEIDL; WHITTINGTON, 2016). Esse diálogo entre as duas teorias é suportado por esta narrativa que se propõe menos burocrática e mais democrática mesmo na construção de um documento que pretende ser o pilar do planejamento da organização, considerando múltiplos objetivos e contribuições em redes.

As narrativas dão conta de uma aproximação do UNICERP com a empreendedora do projeto de implantação da atividade mineral de fosfato em Patrocínio desde 2009, e especialmente a partir de 2015, quando foi sediada uma reunião (FIGURA 26) de iniciativa da Vale Fertilizantes para debater os temas que seriam discutidos durante a audiência pública no mesmo ano. Essa aproximação estabeleceu um processo de confiança para que oportunidades de parcerias pudessem ser estabelecidas.

FIGURA 26 - Reunião com a sociedade no UNICERP

Fonte: Relatório pré-audiência, Vale Fertilizantes, 2015 (APENDICE E)

Quando o processo de licenciamento ambiental para a emissão da LIC estabeleceu duas condicionantes, a 19 e a 23 (FIGURA 27), constantes nos Anexos do Parecer único da

SUPRAM, em relação à preservação de espécies nativas da flora e fauna da região de impacto do empreendimento mineral.

FIGURA 27 – Condicionantes relativas s estudo de flora e fauna

Fonte: Parecer único SUPRAM, 2016 (APÊNDICE E)

A unidade executora desta condicionante poderia ter sido o UNICERP que pleiteou essa responsabilidade e benefícios para si e para o município de Patrocínio.

FIGURA 28 - Conflitos sobre o CETAS

As narrativas contidas na Figura 28 e Figura 29, permitem perceber a tentativa para que o referido Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) e Centro de Triagem de Animais Silvestres se instalassem em Patrocínio (CETAS) por intermédio do UNICERP, enquanto instituição de desenvolvimento de pesquisa.

Não obstante os esforços, este programa e estrutura que o compõe foram direcionados para o município de Patos de Minas, Minas Gerais. De acordo o Entrevistado EDU, essa decisão, ainda que involuntária por parte da empreendedora, não foi bem vista na comunidade acadêmica, que se sentiu desprestigiada. Contudo, em parte, como se pode constatar pelas narrativas, a habilidade da direção da IES em questão pode ter sido decisiva para não provocar rupturas, e mais ainda, manter um relacionamento colaborativo. Essa habilidade fez com que o UNICERP mantivesse uma postura de mutualidade (SACHS; RÜHLI, 2011) e a geração de valor superior.

FIGURA 29 - UNICERP se qualifica para o CETAS e CRAS

Após este conflito ser mediado, nota-se um momento de aproximação entre as duas instituições: operando em conjunto e gerando projetos que foram consolidados por meio da criação do Centro de Pesquisa e reprodução de espécies nativas da flora do Cerrado (FIGURA 30). A Figura 31 apresenta o projeto de construção do prédio que abrigará o referido centro de pesquisa.

FIGURA 30 - Assinatura de termo de cooperação Vale Fertilizantes e UNICERP

Fonte: Foto do pesquisador, 29 de agosto de 2017 (APÊNDICE G)

FIGURA 31 - UNICERP e Vale criam Centro de Pesquisa e reprodução de espécies nativas da flora do cerrado

Esta narrativa (Figuras 30 e 31), na perspectiva da estratégia como prática, denota a sabedoria prática, que vem a ser a habilidade de integrar o conhecimento técnico com a experiência prática do estrategista de modo a possibilitar a consecução das metas e, consequentemente, dos objetivos da organização (JARZABKOWSKI, 2004). Jarzabkowski e Fenton (2006) observam que estrategistas que lidam em contextos pluralísticos devem buscar uma razão de interdependência entre a construção do strategizing e a construção do organizing, mesmo reconhecendo que isto não seja permanente, requerendo acompanhamento constante de suas posições. Segundo Brown e Thompson (2013), a maioria das organizações tem múltiplas estratégias, ao invés de uma única, e que um único elemento narrativo pode evidenciar nuances da estratégia que podem ser afetadas pela ação do estrategistas, pelo contexto, pelos propósitos e interesses dos envolvidos.

Uma aproximação com grandes empresas pode trazer consigo a ampliação de (b) oportunidades de parcerias profissionais, acadêmicas, técnicas e estudantis e projetos de extensão por força de demandas pontuais ou por força da legislação atuante nos processos de licenciamento ambiental, como um elemento potencial de geração de tensão.

A presença da mineradora com suporte financeiro e com o suporte técnico, a discussão entre os nossos profissionais e os profissionais da mineradora fez com que nossas atividades [...] crescessem muito. [...] o que a gente teve foi uma interação entre os nossos profissionais, os nossos alunos e a própria empresa (ENTREVISTADO EDU, 2018).

Esta narrativa, declarada pelo Entrevistado EDU, sugere essa aproximação e a troca de informações e experiências entre representante de uma instituição de ensino do grupo educação e a organização empreendedora, estabelecendo um ambiente de colaboração entre os dois grupos.

Com relação ao elemento gerador de tensão (c) alinhamento de oferta e demanda de cursos, o Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM) pôde se manifestar durante a audiência pública de 2015, com narrativa que alinha os cursos ofertados com o que o mercado é capaz de absorver por meio da atividade mineral.

Compartilho da gestão do IFTM com o professor diretor geral, hoje como diretora de ensino, e tenho uma preocupação muito grande com os jovens que colocamos no mercado de trabalho. Todos os anos o IFTM faz um realinhamento do seu plano de desenvolvimento institucional (...) ele encontrou impasse, um limite nesse ano. Se nós colocarmos mais jovens no mercado de trabalho(...) ele não tem condições de absorver mais pessoas formadas (GRUPO EDUCAÇÃO, AUDIÊNCIA PÚBLICA, 2015, p. 37).

Segundo essa narrativa, há o risco do fenômeno da sublocação de mão de obra quando a oferta excessiva puxa para baixo as médias salarias, caso a instituição não consiga implementar os cursos sob demanda, ou caso a demanda seja menor que a originalmente informada. Essa manifestação demonstra a frustração também do setor educacional com a expectativa de geração de empregos para os jovens recém formados.

Em manifestação na audiência pública de 2015 a então diretora do IFTM faz uma ponderação, que também pode ser considerada uma crítica acerca do relacionamento e dos envolvimento entre os grupos que interagem com o fenômeno da mineração.

Eu deixo aqui, como última fala uma sugestão para a empresa: foram colocados diversos impactos e programas para serem mitigados, só que a população não foi ouvida com relação à criação desses programas. Eles foram sugeridos por uma empresa contratada para esse fim. (...) Mas a população deve ser ouvida. (...) Frente a isso, que vocês ouvissem a comunidade, nossos projetos, na criação dos projetos, seja através das sociedades de classe, por exemplo, isso poderia ser um acréscimo e uma adequação (REPRESENTANTE DO IFTM, AUDIÊNCIA PÚBLICA, 2015).

Esta narrativa permite o diálogo entre a perspectiva pós moderna e política da Teoria dos stakeholders defendida Sachs e Rühli (2011), que prevê a formação de redes para criação de valores superior; também de Bonnafous-Boucher e Rendtorff (2016) sobre a porosidade das organizações para acolherem as demandas de outros grupos e dos papéis da sociedade civil que as organizações assumem em uma nova ordem social. Esse diálogo pode se completar com a inclusão da noção da estratégia aberta, definida como o movimento aberto da estratégia (HAUTZ; SEIDL; WHITTINGTON, 2016) que promete aumentar a transparência e a inclusão, envolvendo os stakeholders internos e externos à organização.