O ofício docente é um trabalho permeado pelo estresse. O excesso de cobranças e o descompasso entre o que é solicitado e as condições oferecidas deixam o professor numa situação que exige muita resistência e capacidade de superação.
Sabemos que o ranking das universidades, na carreira pela competitividade mundial, se apóia na produção intelectual de seus membros, privilegiando o desenvolvimento de um parâmetro quantitativo de trabalhos, tentando fazer-nos acreditar que existe separação entre produção intelectual e condições materiais e humanas em que esse trabalho é desenvolvido. Ora, além do saber adquirido pelas vivências individuais e concretas, também as pesquisas na área (DEJOURS, 1992, CODO, 1999; SANTOMÉ, 2003 e PICADO, 2005) comprovam que a produção e o trabalho intelectual não podem ser realizados sob a égide das cobranças e do estresse, isso porque tal produção precisa, no seu desenvolvimento, de elementos fundamentais como tempo, disponibilidade, imaginação e criatividade. Esses elementos, portanto, estão pouco presentes nos estados de estresse, uma vez que em doses elevadas, contribuem ou atuam como inibidores da produção intelectual.
Tendo em mente essas considerações, podemos nos colocar no lugar dos interlocutores e sentir a conjugação entre docência e estresse. A necessidade de produzir sob pressão, bem como de continuar cumprindo as outras atribuições inerentes ao ofício. Uma associação que, em doses elevadas, compromete o bem-estar, a qualidade de vida, a satisfação profissional e a saúde dos professores:
O que esta estressando o professor, no momento atual, é a
necessidade que a gente em de produzir, de publicar. Eu tenho que escrever, tenho que produzir textos, tenho que publicar. Para isto
tenho que ter o que escrever. [...] É esta obrigação real da academia de a gente publicar. Agora a obrigação de publicar, realmente, essa e a parte que me dá mais estresse. (P1).
São muitas as cobranças e exigências de produtividade, mas no rol das atribuições impostas, a questão da avaliação se apresenta, sem dúvida alguma, como um dos elementos mais desafiador para os professores:
No exercício da docência o que me estressa é a questão da nota. É a
avaliação. Não avaliação geral. Para mim a avaliação continua é
uma beleza. O estressante para mim é a verificação, a parte da avaliação que se refere a verificação, que é a questão da nota. O
julgar a pessoa. E a minha dificuldade também é de fazer essa avaliação em termos de verificação. Verifica conhecimentos? E ai?
(P2).
A questão da avaliação[…] Porque a gente pega turma de 80, 90
alunos [...] Tem hora que eu perco o controle disso eu não me sinto tão justa e às vezes eu sei que tem uns alunos que se fazem perceber mais, e os outros não.[…] Mais o que me deixa mais duvidosa se eu tô fazendo a coisa certa é a hora de avaliar, de elaborar uma prova, de atribuir pontos.[…] Preencher o diário, essa coisa da parte burocrática [...] isso me estressa um pouco. (P6).
Atribuir um valor ao conhecimento do outro é tarefa não muito fácil, requer a adoção de critérios objetivos para julgar aspectos, nem sempre, tão objetivos, ou seja, o professor se vê premido entre a objetividade e a subjetividade.
Ter que atribuir notas, quantificar o aprendizado do aluno, é tarefa estressante. Trata-se de um julgamento, no qual, por força das circunstâncias, na maior parte das vezes são estabelecidos critérios iguais para avaliar ritmos e qualidade de aprendizagens diferenciadas. Após quantificar, nem sempre o professor dispõe de tempo ou ferramentas para suprir as lacunas identificadas. A corrida contra o tempo não permite retrocesso, mas na consciência do professor registram-se as marcas do estresse.
Se de um lado a superlotação nas salas de aula dificulta o trabalho do professor, também representa prejuízo para os alunos. Por outro lado, contribui para tornar mais fácil a obtenção do diploma para aqueles que não desejam despender muito esforço. E o professor, sem ter como conseguir ensinar e nem garantir a aprendizagem do grupo, prefere avaliar de maneira mais superficial. Como irá exigir aquilo que não foi possível dar? Alguns alunos se sentem confortáveis com esse mínimo de cobranças, outros ficam insatisfeitos, experimentam frustração e passam a cobrar do professor.
Como ser justo e correto ao avaliar uma sala com 80, 90 alunos onde cada indivíduo é um ser exclusivo, com suas ansiedades, seus objetivos, seus projetos de vida. Avaliar é considerar o ritmo e a forma como cada um consegue atingir o que está
sendo proposto. As instituições que fazem da educação uma forma de enriquecimento esquecem dessa verdade e contratam profissionais para reforçarem um esquema de lucro; os que não se adaptam costumam adoecer, perder o encanto e desmotivados, rompem com a instituição ou ficam amargurados a lamentar as adversidades:
[…] À maioria das causas, é pela falta de motivação interior para poder exercer a profissão. Porque quando você não esta motivado pra ser professor, qualquer coisa lhe estressa. […] Tudo lhe estressa porque o seu ser completo não está envolvido com aquilo. (P3).
O professor P3 refere que, como qualquer outro profissional, precisa estar motivado e envolvido com o que faz. Noutras palavras, num ofício em que se precisa de encantamento para a descoberta do conhecimento, o primeiro a se motivar e encantar deverá ser o professor. Caso não haja essa motivação, ao lidar com as adversidades cotidianas os professores se sentirão esgotados e desanimados.
Quando estamos fazendo algo é recomendável nos entregarmos ao que está sendo feito. Essa entrega supõe investimento de energia e de afeto para que tudo seja feito da melhor maneira, pois do contrário, executar uma tarefa sem motivação, pode ser interpretado como algo desgastante, sem sentido, sem paixão, consequentemente, desencadeador do estresse. Porém, não podemos deixar de considerar que motivação supõe satisfação de necessidades, e uma vez que os professores convivem com vários fatores relacionados às más condições de trabalho, podemos inferir que seu desempenho também estará comprometido.
Qualquer ação humana destituída de prazer torna-se desmotivante e penosa. Além disso, dependendo do tipo de trabalho, poderá causar danos a outras pessoas. O ofício docente, além de implicar um trabalho que prima pela elaboração e aquisição do conhecimento, também tem comprometimento com a formação de opinião, de valores e atitudes; dessa forma, um trabalho que não conta com o envolvimento do professor pode se tornar desastroso, tanto para o executante, como para os alunos e comunidade que sofrem a repercussão dessa ação.
Observando os diversos registros dos professores teremos uma diversidade de elementos que contribuem para configurar o estresse. Tamanha diversidade é compreensível por tratar-se de um ofício que comporta múltiplas ações a serem desenvolvidas. Um ponto comum é o que faz referência ao dar contas de várias atividades num curto espaço de tempo, como fica ilustrado nas falas a seguir:
Final de unidade me deixa estressada porque você vai ter um volume
alto de trabalho. Então isso me deixa estressada porque é muita coisa
para fazer em pouco tempo, fechar a unidade, corrigir trabalhos e
provas finais. O que me deixa estressada é você encontrar aluno que
não entendeu a mensagem, alunos que querem atrapalhar, que
estão ali para nada. [...] salas enormes com 60 alunos [...] a falta de
condições de trabalho […] você fica estressada porque foge ao seu
controle. (P4)
As cobranças, a gente trabalha com prazos, com metas, que tem que lançar diário, se não o sistema fecha. Tem que fazer, tem que entregar o plano de ensino, tem que, eu tenho tarefas administrativamente, e assim isso gera um incômodo, um estresse, e que a gente tem que fazer, por exemplo, para usar o data show daqui a uma (P8).
Sentir-se estressado devido o sentimento de estar perdendo o controle da situação, ou seja, quando os mecanismos adaptativos não estão permitindo ao indivíduo manter-se sob controle. Somente quem vivencia os percalços do ofício docente é capaz de compreender o significado profundo dos sentimentos presentes na fala desses professores obrigados a conviver com os conflitos que circunstâncias adversas lhes impõem: final de unidade, período de fechamento de atividades avaliativas, número elevado de alunos por sala, descompromisso de alguns e falta de condições adequadas para execução do trabalho. Bastariam esses fatores para termos configurado um quadro bem característico de estresse.
Resgatando as fases sob as quais o fenômeno se manifesta, e levando em conta o desgaste de energia que o professor experimenta, diríamos estar próximos ao estágio de quase-exaustão ou de exaustão, conforme a categorização de Lipp (2000). Dos entrevistados, em conversas informais, vários mencionaram ter experimentado momentos de exaustão e adoecimento em função do exercício docente. Esse dado assustador aponta para a urgência de fazermos das políticas que dizem preocupar-se com a formação dos professores, ações concretas, capazes de preservar sua integridade física, psíquica e social. Mudanças urgentes, que estão a requerer muita consciência e articulação por parte da classe profissional, além de vontade política dos que defendem os interesses da coletividade.
Para os professores que lecionam em instituições particulares um dos fatores que mais contribui para o desencadeamento do estresse diz respeito às oscilações de carga horária:
Quando a carga horária e pouca. […] O tempo. E quando os alunos naquele tempo não conseguem assimilar o que você esta ministrando. Ai eu acho que da um pouco de estresse, ansiedade. […] eu sinto que o aluno não aprendeu o suficiente pra o mercado de trabalho. (P5).
Insegurança. […] Insegurança com relação ao desenvolvimento das
atividades profissionais.[…] Fica bem claro que a situação de estar
professor e não ser professor. Então isso proporciona para mim um
desconforto muito grande, porque você estar professor, e essa condição ela vem atuando muito freqüente então a gente é lembrado muito frequentemente.A mudança de carga horária a todo
semestre, essa indefinição. A soma disso me desencadeia um
estresse bom. [...] Essa instabilidade, essa indefinição. […] O
professor é um gerenciador de conflito, e muitas vezes quem esta
envolvido com esse conflito não tem muito claro qual é a causa que ele esta lutando.(P7).
Carência de tempo para assimilar os conteúdos; condições de trabalho revoltantes; turmas superlotadas; insegurança no ofício; programação financeira em risco, que só pode ser feita com base em seis meses, muitas incertezas em relação ao próximo semestre. Além disso, as disciplinas que apresentam uma carga horária muito pequena deixam o professor em conflito com o trabalho que deseja fazer e o tempo que dispõe para tal.
Responsabilidade por aquilo que está fazendo. O exercício da profissão de professor talvez seja uma das poucas profissões onde não exista o “serviço acabado”. O professor traz contigo um senso crítico que o acompanha pela vida inteira. Aquele aluno que assiste aula está na verdade se formando, se transformando para, talvez, quem sabe, mudar ou criar algo que será transformador para a sociedade.
Somos, indiretamente responsáveis por essa formação. Daí, novamente o tempo, parece que ele é curto, não deixa de correr, ele passa, e o professor fica estressado, ansioso por acreditar que não foi suficiente para que o aluno assimilasse todo o conhecimento necessário para seu desenvolvimento. Sabemos que o conhecimento não passa somente na sala de aula, lá é apenas um ponto de partida para que o aluno se forme e se transforme a partir daí, entretanto, as cobranças que o professor faz a si mesmo, sua ansiedade em acompanhar indiretamente seu desenvolvimento, acabam desencadeando doses elevadas de estresse. Soma-se a isso o dado de que a carga horária disponibilizada para o professor horista desenvolver esse trabalho, no caso da instituição particular, só é remunerada pelo tempo que está em sala de aula.