Essa é uma tríade importante para se entender a obra arquitetônica. Coutinho (1998) dá elementos para refletir sobre o espaço, agora pensado a partir da ação do arquiteto como criador de lugares41. Isso implica entender a participação do arquiteto e a relação com a sua
criação e, posteriormente, a relação entre a criação e a quem essa se destina: o usuário.
Primeiramente, Coutinho (1998:29) ressalta que o arquiteto ao exercer sua função de criador de lugares prescreve “no gráfico do papel” o invólucro no qual “cinge as pessoas que param ou deambulam nas peças de sua autoria”. Superadas as indagações sobre o determinismo arquitetônico (HOLANDA, 1997; 2003), a situação que Coutinho nos apresenta requer atenção sobre a importância da relação entre o criador, a criatura (o espaço) e a quem ela se destina (o usuário). Na prancheta, o arquiteto exercita o poder dos “riscos no papel” onde “[...] o criador não se furta dos devaneios que abrange os vultos a passarem e a se demorarem nos caminhos e pousos ora em ideação; ao contrário, ele se entretém a ver os seres nos imaginados percursos, dosando os passos com que estes se dirigem às estacionáveis peças.” (COUTINHO,1998:29).
Coutinho descreve a ação do arquiteto e o seu poder ao estabelecer o arranjo espacial (AGUIAR, 2002). Mais que isso, ele descreve um espaço definido e definidor de percursos, pensado ainda na prancheta, que pressupõe certo comportamento quando de sua apropriação, seja ela feita pelo habitante ou visitante. Para Coutinho, ainda em comparação com outras artes, os riscos no papel representam
as imaginadas paredes, efetivando a saliência que, para o arquiteto, é mais um valor de contenção, por meio do qual o espaço genérico, repartindo-se em trechos, faz possível o tratamento de arte, com atributos bem diversos dos que apresentam as criações de outra natureza, tal como a pintura e a escultura que extraem as suas matérias do campo do artifício, da bisnaga, ou da pedra ou da madeira predispostas (1998:30).
41 Ressalta-se que as recentes discussões em arquitetura já superaram a idéia de que o espaço arquitetônico é só aquele produzido por arquitetos. Os espaços idealizados e realizados por não arquitetos também são espaços arquitetônicos. Particularmente, nesta pesquisa, as questões levantadas por Coutinho (1998), relativas ao arquiteto como criador, são pertinentes porque o objeto estudado (apartamentos em edifícios coletivos) é fruto da ação dele, mas é válido lembrar que o espaço criado por não-arquitetos também será alvo deste estudo.
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A primeira questão apresentada é que o gráfico ou risco no papel é uma representação, não uma simulação e sim uma mediação que nos permite entender as intenções do criador (valores, ideologia), tanto no que diz respeito aos componentes-meios, quanto aoscomponentes-fins da obra arquitetônica. Em termos do vão, permite entender a definição dos
espaços e dos percursos estabelecida entre e a partir deles.
Os riscos no papel, quando representam a planta-baixa, são um importante objeto para desvendar os atributos do espaço em termos das dimensões geométricas, mas também em termos de fluxos, de deslocamento: os percursos. Estes, por sua vez, nos dizem sobre as estratégias configuracionais do espaço da moradia, relacionadas às expectativas do habitante em termos, por exemplo, de maior ou menor acessibilidade a determinados espaços. Esta é uma estratégia usada no espaço doméstico quando se quer espaços mais privativos, por exemplo.
Segundo Coutinho, os “riscos no papel”, além de delimitarem percursos no espaço arquitetônico, induzem a comportamentos em seu interior. Ele salienta este aspecto ao descrever a interação do ocupante no momento em que está no espaço da arquitetura:
no espaço arquitetônico, se alguém nele penetra, assim ativando-lhe a criatividade, não é apenas o seu olhar que se introduz no vão, é o seu corpo inteiro que, desde a porta, se converte em valor arquitetural, em fonte de ruídos, de sombras, de reflexos, que renovam o estável de um minuto antes. Os olhos certamente que buscam nas paredes, no piso, no teto, e em vultos comparecentes, a satisfação de breve ou detida curiosidade, mas a sua espessura física imóvel ou móvel condiciona em índices variáveis a aparência mesma desses elementos, apreciados pela ótica, enfim, a criação a proceder-se pela contribuição desse alguém recém-chegado (COUTINHO,1998:44).
No confronto da pessoa com o recinto, o “espaço arquitetônico induz a comportamentos físicos, no setor da vivência que lhe é própria.” (COUTINHO, 1998:65), o que significa que a interação não é só contemplativa, mas o espaço exerce influência sobre as pessoas. O aspecto mencionado está diretamente relacionado às sensações (percepções) que o usuário tem no espaço arquitetônico, mas também está ligado aos aspectos sociológicos, para os quais os padrões de movimento são fundamentais. Desta forma, a interação transcende o mero confronto do espaço com a pessoa. Para Coutinho (1998:65) esta interação, “[...] induz a sentimentos, a místico prazer, só alcançável com a autoconsciência de reconhecer-se, no bojo de praticado
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estilo, o ser aderente a uma situação que, desaparecida em suas outras modalidades, no entanto viva ainda resta em virtude do espaço arquitetônico”.Segundo Holanda (2003), o espaço arquitetônico nos afeta, independentemente da escala (edifício individual, bairro, cidade inteira, paisagem regional), de várias maneiras, até mesmo pelo modo como responde aos diferentes tipos de expectativas sociais (de conforto ambiental, funcionais, econômicas, estéticas, etc.). A interação entre sujeito e objeto, portanto, traz mais do que a mudança do espaço quando o ser humano o adentra (COUTINHO, 1998). O espaço também modifica ou afeta o ocupante provocando sentimentos ou induzindo a determinados comportamentos físicos (o corpo no recinto). A relação é uma via de mão-dupla entre o ocupante e o lugar, gerando reações ao espaço por parte do ocupante.
A preocupação em entender o espaço arquitetônico, a partir da relação espaço- sociedade, motivou estudos que visam compreender as relações entre a configuração do edifício e o modo como as pessoas permanecem ou se movem nos espaços. Ainda na década de 1970, surgiram teorias que priorizaram os riscos no papel como fonte de estudo para compreender as implicações sociais do espaço. A teoria da Sintaxe Espacial visa o estudo dos aspectos da configuração como sendo fundamentais para esta relação e os riscos no papel funcionam como
mediação para entender o espaço real ou concreto.
Os aspectos até agora elucidados permitem fazer uma distinção no estudo do espaço arquitetônico. Em um primeiro momento, ele pode ser analisado a partir dos riscos no papel, como a planta-baixa, por exemplo. A planta baixa é um elemento fundamental, pois é por meio dela que se podem analisar aspectos como o dimensionamento ou a organização do lugar, em termos de seqüenciamento dos cômodos, suas conexões ou acessos. Em um segundo momento, ele pode ser analisado como espaço de vivência, e como ele modifica e é modificado pela interação sujeito e objeto.
A distinção entre os dois momentos de análise é que no primeiro existe uma mediação para entender o espaço real (a planta original e a planta modificada) em termos da composição geométrica e do arranjo espacial. O segundo procura entender as conseqüências da interação sujeito-objeto, em termos do uso e da ocupação dos espaços, propiciado pela quebra de fronteira estética (COUTINHO, 1998) e pela apropriação do lugar (CERTEAU, 2000; 2002). Estes dois momentos permitem compreender a obra arquitetônica, as intenções do criador e a apropriação do usuário, a quem se destinou a criatura.
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