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Esta tese considera as características configuracionais relacionadas à maneira como as pessoas interagem no espaço, procurando identificar quais estratégias configuracionais são encontradas no interior dos apartamentos e como as estratégias espaciais qualificam a relação entre as pessoas do núcleo familiar e destas com os visitantes e com os empregados.

O aspecto configuracional é diferente dos demais, pois revela características de permeabilidade ou segregação dos espaços, informações que complementam os demais níveis de análise ao apresentarem a maneira como os espaços estão distribuídos e correlacionados no sistema. O estudo configuracional dos apartamentos revela quais opções foram feitas, em

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função de determinada morfologia corresponder ou não às exigências de uso e ocupação dos lugares.

Os primeiros estudos dos aspectos morfológicos de configuração do espaço doméstico surgiram com Hanson, na década de 1970. Ela estudou várias casas inglesas e francesas em diferentes períodos históricos. Suas publicações viraram referência para o estudo morfológico de residências ao sistematizar as técnicas da Sintaxe Espacial para análise da habitação102.

Hanson e Hillier (1984) defenderam a importância do estudo da configuração para o projeto em arquitetura, sob o enfoque dado pela Sintaxe Espacial, como forma de aliar conhecimento teórico à competência da intuição arquitetônica. Segundo eles, uma “falta de compreensão da natureza precisa da relação entre organização espacial [configuração] e vida social é o obstáculo principal a um projeto melhor”103.

No Brasil, alguns pesquisadores desenvolvem trabalhos nessa área com intuito de identificar as diferenças configuracionais existentes na arquitetura doméstica brasileira. Os estudos contribuem e complementam as pesquisas anteriores sobre a moradia porque revelam a estrutura do espaço doméstico sob o aspecto da configuração. A moradia é estudada a partir da sua configuração, portanto, é entendida como sistema de relações entre os diversos espaços que as compõem.

Os estudos de Trigueiro (1995) são referências nessa linha de investigação. As afirmativas de Vauthier e Lemos, em relação à casa brasileira, levaram Trigueiro à investigação morfológica desse tipo de edifício. Segundo Vauthier (1975:37), “quem viu uma casa brasileira viu todas”, referindo-se aos tipos das casas coloniais, quando de suas anotações sobre a casa brasileira, no início do século XIX. Lemos, ao estudar os sobrados paulistanos, na mesma linha de Vauthier, referiu-se às divisões internas da casa colonial urbana afirmando que “a casa popular urbana dos tempos coloniais praticamente teve a mesma planta pelo Brasil em geral, embora as técnicas construtivas tenham sido diversificados” (LEMOS, 1989a:32). Em relação aos sobrados coloniais em Pernambuco, aos quais Vauthier se referiu, Trigueiro constatou que essa premissa de semelhança generalizada estava equivocada. Segundo ela,

102 Hanson estudou também casas de arquitetos famosos do Movimento Moderno, como de Loos (Casa Muller), Meier (Casa Giovannitti), Botta (casa em Pregassona) e Hejduk (Casa Diamond), e casas de arquitetos em Londres. 103 No original: “...a lack of understanding of the precise nature of the relation between spatial organization and social life is the chief obstacle to better design”. HILLIER & HANSON, 1984, pág. X – prefácio (minha tradução).

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os resultados obtidos desautorizam a premissa de que o sobrado colonial constituiu um tipo único demonstrando, sobretudo, que, para além de uma aparente semelhança geométrica e estilística, a análise de configuração espacial revela modelos estruturais, plenos de significados sócio-culturais, cujas sutilezas muitas vezes escapam às formas tradicionais de representação e leitura. (1995:07)

As conclusões de Trigueiro evidenciaram quão importante é a análise da configuração espacial do edifício, uma vez que revela aspectos que não são apreendidos quando o estudo parte somente das análises das características estilísticas ou do programa de necessidades. Segundo ela, embora haja características comuns, as muitas diferenciações na estrutura espacial dos sobrados indicam que não constituíram um tipo único: os sobrados urbanos, por exemplo, são mais hierarquizados, não permitindo acessos alternativos, enquanto os sobrados semi-urbanos e a casa de sítio são mais integrados ao exterior, modificando a hierarquia espacial antes referida.

A abordagem configuracional do espaço doméstico também foi feita por Monteiro (1997) em casas no Recife. Monteiro (1997) juntou a análise configuracional das casas numa perspectiva que contemplou também o uso, mediante o mapeamento das atividades no espaço doméstico. A contribuição de Monteiro (1997) é extremamente importante porque procurou associar a configuração às práticas cotidianas e identificou diferenças entre o rótulo do espaço e sua função real, estabelecida na prática, pois a definição do cômodo não explicita as atividades que nele acontecem104.

O estudo da “tripartição” foi feito por meio da análise configuracional por Amorim (1999): ele se dedicou ao estudo da relação espacial entre os “setores” das residências e constatou que a estruturação em setores íntimo, social e de serviço configura os espaços domésticos no Recife nos diferentes tipos de casas (coloniais, ecléticas e modernas), em diferentes períodos históricos arquitetônicos. Em trabalho posterior, Amorim (2001) discutiu outras variáveis morfológicas para o estudo das residências, ressaltando a importância dos setores como aspecto da estrutura espacial doméstica e mostrou que os setores “podem expressar muito das intenções dos projetistas e habitantes em isolar fortemente os diferentes setores, diferentes categorias de

104 As categorias de atividades propostas no questionário desta pesquisa são as mesmas empregadas por Monteiro (1997).

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usuários...”105. Em trabalho ainda mais recente, Amorim (2006) argumentou sobre a importância

do estudo do espaço doméstico a partir da configuração e sua relação com as narrativas espaciais. Ele destacou como a casa, vista sob o ângulo da percepção seqüencial, faz parte das narrativas espaciais106, que, em última análise, é a leitura a partir de percursos e, portanto, uma

leitura propiciada pela configuração.

O estudo da configuração torna-se importante na análise do edifício, pois revela características que não são visíveis ou apreendidas somente pelo uso e ocupação, nem pelas características geométricas. Nesta pesquisa, a análise configuracional tem papel fundamental ao abarcar dois pontos: i) identificar os atributos morfológicos do espaço na proposta original e sua evolução ao longo das décadas e; ii) considerando que existe a quebra de autoria, a análise pretende fazer uma leitura da configuração pós-alteração e mostrar as diferenças entre o que foi proposto e o que foi estabelecido pelos moradores.

Embora não haja registros oficiais precisos nas Administrações Regionais do Distrito Federal, Brasil,107 sobre mudanças físicas feitas no espaço interno dos apartamentos, essa

pesquisa pretende mostrar como se dá a apropriação do espaço, inclusive considerando as intervenções físicas que podem alterar a configuração, porque refletem a apropriação do espaço real e identificam configuracionalmente o que isso significa no espaço doméstico contemporâneo no Distrito Federal.