Olga nasceu e vive em Belo Horizonte. Sua trajetória residencial apareceu de forma espontânea em seus relatos. Pela quantidade e riqueza de dados fornecidos a esse respeito, e pela interseção com a questão do trabalho de D. Madalena, tal trajetória será aqui utilizada como uma ilustração da situação econômica e social de sua família.
Olga começa a descrever essa trajetória a partir da época em que morava, ainda criança, numa casa do BNH, situada no Bairro das Nações. Essa casa, cedida por um tio, passaria a ser de propriedade de seus pais, desde que esses continuassem pagando as prestações assumidas pelo tio. Mas o Sr. Gonçalo, segundo Olga, gastava todo o dinheiro que ganhava com bebida, e o peso de manutenção da casa recaía sobre a mãe. Ela comenta que nunca passaram fome, mas viveram, em muitos momentos, “carência de alimentação”, fazendo com que, por exemplo, a merenda na escola se tornasse uma refeição indispensável. Não conseguindo pagar as prestações do BNH, tiveram que se mudar para um barracão no Bairro Boa Vista, onde o pai veio a falecer. Apesar de irregularmente, Seu Gonçalo contribuía de alguma forma nas despesas da casa. Com sua morte, D. Madalena não conseguiu continuar pagando o aluguel da casa do Bairro Boa Vista. Mudaram-se então novamente, desta feita para um barracão de um quarto, cozinha e banheiro, situado no Bairro Santa Efigênia. Nesse barracão, dormiam, numa única
cama, a mãe e as três filhas.
Por volta de seus 10 anos, tendo Natália 7 e Leila 11, aconteceu o que Olga qualifica como a grande oportunidade de sua família em termos de habitação: “a gente saiu daquela infância de criança das camadas populares e fomos morar num bairro de classe média”. Uma pedagoga do Instituto de Educação, onde a mãe trabalhava, proprietária de uma clínica de psicoterapia, e conhecedora das dificuldades materiais de D. Madalena, ofereceu-lhe o posto de zeladora da clínica. Ela e as filhas morariam nos fundos, teriam uma pequena remuneração, e, em troca, cuidariam da limpeza e vigilância da casa da frente, onde funcionava a clínica. Mudaram-se então para a casa de fundos dessa clínica, situada na Avenida do Contorno, próximo ao Colegio Estadual Central. D. Madalena também concorda que essa foi uma grande oportunidade em sua vida, mas ela coloca maior peso no fato de que, naquele momento, pôde morar “gratuitamente”. Enquanto trabalhava nessa clínica, a mãe de Olga fazia também faxina num consultório, em manhãs alternadas; à tarde trabalhava no Instituto de Educação, onde era funcionária pública com cargo efetivo.
Mais tarde, a clínica mudou suas instalações para o Bairro de Lourdes, também área nobre da cidade. A família de Olga continuou a morar nos fundos, em três cômodos separados, muito pequenos: quarto, sala e cozinha. Ela lembra que, para ir ao banheiro à noite, tinha que sair ao relento. Desta feita, moraram perto da Biblioteca Pública Estadual de Belo Horizonte, esta última situada à Praça da Liberdade. A proximidade da biblioteca possibilitou que Olga e Natália a frequentassem assiduamente e tivessem, assim, um contato importante com a cultura letrada e, especialmente, com textos de literatura infanto-juvenil. A frequência à biblioteca era explicada também pelo “isolamento” social em que viviam: “fomos adolescentes que não vivemos a adolescência que todo mundo vive. Não tínhamos amigos de bairro, não brincávamos na rua, não saíamos com ninguém”, afirma Olga.
Depois de morarem 5 anos aproximadamente em bairros de classe média, a mãe realizou, finalmente, seu sonho de comprar a casa própria, o que se deu através da
COHAB.2 Esse sonho era alimentado por D. Madalena há muito tempo. Olga conta que
desde a infância, “quando a gente tinha 10 anos”, sua mãe já falava desse sonho: “a
2
mamãe tinha um caderninho... aí ela abria, mostrava pra gente a casa da COHAB que a
gente ia morar.” Foram então para o Conjunto Habitacional Palmital, em Santa Luzia3.
Segundo Olga, era o local possível onde morar naquele momento, se quisessem deixar a casa de fundos da Clínica de Psicoterapia. A experiência foi, no entanto, desastrosa, principalmente para Olga e suas irmãs, que tinham feito muitos planos para a nova moradia. “A gente desenhava a rua onde ia morar... onde que era a casa... a rua que ia ter mais rapazinhos pra gente passear... A gente fazia mapa, fazia tudo, era uma loucura!” Segundo a descrição de Olga, o lugar era “assim... terrível, terrível, terrível... fomos parar nesse lugar horroroso! Um conjunto habitacional muito pequeno, sem infra-estrutura! O ônibus era um martírio!”. O contraste entre o Bairro Palmital e o local onde viveram anteriormente era agudo. A falta de higiene de moradores do conjunto habitacional constituíra-se como uma outra razão de inquietação. Em suma, elas ficaram extremamente frustradas com a nova moradia: “era muito triste... o ônibus, o bairro era sujo, feio, a casa pequena.”
Culturalmente, elas e os jovens do Palmital distanciavam-se muito; existia também um clima de inveja entre vizinhos, pelo fato delas estudarem no centro da cidade de Belo Horizonte. Ninguém conseguia imaginar como sua mãe conseguia mantê-las estudando onde estudavam, no Instituto de Educação, no centro de Belo Horizonte, tendo um salário de servente. Olga frequentava, nessa época, o curso de magistério.
Retornaram então a Belo Horizonte, para uma casa alugada, no Bairro Salgado Filho, embora D. Madalena tivesse resistido à idéia por muito tempo. Nessa época, Olga e as duas irmãs já estavam na Faculdade.