Quanto ao nível de instrução dos avós paternos de Olga, não obtivemos nenhuma informação. Entre os irmãos e irmãs de Seu Gonçalo, ninguém tem o curso superior e
3
Olga não sabe informar se algum deles teria mesmo o 2º grau completo. Um tio que trabalhava no Banco do Brasil, era o mais bem sucedido da família e tinha apelido de “engenheiro”, porque era considerado um autodidata. Dos primos também pelo lado
paterno, uma fez Pedagogia na FAFI-BH4; os outros todos têm, no máximo, o 2º grau.
Olga e suas irmãs eram consideradas exemplo na família de seu pai. Ela declara a esse respeito: “as filhas da Madalena para a família do meu pai, eram como as filhas da Madalena no Instituto de Educação; as que, apesar de tudo, estavam indo bem na escola.”
A família da mãe de Olga mostrou-se significativamente atípica, em termos de sua relação com a cultura letrada e com a escolarização, considerando-se sua inserção no contexto, sobretudo econômico, das camadas populares. A instrução escolar que o pai de D. Madalena recebeu, deu-se através de um padrinho que era ”mestre”. D. Madalena definiu mestres como “pessoas que sabiam um pouco e ensinavam”. Esse padrinho, com quem o avô de Olga foi morar, tinha uma escola na própria casa. Na casa do padrinho, além de estudar, ele prestava também serviços diversos. Não se sabe se ele concluiu a 4ª série primária.
A avó materna de Olga fez o curso primário. D. Madalena supõe que sua mãe, que morou em Mariana no tempo de solteira, tenha frequentado também um colégio de freiras nessa cidade. “Ela contava muito caso de colégio... não sei se de Ouro Preto ou de Mariana”, declara. Tudo leva a crer que os pais de D. Madalena valorizavam a escola e o conhecimento e que, de alguma forma, na infância, ela vivenciara um clima familiar propício à escolarização, ainda que não lhe tenha sido efetivamente possível ir além da 4ª série.
Segundo D. Madalena, “de 1ª à 4ª série era obrigado [a estudar]... não tinha esse
negócio de “eu não quero”. O pai não perdoava notas baixas, advertências disciplinares de qualquer natureza e, muito menos, reprovação; em qualquer uma dessas situações, corria-se o risco de levar uma surra. Ele ameaçava com a possibilidade de castigo físico durante o ano inteiro, caso houvesse reprovação. De acordo com o depoimento de D. Madalena, ela não chegou a apanhar, ao ser reprovada; apenas tem lembranças dessas
ameaças. Numa versão diferente, Olga narra que sua mãe levara algumas surras motivadas por problemas escolares. Havia uma vigilância sistemática em torno do para- casa dos dez filhos, embora ela e seus irmãos não tivessem tempo de estudar em casa. D. Madalena estabelece uma distinção, que não ficou clara, entre “estudar” e fazer o “para-casa”.
Olga avalia que a avó materna teve uma influência fundamental na escolaridade dos filhos, em particular, na de sua própria mãe, tomando como referência a forma como D. Madalena educou a ela e suas irmãs. Segundo Olga, D. Madalena contava muitas histórias de sua mãe. Destacamos uma dentre elas que, a nosso ver, ilustra bem o alto envolvimento de sua avó com a escolarização dos filhos. D. Madalena teve uma única irmã que morreu de acidente, aos 27 anos. Numa determinada época, essa tia, não tendo sapato para ir à escola e sendo ridicularizada pelos coleguinhas de classe por essa razão, entrara em crise. A mãe, buscou resolver o problema, costurando para ela sapatos de pano. Olga comenta então:
“Tipo assim, sapato não ia ser motivo... tinha que estudar pelo menos até à 4ª série. Ela fez das tripas coração pra estudar os filhos. A gente cresceu construindo aquela imagem de mulher forte da vovó (...)”.
Na época de seu falecimento, essa irmã de D. Madalena estudava no Colégio Municipal São Cristóvão, situado no Bairro Lagoinha, à noite. A vaga para estudar nessa escola fora, senão conseguida, pelo menos facilitada por um de seus tios que, na época, lecionava nesse estabelecimento, esclarece Olga.
D. Madalena, por sua vez, descreve sua mãe como uma pessoa excepcional:
“Minha mãe era uma pessoa muito inteligente; minha mãe era inteligentíssima. Ela sabia muita coisa; as vezes até através do esforço dela de leitura... de conhecimento entrosado com outras pessoas; então ela tinha um conhecimento muito grande das coisas.”
Nossa hipótese de um clima estimulador de sucesso escolar, na família dos avós
TP
4
maternos de Olga, fundamenta-se também na existência de alguns casos de escolaridades excepcionais e de afinidade com a cultura legítima, entre alguns irmãos de D. Madalena. O mais velho, Tio Paulo, estudou grego e latim no Seminário de Diamantina, para onde foi aos 11 anos de idade, chegando a ser professor no Departamento de Letras Clássicas da Faculdade de Letras da UFMG. Olga podera que outros tios teriam também frequentado o seminário, mas sua mãe afirma que foi “só ele que teve sorte”, embora tivesse lutado com muita dificuldade, quando de lá saiu. Ele trabalhou como professor também em Pirapora, de onde enviava dinheiro para sua mãe. Depois de casado, Sr. Paulo ainda fez curso de Direito. Ele tem 9 filhos, dos quais um fez curso superior de Educação Física. Olga declara que esse tio era considerado por ela e suas irmãs como um mito; como “o inteligente”. D. Madalena, provavelmente por ser das mais novas da fratria, não sabe contar ao certo quem teria providenciado o seminário para o Tio Paulo. Suas lembranças são muito imprecisas a esse respeito. Ela conta que seu pai “lutou muito com... D. Cabral...” que, supõe, era o bispo de Belo Horizonte.
Um outro irmão de D. Madalena, um dos mais novos, economicamente bem sucedido, segundo Olga, é também professor universitário, na PUC-MG. Esse tem dois filhos fazendo curso superior: arquitetura na PUC-MG e Economia na UFMG. Assim como todos os tios maternos de Olga, esse tio viveu uma infância muito sofrida, tendo trabalhado por muito tempo em fábrica de calçados.
Tanto do lado materno, quanto do lado paterno, a família de Olga é marcada pelo alcolismo; a mãe tem dois irmãos que já morreram em consequência do alcolismo e um estava, no momento da entrevista, em condições extremamente debilitadas de saúde, em função de uma cirrose hepática. Um desses tios já falecidos, dava aula de inglês e alemão, mas D. Madalena não sabe dizer se ele se preparou em escola, ou se era autodidata. Era torneiro mecânico; trabalhava durante o dia e estudava à noite. Não chegou a ser professor em escola regular, porque adoeceu. Embora a mãe de Olga não tivesse tocado na questão do alcolismo, ela comenta a respeito desse irmão o seguinte: “(...) a vida dele parou; ficou em casa... foi indo até morrer.”
Os irmãos mais velhos são os mais bem sucedidos e os que têm filhos mais bem sucedidos também. Um outro tio, dos mais velhos, que ganhou recentemente um concurso de sonetos promovido pela Universidade Federal de Uberlândia, destaca-se
como poeta. Ele tem livro de poesias publicado. D. Madalena supõe que ele não tenha feito o curso ginasial, mas frequentara uma escola técnica. Hoje ele é aposentado e gosta de ficar na escadaria da Igreja São José; “fica apreciando o movimento lá em baixo na Avenida ... e é ali que escreve as vezes uma poesia, um soneto...”, comenta a mãe de Olga. Esse tio tem uma filha que é advogada, outra que está fazendo medicina e uma terceira que tem um bom emprego na Açominas.
Os outros irmãos foram até à 4ª série. Desses, um era portador de problemas de natureza não esclarecida, tendo estudado no Instituto Pestalozzi. D. Madalena, a uma certa altura da entrevista, lembrou também de alguns irmãos que fizeram Escola Técnica, uma situação definida como “aprendendo profissão e estudando anexo”, que não nos possibilitou concluir se esse estudo era a nível de 1º ou de 2º grau.