As estratégias de polidez positiva orientam-se para o engajamento entre os interlocutores no ato da interação, com o foco no bem estar e nos interesses do ouvinte. Seguem abaixo as quinze estratégias (e alguns exemplos) identificadas por Brown e Levinson (1987) em sua investigação:
1. Note (isto é, focalize) os interesses do ouvinte (interesses, metas, necessidades, qualidades) Essa estratégia é usada primordialmente para exaltar alguma qualidade do ouvinte, fazendo com que ele se sinta apreciado pelo que é, pensa, ou tem.
Exemplo 1: What a beautiful vase this is! Where did come from? (tradução para o português: Que belo vaso ele é! De onde veio?)
Podemos observar que a expressão no exemplo 1 demonstra uma certa surpresa do falante com relação a um vaso, que, no caso, pertence ao ouvinte. Esse, por sua vez, pode interpretar a surpresa como um elogio a sua arte, já que foi ele quem fez o vaso.
2. Exagere (interesse, aprovação, simpatia com o ouvinte)
Assim como a estratégia anterior, esta permite que o ouvinte se sinta admirado pelo falante em algum aspecto. Podemos destacar o elogio como categoria básica de atos de fala que servem a esse propósito comunicativo.
Exemplo 2: What a fantastic garden you have! (tradução para o português: Que jardim
fantástico você tem!).
A partir desse exemplo, inferimos que o uso da palavra fantástico exprime um alto valor sobre algo que pertence ao ouvinte. Nesse caso, o ouvinte pode se sentir elogiado, assim como aprovado pelo seu interlocutor.
3. Intensifique o interesse do ouvinte
Essa estratégia permite que o falante gere, aumente ou mantenha alguma expectativa do ouvinte, e através dessa manutenção de expectativa é possível que se mantenha, em algum nível, a face positiva do falante.
Exemplo 3: I’ll be done in one second. (tradução para o português: Estarei pronto em um
segundo).
Podemos observar que no exemplo 3, ao passo que o falante pede para o ouvinte esperar, ele minimiza o custo do pedido através da expressão one second (um segundo), fazendo com que este tenha uma expectativa sobre a face positiva do falante.
4. Use marcadores de identidade e grupo no discurso
O princípio dessa estratégia remonta aos estudos realizados por Lakoff (1975, apud Watss (2004), em que a lingüista buscou identificar expressões lingüísticas que expressassem a formalidade e a
camaradagem e que de acordo com a distância social que existisse entre os dois interlocutores haveria um nível diferenciado de polidez lingüística.
Exemplo 4: Come here, buddy. (tradução para o português: Venha aqui, amigo.).
A expressão buddy (amigo) revela algum nível de intimidade entre falante e ouvinte, e, nesse sentido busca gerar ou demonstrar uma aproximação entre eles.
5. Procure concordar
Como veremos no capítulo seguinte, esta estratégia lembra um dos princípios da teoria de Leech (1983), segundo o qual o falante deve buscar a concordância.
Exemplo 5: A: Did she go to the country? B: She went. (tradução para o português: A: Ela foi
para a cidade? B: Ela foi.)
Além do exemplo fornecido pelos lingüistas, podemos destacar as tag questions e as perguntas em português com a expressão “né” como manifestações desse tipo de estratégia, na medida em que buscam essa concordância.
6. Distancie-se da discordância
Assim como a estratégia anterior, essa nos remete ao par do princípio de Leech (1983) supracitado, que é evitar a discordância na interação:
Exemplo 6: A: What is she, small? B: Yes, she is small (…) - (tradução para o português: A: O
que ela é?Pequena? B: Sim, ela é pequena (...))
Os lingüistas argumentam que esse tipo de estratégia pode ser observado em repetições, como é o caso do exemplo acima, e exageros. Neste caso, a intensidade tende a demonstrar além da concordância uma atenção maior sobre o objeto ao qual se refere.
7. Aceite, aumente, delimite o terreno comum
O falante busca utilizar essa estratégia quando tem intenção de demonstrar ao ouvinte que compartilha de um determinado conhecimento, que pode ser aceito, intensificado ou delimitado. Exemplo 7: A: Oh, this cut hurts awfully, Mum. B: Yes dear, it hurts terribly, I know. (tradução
para o português: A: Oh, esse corte é horrível mãe. B: Sim querido, ele dói terrivelmente, eu sei.)
Nesse exemplo podemos inferir que a expressão I know (eu sei) enunciada por A, demonstra que ela compreende o que B quer dizer.
8. Brinque para deixar o ouvinte mais à vontade
Esse tipo de estratégia é mais empregada em situações em que falante e ouvinte já possuem uma certa intimidade, pois, quando utilizada em outras circunstâncias pode gerar em vez de simpatia, o que deixaria o ouvinte mais à vontade, uma antipatia.
Exemplo 8: Ok if I tackle those cookies now? (tradução para o português: Tudo bem se eu atacar
esses biscoitos agora?)
O exemplo nos mostra que o verbo escolhido pelo falante revela um exagero quanto à ação que ele pretende desempenhar, e esse exagero produz em algum nível uma amistosidade.
9. Acerte ou pressuponha conhecimento do ouvinte e de seus interesses
O falante, por meio dessa estratégia, pretende demonstrar ao ouvinte que conhece seus interesses e especificidades. Esse conhecimento é evidenciado no exemplo pela expressão I know (eu sei): Exemplo 9: I know you love roses, but the florist didn’t have any more, so I brought you
geraniums instead. (tradução para o português: Eu sei que você ama rosas, mas a florista não tinha mais, então eu comprei ao invés de rosas, gerânios.)
10. Ofereça, prometa
Mais uma vez, Brown e Levinson (1987) adotam categorias básicas de atos de fala para compor uma das estratégias de polidez. No caso das ofertas e promessas, também identificadas por Leech (2005) como representantes do grupo de regras correspondentes às máximas do tato e da generosidade, o falante parece procurar algum crédito, ou seja, manter a sua face positiva, no que diz respeito a uma ação realizada por ele.
Exemplo 10: I’ll drop by sometime next week. (tradução para o português: Eu virei em algum
momento semana que vem.)
Podemos dizer que, assim como demonstra o exemplo, tanto uma promessa, quanto uma oferta geram expectativas, ou seja, de alguma forma agem como outra estratégia (3), maximizando o interesse do ouvinte em relação à coisa ofertada ou prometida.
11. Seja otimista sobre os interesses do ouvinte. Ele quer o que o falante quer
Acreditamos que esse tipo de estratégia, apesar de se dedicar à polidez positiva, pode comprometer a polidez negativa, na medida em que o falante não fornece muitas escolhas para o
ouvinte, fazendo com que este se sinta coagido a fazer algo.
Exemplo 11: Look, I’m sure you won’t mind if I borrow your typewriter. (tradução para o português: Veja, eu tenho certeza de que você não se importará se eu pegar emprestada a sua máquina de escrever.)
O exemplo nos mostra que três expressões são utilizadas com a finalidade de afiliar os interesses entre ambos os interlocutores, mas isso não quer dizer que esses sejam realmente afiliados. Podemos dizer que, se o falante usar essa estratégia, ele, no mínimo, deseja persuadir o ouvinte a realizar uma determinada ação, que, em contextos específicos, pode ser interpretada como uma espécie de coação sobre as ações do ouvinte, incorrendo no prejuízo da polidez negativa.
12. Inclua ouvinte e falante na mesma atividade
Esta estratégia possibilita que o ouvinte se sinta parte de um grupo, mesmo em circunstâncias em que um ato possa ameaçar sua face.
Exemplo 12: Give us a break. (tradução para o português: Dê-nos um intervalo.)
Um exemplo de manifestação desse tipo de estratégia é o uso da pluralização dos pronomes. Quando pluralizado, o pronome de primeira pessoa assume um caráter menos imperativo, fazendo com que a pessoa à qual o ato ameaçador de face está sendo direcionado, possa compartilhar virtualmente do efeito do ato com um possível grupo.
13. Forneça ou peça razões
Esta estratégia tem como meta estabelecer algum vínculo entre falante e ouvinte com a finalidade de traçar outros objetivos comunicativos.
Exemplo 13: Why don’t I help you with that suitcase? (tradução para o português: Por que eu não lhe ajudo com essa mala?)
No caso desse exemplo, o falante utiliza a estratégia para fazer uma oferta de ajuda. 14. Acerte uma troca recíproca
Este tipo de estratégia é freqüente em negociações. Ao contrário das ofertas e promessas, essa estratégia pretende gerar benefícios para ambos os participantes da interação, e, nesse caso, o custo seria amenizado.
isso para você e você fará isso por mim).
15. Forneça presentes ao ouvinte (qualidades, simpatia, entendimento, cooperação)
Como podemos observar no exemplo, nem sempre os presentes são necessariamente objetos, mas atos que facilitam, em algum aspecto, a interação. A demonstração de sentimentos pode ser expressa pelas categorias básicas dos atos de fala expressivos e declarativos.
Exemplo 15: I’m so glad to see you. (tradução para o português: Estou feliz por ver você).
1.7.4. On –record: Estratégias direcionadas à face negativa (polidez negativa)
Ao contrário das estratégias de polidez positiva, a polidez negativa é orientada pela face negativa do interlocutor e pelo seu desejo de autonomia, com ênfase na estratégia de evitar imposição, o que fará com que a interferência seja minimizada. Nas línguas observadas, os lingüistas identificaram dez estratégias que permitem a preservação do território do interlocutor. Conforme expomos abaixo:
1. Seja convencionalmente indireto
De acordo com Searle (2002), expressões como can e could são marcadores de atos indiretos de fala na medida em que trazem os seguintes sentidos: habilidade/disponibilidade do ouvinte para realizar uma ação e se ele pode atender a um pedido. Desta forma, podemos dizer que o pedido é uma alternativa freqüentemente usada pelos falantes para minimizar a imposição de um ato de fala, que, por sua vez, gera uma ameaça à face negativa do ouvinte.
Exemplo 16: Can you please pass the salt? (tradução para o português:Você pode, por favor, passar o sal?)
Neste exemplo a expressão please (por favor) ressalta a presença do sentido primário (pedido) no enunciado.
2. Questione, restrinja-se
Para esse tipo de estratégia, o uso de modalizadores constitui uma das ferramentas mais freqüentes, pois a força ilocucionária de verbos como achar, pensar, acreditar corresponderá à atitude do falante perante aquilo que é enunciado.
Exemplo 17: I think that Harry is coming. (tradução para o português: Eu acho que Harry está vindo.)
No exemplo acima, notamos que o uso do verbo achar ou pensar pode aliviar o grau de comprometimento existente entre enunciador e enunciado.
3. Seja pessimista
Muito comum na língua inglesa, essa estratégia tem como principal objetivo estabelecer a distância entre falante e ouvinte por meio do pessimismo interacional.
Exemplo 18: Perhaps you’d care to help me. (tradução para o português: Talvez você se importasse em me ajudar.).
Nesse exemplo, podemos observar que o pessimismo nas palavras perhaps e care, intensificado com a condicional do verbo would, revela que o falante não deseja avançar no território do ouvinte.
Um problema que observamos com relação a essa estratégia reside no efeito que ela pode gerar; dependo do contexto, pode ser o oposto esperado, pois apesar de pressupor que o ouvinte não queira cooperar, ela não fornece ao ouvinte muitas escolhas para realizar o ato, ela o coage de um modo peculiar, e a coação configura-se como um ato ameaçador potencial de face negativa, pois impõe ao indivíduo que ele realize alguma ação, ou seja, a sua liberdade de ação é prejudicada. 4. Minimize a imposição
Considerando a imposição como uma ameaça potencial à face negativa do ouvinte, o falante, ao exercer a polidez negativa, deve buscar formas de amenizar essa ameaça.
Exemplo 19: I just want to ask you if I can borrow a little paper? (tradução para o português:Eu só queria perguntar a você se eu posso pegar emprestado um papel pequeno?)
Podemos destacar, nesse exemplo, as palavras just, if e little como expressões que visam a restringir a ameaça.
5. Demonstre respeito
Mais uma vez, observamos, em uma estratégia de polidez, a evidência da distância interacional entre os interlocutores. O respeito mútuo protege o território dos interlocutores.
Neste exemplo, o tratamento sir revela algum nível de autoridade (poder) ou distância social entre os interlocutores.
6. Desculpe-se
O pedido de desculpas, considerado por Searle (2002) como um exemplo da categoria de atos de fala expressivos, é uma das expressões mais comuns na língua inglesa, tal como please e thanks, chegando a ser considerada em muitos estudos uma expressão idiomática.
Na polidez, a ação de pedir desculpas implica um reconhecimento de aproximação entre falante e ouvinte que pode gerar algum conflito ou ameaça, ou seja, se o falante efetua o pedido, ele minimiza uma possível ameaça à face do ouvinte.
Exemplo 21: I’m sorry to bother you, but... (tradução para o português: Perdoe-me por
incomodar, mas…)
7. Impessoalize o falante e o ouvinte. Distancie-se dos pronomes eu e você:
Apesar de terem a língua inglesa como uma das fontes de pesquisa mais citadas, nas investigações de Brown e Levinson (1987), podemos encontrar uma estratégia bastante utilizada entre os falantes das línguas neo-latinas, nas quais é possível ocorrerem em omissões dos pronomes sujeitos. Nesse sentido, podemos destacar que em português há maior facilidade ao ativarmos a estratégia de impessoalização, que visa à minimização da responsabilidade com o ato enunciado, assim como a ameaça à face do ouvinte. Ou seja, a impessoalização é uma estratégia que serve ao ouvinte e ao falante de modos diferenciados.
Exemplo 22:It’s broken- I broke it. (tradução para o português: Isso quebrou- eu quebrei isso.)
O exemplo nos mostra que o uso do pronome it omite o agente da situação, que por sua vez distancia-se de um possível ato ameaçador de face. Outro aspecto que podemos destacar nesse exemplo é a presença da voz passiva como uma estratégia de impessoalização, um recurso recorrente nos discursos acadêmico e jornalístico.
8. Categorize um ato de ameaça à face como uma regra geral
Esta estratégia parece funcionar segundo o critério da estratégia anterior, ou seja, através de uma generalização, da exaltação de um conhecimento proveniente do senso comum, um provérbio, ou uma lei. É possível atribuir a estes a responsabilidade de um determinado ato, eximindo-se,
assim, de algum tipo de afiliação com aquilo que está sendo enunciado.
Exemplo 23: We don’t sit on tables, we sit on chairs, Johnny. (tradução para o português: Nós não sentamos em mesas, nós sentamos em cadeiras, Johnny.)
9. Nominalize para distanciar o ator e adicione formalidade
Assim como as estratégias anteriores, a nominalização e a formalidade geram uma impessoalização, que por sua vez mantém uma distância considerável entre falante e ouvinte. Exemplo 24: I’m pleased to be able to inform you... - it’s pleasant to be able to inform
you…(tradução para o português: Eu estou contente por estar apto para informar a você… - É um prazer estar apto para informá-lo...)
10. Aja como se estivesse em débito com o interlocutor ou como se o interlocutor não lhe devesse nada
Essa estratégia relaciona o custo de uma ação pretendida com a promessa de um presente, ou apreciação do ouvinte, mas utiliza-se de meios cerimoniosos para não incorrer em danos à face negativa do ouvinte.
Exemplo 25: I´d be eternally grateful if you could... (tradução para o português: Eu estaria eternamente agradecido se você pudesse...)