Leech (1983) propôs as máximas da polidez, acreditando que em uma interação, seja para a sua iniciação, manutenção ou finalização, ser polido constitui-se como propósito fundamental de seus participantes para a eficiência do processo interativo.
O lingüista procurou desenvolver seis máximas que atendessem ao princípio de polidez segundo a escala de custo e benefício, cujo propósito principal é minimizar o custo ao outro, potencializando o seu benefício. Outras escalas são mencionadas pelo teórico com importância equivalente. São: escala da voluntariedade do ato, escala da qualidade do ato ser indireto, a escala de autoridade e a escala da distância social.
Sendo assim, podemos observar que, se é prioridade ser polido, o self deve estar atento ao princípio de polidez e às seis máximas respectivamente:
I) Máxima do discernimento: a) minimize o custo ao outro; b) maximize o benefício ao outro. Na interação, o falante deve amenizar qualquer ato que possibilite ao seu ouvinte algum tipo de custo na medida em que ele puder oferecer benefícios a este. A máxima do discernimento pode ser encontrada em diálogos, nos quais a negociação encontra-se em evidência, tais como os diálogos estabelecidos por atendentes de telemarketing.13
II) Máxima da generosidade: a) minimize o benefício para si próprio; b) maximize o custo para si próprio. A execução desta máxima compreende a construção da imagem que o ouvinte fará do falante, ou seja, quanto menos se beneficiar de um ato, mais considerado será pelo seu interlocutor.
III) Máxima de aprovação: a) minimize a depreciação do outro; b) maximize o enaltecimento do outro. Esta máxima requer do falante uma posição complementar à máxima anterior, pois favorece a construção de sua imagem perante o interlocutor, através da focalização da imagem do ouvinte. Ao enaltecer o outro, evitando qualquer tipo de depreciação deste, o falante facilitará o engajamento dele, deixando-o confortável.
IV) Máxima da modéstia: a) minimize o enaltecimento de si mesmo; b) maximize o enaltecimento do outro. Ao contrário da máxima anterior, esta tem como foco a imagem dos dois interlocutores, sendo o falante responsável por evitar qualquer associação positiva com a própria imagem.
V) Máxima de concordância: a) maximize a concordância entre si e outro; b) minimize a discordância entre si e o outro. Em muitas situações comunicativas, a concordância é uma estratégia eficiente de polidez, pois possibilita que os interlocutores sintam-se mais à vontade para comungar informações, na medida em que comunguem de idéias afins.
VI) Máxima da simpatia: a) minimize a antipatia entre um e outro; b) maximize a simpatia entre si e outro. O foco do falante é distanciar-se de uma imagem de si que não corresponda aos interesses do ouvinte, demonstrando-se simpático a esses.
Ao observar cada máxima, podemos perceber que a polidez, na perspectiva de Leech (1983), é orientada para o outro, o interlocutor, cabendo ao falante a função de amenizar situações desconfortáveis, maximizando o próprio custo para que o outro se sinta à vontade na interação.
Cada máxima tem a predominância de um ou mais fatores; desta forma, pode-se observar que as máximas do discernimento e da generosidade são sugeridas na relação de custos e benefícios gerada no ato da interação pelo falante em relação ao ouvinte. Já as máximas da aprovação e da modéstia estão correlacionadas com a presença de admiração ou não do falante pelo seu ouvinte. Por outro lado, a máxima da concordância é associada ao consentimento ou não do falante em relação aos atos do ouvinte, e a da simpatia está relacionada à simpatia ou antipatia do falante em relação ao seu ouvinte.
Diante disso, Brown e Levinson (1987) observaram que, assim como o modelo de Grice, no modelo de Leech da década de oitenta existim alguns problemas relacionados à quantidade e à sobreposição de máximas:
“Se nos fosse permitido criar uma máxima para toda regularidade do uso da língua, nós não somente teríamos um numero infinito de máximas, mas a teoria pragmática seria demasiadamente irrestrita para permitir o reconhecimento de qualquer contra-exemplo14. (Brown ; Levinson, 1987, p.4)
Certamente, essa, entre outras observações já haviam sido notadas por Leech, que tentou provar em sua teoria que algumas máximas poderiam ser mais importantes que outras. De acordo com ele, essa importância estaria relacionada ao fator cultural pré-existente às interações.
14 Texto original: If we are permitted to invent a maxim for every regularity in language use, not only we will have
2.4.1. Hierarquia das máximas
O lingüista acredita que, entre as máximas, existe uma espécie de hierarquia, que varia segundo a perspectiva do outro na interação e também com relação aos valores compartilhados culturalmente entre eles. Considerando as máximas I e IV, I parece ser mais poderosa que II, III e IV. Se isso for verdade, reflete uma lei mais geral da polidez, que é focada mais no outro que no self (LEECH, 1983: p.132).
Também podemos observar a hierarquia com relação à disposição das submáximas no modelo. Nota-se que cada sub-máxima b, aquela orientada ao self, parece ser menos importante que a sub-máxima a, orientada ao outro. De acordo com Leech, essa disposição tenta ilustrar a grande importância do outro na interação.
Apesar de não deixar claro, em sua teoria, até que ponto a cultura pode influenciar na escolha ou nível de importância de uma ou mais máximas, Leech não as encara como regras absolutas e sim como passíveis de adaptação, segundo valores culturais.
Outro fator que Leech não menciona na primeira fase de sua teoria é a importância do contexto também como uma variável determinante na hierarquia das máximas, pois se sabe que, dependendo da interação, uma ou outra máxima pode ser mais ou menos importante, quando pode não ser considerada pelos interlocutores de um determinado tipo de interação social.
2.4.2. As máximas da polidez e as categorias básicas dos atos ilocucionários
Partindo do pressuposto de que, ao enunciar algo, o falante atribui ao seu enunciado uma força que pode definir a forma como ele quer ser interpretado, Leech observa que, ao se comunicar por meio de uma máxima particular, o self utiliza alguma categoria especial de atos ilocucionários estabelecida por Searle.
Embora as categorias de ilocução de Searle correlacionem apenas dois tipos diferentes de polidez, Watts (2004, p.66) buscou associar a cada máxima uma ou mais categorias básicas dos atos ilocucionários15 estabelecidos por Searle (1969).
Assim, podemos observar que, quando o self se comunica pela:
I) Máxima do tato: podemos observar que a categoria que prevalece é aquela intitulada por
Searle como diretivos, pois o falante procurará diminuir o custo de uma imposição ao outro, uma vez que possa potencializar para si mesmo. Nesse caso, podemos ver na escala de custo e benefício dessa máxima os seguintes verbos: ordenar, pedir, aconselhar, recomendar, entre outros.
II) Máxima da Generosidade: quando o falante utiliza essa máxima, as categorias básicas que prevalecem são as categorias dos atos diretivos e comissivos, pois o self, ao tentar ser generoso com seu interlocutor ou com uma platéia, precisa tentar diminuir o grau de imposição, assim como se comprometer com a enunciação, de modo a garantir alguma credibilidade sobre aquilo que enuncia.
III) Máxima da Aprovação: no caso dessa máxima, o self tem como objetivo demonstrar a aprovação do seu interlocutor. Deste modo podemos relacionar a essa máxima as categorias expressivas e assertivas, pois exaltam em maior ou menor grau o compromisso do falante com relação à satisfação do outro. São exemplos dessas categorias os verbos: agradecer, parabenizar, gabar, afirmar, reclamar, etc;
IV) Máxima da modéstia: quando o self prefere ressaltar a imagem do outro em detrimento da sua, ele usa com preponderância as categorias expressivas e assertivas, pois ele tenta demonstrar carinho, admiração pelas qualidades do outro, ao passo que valoriza as qualidades e desejos desse, o self se compromete com que diz.
V) Máxima da concordância: ao concordar com o outro, além de buscar evitar uma discordância entre ambos, o self busca evitar conflitos interacionais e, para isso, o uso da categoria das assertivas demonstra-se adequada, pois o self compromete-se com a verdade da proposição expressa no grau que lhe for apropriado.
VI) Máxima da simpatia: assim como na máxima anterior, a categoria das assertivas parece ser a mais comum na realização dessa máxima, pois, para haver um grau de negociação saudável, é preciso que aquele que enuncia se comprometa com o que diz.
Como pôde ser observado, entre as cinco categorias estipuladas por Searle, apenas quatro fazem parte dos atos relacionados às máximas de Leech (1983) e, entre elas, a categoria das assertivas aparece em quatro das seis máximas.
Isso nos mostra que é de grande importância que o self, quando prefere ser polido, se comprometa com aquilo que enuncia em algum grau, demonstrando, ao seu interlocutor, alguma importância com relação à sua participação na interação.