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Foi realizada uma análise retrospectiva (corte transversal) de mulheres acima de 50 anos atendidas em uma clínica privada do DF - Centro Médico Integrado Ltda. (CNPJ 04.403.011.0001-73) - entre novembro de 2001 a outubro de 2008. Ao todo, foram revisados 9207 prontuários, sendo selecionados 1356 de mulheres acima de 50 anos de idade. Destas, 452 possuíam diagnóstico de hipotireoidismo e 632 não tinham esse diagnóstico. Em 272 mulheres, a dosagem sérica de TSH não tinha sido realizada, sendo então, excluídas da análise feita.

A partir da revisão dos prontuários, as participantes foram divididas em dois grupos: um com diagnóstico HAI, e, outro grupo, sem etiologia definida, mas com dosagem negativa de anticorpos pesquisados e, portanto, considerados como NAI. Cada grupo foi dividido de acordo com a faixa etária: 1) entre 50 e 59 anos; 2) entre 60 e 69 anos e 3) acima de 70 anos; e, então, comparado e avaliado. Os dados foram estatisticamente analisados pelo método Qui-Quadrado (X2) do programa SPSS versão 13.0. O projeto de

pesquisa foi submetido e aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Brasília – UCB (Of. 162/2008) (Apêndices 1 e 2).

RESULTADOS

A amostra constituiu-se de 1084 mulheres entre 50 e 98 anos (média ± DP de 61,2 ± 8,8 anos; mediana 58). Entre essas, 452 delas possuíam diagnóstico de hipotireoidismo, enquanto em 632 delas, esse diagnóstico foi excluído. Os dois grupos foram divididos de acordo com a faixa etária: a) entre 50-59 anos; b) entre 60-69 anos; c) acima de 70 anos e comparados em números absolutos e relativos. Verificou-se, então, que a prevalência do hipotireoidismo aumentou com a idade: 36,5% no grupo de 50-59 anos; 44,2% no grupo de 60-69 anos e 55,9% no grupo acima de 70 anos, um aumento estatisticamente significativo (ρ = 0,01) (TABELA 1).

Faixa Etária (anos)

50-59 60-69 > 70 Total Com hipotireoidismo 36,5% (n = 224) 44,2% (n = 134) 55,9% (n = 94) 41,7% (n = 452) Sem hipotireoidismo 63,5% (n = 389) 55,8% (n = 169) 44,1% (n = 74) 58,3% (n = 632) Total 100% (n = 613) 100% (n = 303) 100% (n = 168) 100% (n = 1084) Tabela 1: Distribuição da amostra avaliada segundo grupo etário e prevalência de hipotireoidismo em números absolutos e relativos.

Das 452 mulheres com hipotireoidismo (média de idade ± DP de 61,3 ± 9,0 anos; mediana 59); 409 delas foram consideradas como tendo hipotireoidismo espontâneo clássico, aqui definido como hipotireoidismo primário sem causa induzida, e, em 43 casos, outras causas estavam associadas, como uso de medicamentos (lítio e amiodarona), cirurgias (tireoidectomia ou hipofisectomia), insuficiência renal crônica, e radioiodoterapia prévia.

Com objetivo de comparar as causas espontâneas de hipotireoidismo primário, 59 casos em que a dosagem de anticorpos anti-tireoidianos não havia sido realizada foram excluídos da análise. Assim, 350 mulheres com hipotireoidismo foram divididas em grupos etários e classificadas segundo a origem auto-imune (HAI) ou não (NAI) dessa doença. Observou-se que, em todas as faixas etárias, o HAI foi mais freqüente que o NAI. Igualmente, a relação entre as causas auto-imune e não auto-imune de hipotireoidismo permaneceu inalterada nos diferentes grupos etários (ρ = 0,93) (TABELA 2).

Hipotireoidismo Espontâneo Clássico

Faixa Etária (anos)

50-59 60-69 > 70 Total HAI 58,2% (n= 100) 52,4% (n= 55) 57,5% (n= 42) 56,3% (n= 197) NAI 41,8% (n= 72) 47,6% (n= 50) 42,5% (n= 31) 43,7% (n=153) Total (n= 172) (n= 105) (n= 73) (n= 350)

Tabela 2: Causas de hipotireoidismo espontâneo clássico de acordo com grupo etário.

A seguir, foi então realizada análise para comparar a freqüência das formas clínicas de hipotireoidismo espontâneo nos dois grupos, HAI e NAI. Para tanto, 93 mulheres foram excluídas, tendo em vista em que esse diagnóstico não pôde ser estabelecido, uma vez que

elas já chegaram ao serviço em curso do tratamento e não tendo sido possível resgatar a dosagem inicial do TSH e T4 livre ao momento do diagnóstico. Desta forma, 257 casos de hipotireoidismo foram avaliados. No grupo HAI, observou-se que a forma subclínica foi mais comum até 70 anos, embora tenha sido observado um crescente aumento da freqüência da forma clínica com o aumento da idade (ρ = 0,05), passando a haver predominância desta forma no grupo de mulheres com 70 anos ou mais.

Em contrapartida, no grupo NAI, houve uma constância das formas clínicas (hipotireoidismo subclínico e franco) ao longo das faixas etárias, tendo a forma subclínica predominância em todas elas (ρ > 0,05) (TABELA 3).

Faixa Etária (anos)

Hipotireoidismo Espontâneo Clássico 50-59 (n= 131) 60-69 (n= 75) > 70 (n= 51) SC F SC F SC F HAI 73,4% (n= 58) 26,6% (n= 21) 55,5% (n= 20) 44,5% (n= 16) 37,0% (n= 10) 63,0% (n=17) NAI 76,9% (n= 40) 23,1% (n= 12) 79,4% (n= 31) 20,6% (n= 08) 87,5% (n= 21) 12,5% (n= 03) Tabela 3: Relação das causas de hipotireoidismo com suas formas clínicas de acordo com grupo etário. Forma subclínica (SC) e franca (F). Hipotireoidismo auto-imune (HAI) e não auto-imune (NAI)

DISCUSSÃO

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Com o advento do envelhecimento populacional e, também, com o fenômeno da feminização da velhice, as repercussões que o processo de envelhecimento têm sobre a tireóide passam a ter um significado relevante (18). Isso se deve, sobretudo, ao crescente aumento da prevalência dos distúrbios da tireóide que ocorre com a idade, especialmente na população feminina (19; 20).

Adicionalmente ao reconhecimento dessas repercussões sobre a tireóide, outra questão torna-se inerente a este evento: deverá esse conjunto de alterações conseqüentes ao envelhecimento ser considerado fisiológico ou patológico? Da mesma forma: é possível dizer que, à semelhança de outras glândulas endócrinas, a tireóide também faça a sua pausa – a tireoidopausa? (21)

Neste estudo, em concordância com a literatura científica, demonstrou-se que o hipotireoidismo é uma doença idade-dependente, ou seja, quanto maior a idade, maior a sua freqüência (22; 23). Entretanto, deve-se aqui ressaltar que as freqüências encontradas para as diferentes faixas etárias foram muito altas quando comparadas às prevalências obtidas de estudos populacionais. Esse viés decorre do fato de que a amostragem foi retirada de uma população de mulheres cujo atendimento ocorreu numa clínica específica de endocrinologia.

Da mesma forma, observou-se que a auto-imunidade foi o fator etiológico predominante nas mulheres pós-menopausadas em todas as faixas etárias consideradas (24). Entretanto, diferentemente daquilo que outros autores têm evidenciado, aqui não se identificou que o hipotireoidismo auto-imune apresente freqüência crescente. Isso pode ser

atribuído ao fato de que, após a menopausa, a mulher pára de ser submetida a um contexto de instabilidade nos níveis de estrogênio uma vez que existem evidências favoráveis ao fato de que períodos de instabilidade na produção de estrogênio, como a puberdade, a gestação e o climatério, estão associados a um maior risco de desencadeamento de doenças auto- imunes (23; 24).

Considerando as formas clínicas, quando se avaliou a freqüência de hipotireoidismo franco e subclínico, verificou-se que, entre os casos de HAI, há uma crescente freqüência da forma franca com a idade (25), sendo que, a partir dos 70 anos, esta forma sobrepuja o HAI subclínico. Isto pode ser explicado por meio de dados científicos que revelam que indivíduos com hipotireoidismo subclínico, em vigência da positividade dos anticorpos anti-tireoidianos, especialmente o anti-TPO, apresentam uma evolução, em média, de 5% ao ano de conversão para o hipotireoidismo franco (26). Assim, a dosagem dos anticorpos anti-tireoidianos mostra-se especialmente útil no intuito de prever a evolução do hipotireoidismo subclínico para o franco (27). Isto se deve ao fato de que a tireoidite auto- imune de Hashimoto é uma doença inflamatória crônica que, ano após ano, ocasiona danos cumulativos à tireóide, ocasionando um maior possibilidade de evolução para distúrbios funcionais, freqüentemente, o hipotireoidismo (28).

Em contrapartida do que foi observado na HAI, notou-se que as freqüências das formas clínicas, franca e subclínica, nos casos de NAI não se modificaram nas diferentes faixas etárias. Embora sob o diagnóstico de NAI, possa existir um conjunto heterogêneo de causas etiológicas, inclusive auto-imunes cujos anticorpos ainda não foram identificados, a falta de observação do aumento da freqüência da forma franca com a idade vai contra esse argumento. Uma vez que, mesmo que os anticorpos sejam desconhecidos, seria provável a

evolução de um certo número de casos da forma subclínica para a franca, conseqüente ao dano cumulativo já mencionado, o qual não foi observado neste estudo.

Tendo em vista o referido achado, o mesmo pode servir como subsidio à teoria da tireoidopausa de origem primaria, em que situações inerentes ao processo de envelhecimento, como a inflamação crônica, poderiam levar a uma diminuição da atividade funcional da tireóide, que muitas vezes se mantém de forma leve. Certamente, os dados aqui são epidemiológicos e primários, sendo necessários estudos futuros para melhor avaliar se a tireóide faz também a sua “pausa”, a exemplo do que ocorre nas gônadas (menopausa/andropausa) ou com a produção do hormônio do crescimento (somatopausa).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Uma vez que os hormônios tireoidianos desempenham papel em praticamente todas as funções do organismo, e, considerando o envelhecimento populacional uma realidade, fica claro o quão é importante conhecer os marcadores e determinantes da tireoidopausa, objetivando diferenciar os processos adaptativos e patológicos, de modo a estabelecer diretrizes terapêuticas e referências laboratoriais mais adequadas à população idosa.

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APÊNDICES

2- Termo de Consentimento Livre e Esclarecido

TERMO DECONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO

Título do Projeto: ANÁLISE RETROSPECTIVA DE PACIENTES CLIMATÉRICAS COM HIPOTIREOIDISMO: PROCESSO FISIOLÓGICO (ADAPTATIVO) OU PATOLÓGICO?

Pesquisadores Responsáveis: Prof. Dr. Adriano Bueno Tavares Mestranda Fernanda Silveira Tavares

Este projeto tem o objetivo analisar o seu prontuário e colher dados estatísticos, de interesse científico, para o estudo do hipotireoidismo (doença da tireóide), como idade, alterações em exames já realizados, sintomas, início de aparecimento, entre outros dados. Esse procedimento não lhe oferecerá riscos ou mudança em seu tratamento. É apenas uma coleta de dados do seu prontuário.

Após ler e receber explicações sobre a pesquisa, e ter meus direitos de:

9 receber resposta a qualquer pergunta e esclarecimento sobre os procedimentos, riscos, benefícios e outros relacionados à pesquisa;

9 retirar o consentimento a qualquer momento e deixar de participar do estudo;

9 não ser identificado e ser mantido o caráter confidencial das informações relacionadas à privacidade.

9 procurar esclarecimentos com o Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Católica de Brasília, através do telefone 3356-9784, em caso de dúvidas ou notificação de acontecimentos não previstos.

Eu,... Identidade..., declaro que fui informada e devidamente esclarecida do projeto de pesquisa acima descrito desenvolvido pelo curso de mestrado em Gerontologia da Universidade Católica de Brasília-UCB, quanto aos itens da resolução 196/96.

Declaro que, após ser esclarecido pelo pesquisador a respeito da pesquisa, consinto voluntariamente em participar desta pesquisa.

Nome:... RG:... Data de nascimento:.../.../... Sexo M ( ) F (X) Endereço:... Cidade:... CEP:... Telefones:... _______________________________________________

Assinatura do declarante

Eu, Fernanda Silveira Tavares, declaro que forneci todas as informações referentes ao projeto ao participante e/ou responsável.

______________________________________________ Fernanda Silveira Tavares – (61) 3351-1681