No prólogo, em 624a, há indagações entre O ateniense, Clínias e Megilo sobre a forma como as disposições legais são estabelecidas em seus respectivos Estados, havendo um consenso no sentido de que suas criações são divinas:147 Nota-se, então, uma preocupação entre aqueles que dialogam a respeito da guerra como meta da legislação, em 625d-e: “Clínias: (…) E assim todos estes nossos costumes são adaptados à guerra e, na minha opinião, era este o objetivo que o legislador tinha em mente quando os determinou a todos”.
Após as reflexões sobre a guerra como cerne da elaboração das leis, em 627a-b, surgem questionamentos com relação à virtude total dever ser a meta de toda legislação e sobre como um Estado pode não somente ser afetado pelas guerras externas, como também pelas guerras intestinas.
A discussão acerca das virtudes, que já foi explorada, como vimos, em diversas obras como Protágoras e A República, volta a baila e se aprofunda e cada um dos dialogantes expõe seus pensamentos. Percebe-se ao longo do
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WATANABE, Lygia Araújo. Op. cit., p. 108.
147O ateniense: A quem atribuis, estrangeiros, a autoria de vossas disposições legais?
A um deus ou a algum homem? Clínias: A um deus, estrangeiro, com toda a certeza a um deus. Nós, cretenses, chamamos de Zeus o nosso legislador, enquanto na Lacedemônia, onde nosso amigo aqui tem seu domicílio, afirmam – acredito – ser Apolo o deles. Não é assim, Megilo?
discurso uma hierarquia como fio condutor de tais virtudes, temos a sabedoria, a prudência e a justiça. Ainda no discurso sobre as virtudes, verifica-se a distinção entre os bens humanos e os bens divinos, e nessa seara também se delineia uma hierarquia entre eles, posicionando-se os bens divinos acima dos bens humanos, como se verifica em 631b-d:
O ateniense: (…) Ora, os bens são de duas espécies, a saber,
humanos e divinos; os bens humanos dependem dos divinos e aquele que recebe o maior bem adquire igualmente o menor, caso contrário é privado de ambos. Entre os bens menores a saúde vem em primeiro lugar, a beleza em segundo, o vigor em terceiro, necessário à corrida e todos os demais exercícios corporais; segue- se o quarto bem, a riqueza, não a riqueza cega, mas aquela de visão aguda, que tem a sabedoria por companheira. A sabedoria, a propósito, ocupa o primeiro lugar entre os bens que são divinos, vindo racional moderação da alma em segundo lugar; da união destas duas com a coragem nasce a justiça, ou seja, o terceiro bem divino, seguido pelo quarto, que é a coragem. Ora, todos estes bens estão posicionados, por natureza, antes dos bens humanos, e, em verdade, assim deverá o legislador posicioná-los, depois do que deverá ser proclamado aos cidadãos que todas as outras instruções que recebem têm em vista esses bens; e que os bens humanos são orientados para os bens divinos, e estes para a razão, que é soberana.
Entende-se que a coragem é uma virtude muito importante para o Estado, pois ele, enquanto instituição bélica, precisa que seus homens tenham tal virtude. E, nessa busca, os homens que servirão e lutarão por ele deverão combater o temor, a dor e muitas formas de desejos, que podem atrapalhar seus objetivos mais nobres, como vemos em 633c-d.
A temperança também é vista como uma grande virtude e, para ser preservada, sugere-se que os exercícios físicos e as alimentações regradas sirvam de incentivo. Em 636a: “Megilo: Certamente um assunto nada fácil! E, no entanto, provavelmente os repastos comuns e os exercícios físicos constituem boas concepções para fomentar essas duas virtudes”.
Então, a partir de reflexões sobre os meios de se alcançar a temperança, surge uma nova pauta, o problema da embriaguez e suas consequências para a manutenção das virtudes. Entende o ateniense, portanto, que somente “homem sóbrio e sábio que devemos instalar no comando de indivíduos ébrios, não o contrário, visto que um chefe de ébrios que fosse ele mesmo ébrio, jovem e tolo, se revelaria um grande felizardo se conseguisse se furtar a cometer um sério dano”.
Ainda no assunto acima abordado, “O ateniense” também se preocupa em analisar se há algum proveito dos banquetes regados a vinho para a educação, em 641b-c:148
Diante dos pensamentos do estrangeiro ateniense, Megilo declara sua admiração por Atenas (642c), posteriormente Clínias também o faz (642e) “(...) Então nossos ancestrais passaram a permutar hospitalidade e amizade com os vossos, e desde então tanto meus pais quanto eu desenvolvemos uma afeição por Atenas”.
À frente, por meio de muitas comparações e análises, o ateniense enuncia sua definição do que é a educação:
O ateniense: O que afirmo é que todo homem que pretenda ser bom
em qualquer atividade precisa dedicar-se à prática dessa atividade em especial desde a infância utilizando todos os recursos relacionados a sua atividade, seja em seu entretenimento, seja no trabalho. (643b)
(...)
O ateniense: (…) a educação a que nos referimos é o treinamento
desde a infância na virtude, o que torna o indivíduo entusiasticamente desejoso de se converter num cidadão perfeito, o qual possui a compreensão tanto de governar como a de ser governado com justiça. (643e).
Em 644d-e e 645a-c o ateniense oferece uma alegoria em que apresenta a imagem das marionetes.149 Nessa alegoria, dão-se alguns passos importantes sobre
148 O ateniense: Bem, que grande vantagem diríamos que adviria ao Estado a partir do correto
controle de uma única criança ou de um grupo de crianças? A uma tal questão assim colocada a nós responderíamos que o Estado extrairia pouco proveito disso; se, entretanto, se formula uma questão geral com referência a qual vantagem efetiva extrai o Estado da educação das crianças, então prover uma resposta será extremamente simples pois responderíamos que crianças bem educadas se revelarão bons indivíduos, que sendo bons vencerão seus inimigos em batalha, além de agirem com nobreza em relação a outras coisas. Assim, se por um lado a educação também produz vitória, esta, por vezes, produz falta de educação visto que os homens amiúde se tornam mais insolentes devido à vitória na guerra, e através de sua insolência se tornam repletos de outros vícios incontáveis; e se ao passo que a educação jamais se mostrou até agora cadmiana, as vitórias que os homens obtêm na guerra com frequência foram e serão cadmianas.
149“O ateniense: Vamos conceber a matéria da seguinte maneira: suponhamos que cada um de nós,
criaturas vivas, é uma engenhosa marionete dos deuses, ou inventado para ser um brinquedo deles, ou para um propósito sério – com referência ao que nada sabemos, exceto que esses nossos sentimentos interiores, como tendões ou cordéis, os arrastam e, sendo postos em oposição recíproca, arrastam-se uns contra os outros para ações contrárias; e aqui jaz a linha divisória entre a virtude e o vício, pois como indica nosso raciocínio, é forçoso que todo homem obedeça a uma dessas forças de tração, não a soltando em nenhuma circunstância, contrabalançando desta forma à tração dos outros tendões: é o fio condutor, dourado e sagrado, da avaliação que se intitula lei pública do Estado; e enquanto os outros cordéis são duros e como aço, e de todas as formas e aspectos possíveis, esse fio é flexível e uniforme, visto que é de ouro. Com esse excelentíssimo fio condutor da
o poder e o como devem os homens ser conduzidos. Alegoricamente, explica-nos que, nós, como marionetes, podemos ser conduzidos por duas espécies de fios, um de ouro e outro de aço. Os fios de ouro conduzem as leis do Estado e as virtudes que se espera, já os fios de aço contém em si os vícios e as deficiências que tornam o homem em injusto, dualizando, nessa alegoria, o corpo da alma, o vicio da virtude, o sensível e o inteligível e o justo do injusto.
6.2.2 Livro II – Os banquetes e vinho, educação com base nas virtudes; a