Temos até aqui uma discussão acumulada que engloba elementos teóricos da paisagem, da imagem, dos totens e das práticas turístico-religiosas hipermodernas. Entretanto cabe destacar que neste jogo simbólico de imagens religiosas compondo paisagens totêmicas também teremos uma lógica de poder tocando estas dimensões. A partir do momento que assumimos que existem tensões e conflitos envolvidos na produção, reprodução e consumo de imagens religiosas totêmicas também assumimos que há uma disputa, um jogo de poder. Dito isto, precisamos perceber como as paisagens religiosas na tônica da hipermodernidade se comportarão como ícones urbanos que representarão a detenção de poder por determinado grupo. Poder este que é alcançado através das demarcações espaço-paisagísticas na forma dos grandes ícones totêmicos católicos.
Dentro de uma perspectiva semiótica, o ícone pode ser entendido como um signo visual e concreto inscrito em suporte material que representa outros objetos por características de semelhança podendo ter um caráter substitutivo. Visualizar o desenho de um garfo e uma faca cruzados inscritos em uma placa nos dá rapidamente a ideia de que nas proximidades encontraremos um restaurante, por exemplo.
Cabe então indagar: em que medida as grandes estátuas católicas são, por força de semelhança, ícones totêmicos? Em que medida os totens católicos para se efetivar precisam tornar-se ícones urbanos? Como o processo de iconização passa também por questões relacionadas a uma geopolítica da visibilidade? Para responder estas perguntas dialogamos diretamente como Monnet (2006) e Aragão (2015) e a partir daí podemos avançar no trato teórico e perceber que a simbologia que envolve os totens católicos.
Monnet (2006) aponta que o exercício de compreender as relações sociais é também um exercício de compreender como os signos são apropriados pelos sujeitos (individuais ou coletivos) e como estes se relacionam com o mundo a partir desta visualidade. O autor destaca em sua reflexão o papel da visão nos processos cognitivos.
L’appropriation de l’espace par un acteur individuel ou collectif, autant que la reconnaissance d’une appropriation par autrui, passent par la visibilisation des signes de l’appropriation. Nous explorerons l’hypothèse d’une interaction dynamique entre la production sociale des lieux (la territorialisation), de leurs significations (la symbolisation) et de leurs icônes (l’iconisation), en considérant que la gestion tant de l’espace concret que de ses représentations est un instrument d’expression et de contrôle des relations humaines. (MONNET, 2006, p. 2)
Monnet vai destacar que a geopolítica da visibilidade se comporta com elementos parecidos com os da geopolítica geral considerando inclusive a questão da escala: “jeux de pouvoir médiatisés par le contrôle de l’espace géographique, du local au global.” (2006, p. 2). O autor aborda em suas reflexões a cidade do México e vai apontar como os ícones urbanos alimentam uma geopolítica que além da visibilidade é também uma geopolítica da iconografia, pois a produção e circulação de ícones representa a capacidade de cada ator urbano em promover interesses e controlar o espaço (MONNET, 2006).
É importante, contudo, que façamos uma diferenciação para facilitar a análise: Ao falarmos de geopolítica da visibilidade, assim como Monnet (2006) e Aragão (2015), partimos da análise de como os signos (sejam totêmicos ou não) se tornam ícones (processo de iconização). Isto ocorre, entre outras formas, através de sua midiatização, ou seja, pelos meios de comunicação diversos impulsionando, reproduzindo e projetando a visibilidade daquela estrutura. O símbolo tornar-se-á ícone a partir disso. Por isso que Aragão (2015) afirma que analisar como o totem Padre Cícero foi transformado em ícone é um bom suporte para analisar
os demais totens católicos e compreender como eles estão sendo "promovidos" a partir da articulação dos agentes envolvidos.
Já na geopolítica da iconografia vê-se como a hegemonia da Igreja Católica em vínculo com os demais agentes promotores dos totens católicos atua com a produção destes totens e escondem (deixando de fora dos jogos políticos, midiáticos, comunicacionais) outros ícones dos demais segmentos religiosos.
E quais os paralelos que podemos traçar entre ícones discutidos por Monnet e os ícones totêmicos discutidos nesta pesquisa? Aragão (2015) ao estudar os processos de patrimonialização e a geopolítica da visibilidade que envolvem o Horto de Padre Cícero e o totem católico que ornamenta o santuário traz contribuições interessantes para pensarmos os totens católicos também como ícones. Para entender a geopolítica que envolve esta produção de imagens, ícones e totens precisamos compreender que lutas são travadas, embora sejam lutas simbólicas, os atores envolvidos nestes processos se empenham para garantir a manutenção de seu poder, como o autor expõe abaixo:
A luta é travada entre os próprios romeiros e as instituições. Os primeiros fazendo uso do simbólico e mantendo a força viva do patrimônio pela força dessa simbologia, ou melhor, alimentando a fé popular. Daí o dinamismo e sentido de patrimônio em sua característica social. O lugar territorializado Horto é o palco dessa luta.
Do outro lado, há as instituições Igreja Católica e Estado, ambos tentando levar vantagens, sejam elas econômicas ou religiosas sobre a força da criatividade imaginária dos romeiros e de muitos moradores da cidade. É dessa forma que é mantida a territorialidade da Estátua e também do Horto, lugar onde ela foi erigida. (ARAGÃO, 2015, p. 2)
No caso específico do ícone totêmico de Juazeiro do Norte, percebemos como são vastas as estratégias da geopolítica da visibilidade que envolve o local. Desde estratégias de patrimonialização, institucionalização, retóricas de preservação e até a turistificação do monumento através de eficientes marketings publicitários. O totem de Padre Cícero talvez seja o caso mais emblemático do processo de iconização a serviço de uma geopolítica da visibilidade que vai conseguindo se efetivar até uma geopolítica da iconografia.
Deste modo, percebemos que os demais totens desta pesquisa também começam a dar os primeiros passos no processo de iconização e os diversos atores sociais que já projetam desde a idealização (processo de escritura) dos mesmos suas intencionalidades e interesses continuarão a se empenhar neste jogo simbólico para que a paisagem religiosa e totêmica consiga se firmar como um ícone urbano a partir de diversos processos de leitura. Para tal recorrem às estratégias bem-sucedidas observadas em outras realidades a adotam uma retórica baseada no tríplice do desenvolvimento econômico (avançar com o mercado), da cultura e tradição (respeitar a história) e da importância da religiosidade na vida social (agradar a Deus).
Figura 4 – Elementos de constituição de uma Geopolítica da Iconografia