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Conforme já foi dito, a questão principal é pesquisarcomo é feita a regulação do regime articulado do ensino vocacional da música (numa escola de música pública e numa escola de música particular). Tendo em atenção todas as questões que se pretendem compreender e analisar, focalizando a preocupação em apreender o significado da contribuição dos diferentes atores no presente processo em estudo, a metodologia que se adota é uma metodologia qualitativa, congruente com o paradigma naturalista.

“Um campo que era dominado pelas questões da mensuração, definições operacionais,

variáveis, teste de hipóteses e estatística, alargou-se para contemplar uma metodologia de investigação que enfatiza a descrição, a indução, a teoria fundamentada e o estudo das percepções

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pessoais. Designamos esta abordagem por “Investigação Qualitativa”.”Bogdan, R. e Biklen, S.

(1994, p.11).

Na investigação qualitativa, os pesquisadores preocupam-se, e ocupam-se, mais com o processo, isto é, necessitam saber como ocorrem os fenómenos e, quais as relações que se estabelecem entre esses fenómenos, buscam a compreensão particular do que pretendem estudar não se preocupando com generalizações. A sua abordagem refere-se assim, ao estudo das representações sociais, perspetivas, vivências, experiências de vida, sentimentos, intuições e significações. O foco da sua atenção centraliza-se no específico, no peculiar, para atingir a compreensão do fenómeno estudado. Por isso, o investigador e os sujeitos que investiga estão interrelacionados, existindo uma influência recíproca, geralmente ligados a atitudes, motivações e sentimentos, proporcionando às pessoas a oportunidade de revelarem, com toda a complexidade e intensidade, os mesmos.

Os exemplos clássicos deste tipo de abordagem qualitativa de investigação são os estudos antropológicos sobre culturas, e os estudos sociológicos de pessoas e/ou instituições. Os primeiros foram desenvolvidos, nos finais do século XIX, pelos antropólogos Lewis Henry Morgan, Franz Boas e Bronislaw Malinowski, que realizaram diversos estudos sobre as sociedades tradicionais. Os segundos foram desenvolvidos a partir do início do século XX, pela Universidade de Chicago, distinguindo-se os seus investigadores pela produção de estudos sobre os problemas sociais, que a cidade atravessava, e que pretendiam encontrar uma solução para esses problemas concretos (Bogdan, R. e Biklen S. 1994, ps.25-28). A Escola de Chicago contribuiu não só para a abertura de novas correntes teóricas, como a fenomenologia e a etnometodologia, mas também para um maior desenvolvimento da investigação qualitativa.

Neste contexto, a investigação qualitativa abrange um campo transdisciplinar, porque envolve as ciências humanas e sociais, assumindo vários paradigmas de análise e métodos de investigação para o estudo do fenómeno, procurando não só encontrar a compreensão do mesmo, como também interpretar os significados que as pessoas dão ao fenómeno.

Nas ciências da educação é usual assumir-se o paradigma naturalista, dando-se maior relevância ao critério de medição da qualidade, em vez do paradigma positivista cuja

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relevância recai na mensuração quantitativa. Wildemuth (1993) explica assim os dois paradigmas:

“Two such paradigms are positivist and interpretive, or phenomenological, approaches to research. The positivist approach is, as Fred N. Kerlinger defines scientific research, the “systematic,

controlled, empirical, and critical investigation of natural phenomena guided by theory and

hypotheses about the presumed relations among such phenomena.”This approach assumes that reality is objective, transcending an individual’s perspective, and that it is expressed in the

observable statistical regularities of behavior. It is with this epistemological assumption that the interpretive approach takes issue. Interpretive approaches (for example, ethnography and symbolic interactionism) assume that reality is subjective and socially constructed and that the way to

understand this reality is “to know what the actors (in a particular social world) know, see what they see, understand what they understand”.

O presente estudo adota o tipo de investigação de natureza qualitativa, uma vez que se pretende compreender as motivações dos diferentes atores que levaram à implementação do regime articulado; as alterações que este regime provocou nas escolas; a forma como as escolas se adaptaram a essas alterações; os constrangimentos que sentiram, e por fim, perceber a maneira como os diferentes atores vivenciaram essa implementação face à regulação que lhes foi imposta.

A investigação qualitativa é definida por algumas características, que Bogdan e Biklen (1994) consideram ser essencialmente cinco, podendo ou não, estarem todas apresentadas em cada investigação, uma vez que se trata de uma questão de grau e não de quantidade:

(i) a primeira prende-se com o ambiente natural, como fonte direta dos dados, sendo o investigador o instrumento principal, ou seja, (...) os investigadores qualitativos assumem que o comportamento humano é significativamente influenciado pelo contexto em que ocorre, deslocando-se, sempre que possível, ao local de estudo.” (Bogdan e Biklen 1994, p.48);

(ii) a segunda diz respeito ao carácter descritivo, que funciona como método de recolha de dados, “Os dados incluem transcrições de entrevistas, notas de campo (...) e outros registos oficiais.” (idem);

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(iii) outra característica mostra o interesse mais pelo processo do que pelos resultados; o investigador coloca várias questões que dizem respeito à sua preocupação de perceber o significado que as pessoas dão às coisas e à sua vida;

(iv) a quarta característica enuncia a análise de dados de forma indutiva, “O investigador qualitativo planeia utilizar parte do estudo para perceber quais são as questões mais importantes. Não presume que se sabe o suficiente para reconhecer as questões importantes antes de efectuar a investigação.” (Bogdan e Biklen 1994, p.50);

(v) a quinta característica explica a importância do significado na abordagem qualitativa, “Os investigadores qualitativos em educação estão continuamente a questionar os sujeitos de investigação” visto que “O processo (...) reflecte uma espécie de diálogo entre os investigadores e os respectivos sujeitos” Bogdan e Biklen (1994, p.51) não existindo neutralidade nesta abordagem.

Na investigação qualitativa em educação existe uma interação muito grande entre o investigador e o sujeito investigado. Merriam (1998) entende que a investigação qualitativa é baseada no termo do “chapéu de chuva” sob o qual cabem diversas orientações. Seja qual for a orientação que cada autor ou corrente metodológica lhe quiser atribuir, na investigação qualitativa em educação existem algumas características essenciais que são partilhadas por todos os investigadores: the goal of eliciting understanding and meaning, the researcher as primary instrument of data collection and analysis, the use of fieldwork, an inductive orientation to analysis, and findings that are richly descriptive.” (Merriam, 1998, p.11). Como se pode verificar, também Merriam (idem) enuncia como características gerais a compreensão dos fenómenos, o investigador como peça fundamental da investigação, o trabalho de campo e a orientação indutiva.

De facto, na presente investigação, para além da descrição do regime articulado, interessa a compreensão deste regime segundo as lógicas de ação dos alunos e famílias, dos

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professores, direções dos estabelecimentos de ensino e tutela, de modo a construir um modelo de regulação deste subsistema educativo. Como refere Friedberg (1993, p.300):

“A partir do conhecimento que essa análise lhe fornece, o analista poderá reconstruir não só os jogos

entre actores, mas também, com esses jogos, a natureza dos modos de regulação que estruturam esse

sistema de acção concreto e particular.”

Com efeito, ao escolher este tipo de investigação, pretende-se assim valorizar a análise dos processos organizacionais, do comportamento dos seus atores, bem como o sentido que atribuem às suas ações, através de uma postura descritiva e interpretativa.