2. RESSURSBASERT STRATEGI, FØRSTESTEGSFORDELER OG PRODUKTDIFFERENSIERING
2.1 DET RESURSBASERTE SYNET PÅ STRATEGI OG FIRST-MOVER BEVEGELSEN
2.1.1 Innledning
Alguns dirão, observam os autores (p. 245), que a função da escola não se reduz a inculcação ideológica: as matemáticas, a física, a tecnologia, etc., não são ideologia. Contudo, acrescentam que é como a representação corrente apresenta a escola, como um lugar de aprendizagem, dos conhecimentos teóricos e práticos socialmente produtivos, das técnicas e dos saberes mais ou menos complexos, mais ou menos desenvolvidos. Entretanto, se é possível compreender que as técnicas ou saberes materiais podem ser utilizados no marco das relações sociais de exploração, parece à primeira vista impossível considerar todo o saber material, nesse sentido, como um discurso ideológico. “É por isso que ao lado de críticas ‘esquerdistas’ da escola, que se esforçam para ‘derrubar’ as teses da ideologia dominante, afirmando que na escola não se aprende em realidade nenhum saber, se vêem também desenvolver posições comprometidas, ecléticas, reformistas, que reconhecem a função ideológica de classe da escola com a condição de produzir-se um lugar junto à sua função cultural, de saber, de aprendizagem técnica, etc” (p. 245).
Quanto a essa discussão, os autores assinalam três questões que lhes parecem importantes:
1) É evidente que o aparelho escolar contribui para a reprodução da qualidade da força de trabalho, e se esta última não recebeu verdadeira qualificação, deve se adestrar realmente seja nas escolas de aprendizagem das empresas ou no trabalho. Esta contribuição à reprodução da qualidade da força de trabalho consiste na transmissão de conhecimento e destreza (ler, escrever, contar, e outras coisas para os qualificados ou técnicos). Todos esses conhecimentos e destreza contam com núcleos de objetividade e com um sentido produtivo, mesmo quando os conteúdos são incompletos e contraditórios. Esta claro também que o aparelho escolar dispensa os conteúdos propriamente científicos aos alunos da SS. Se fora de outro modo, o processo de escolarização não poderia contribuir, a sua maneira, à reprodução das condições materiais da produção, pois a produção social é em si uma transformação material da natureza. Supõe, então, o conhecimento objetivo sob formas históricas diversas.
2) Entretanto, essa necessidade não impede que todas as práticas sejam de inculcação ideológica, e que este seja o aspecto dominante. Toda prática de inculcação ideológica, por mais simples que seja, supõe uma habilidade nas técnicas apropriada a sua aprendizagem. No entanto, o que é próprio da prática escolar é justamente neutralizar toda diferença entre os conteúdos que têm um valor de conhecimento ou uma finalidade produtiva e os que têm uma função ideológica, porque todos os conteúdos de escolarização são ensinados exatamente da mesma maneira, como habilidades escolares. Não há nenhuma diferença prática entre a aprendizagem do francês correto e a da aritmética correta, nem entre a aprendizagem da retórica literária e filosófica onde se realiza a ideologia burguesa da consciência individual e a aprendizagem da lógica, implícita ou explícita nos raciocínios matemáticos. O valor do conhecimento de uma habilidade não se manifesta, não existe realmente além do seu uso produtivo, seja em sua aplicação na produção material, seja na busca de novos conhecimentos. Entretanto, de maneira necessária, este uso está completamente ausente da escola e das práticas escolares, os conhecimentos são utilizados unicamente no marco dos problemas fictícios, fabricados no seio da prática escolar e em vista de seus objetivos: qualificar, classificar e sancionar os indivíduos. Para este fim contribui da mesma forma tanto o fato de saber escrever, segundo os padrões da ideologia
inculcada pela escola, como saber sua história e civismo, ou como saber seu curso de física ou matemática. A causa deste estado de coisas reside, evidentemente, na separação escolar, isto é, na separação institucional, material, das práticas escolares e das práticas produtivas em geral, separação essa sem a qual não haveria nem práticas escolares nem escola, no sentido em que a conhecemos. Por isso, é preciso, para ver claramente, construir a história da separação escolar e analisar seu papel no conjunto das relações sociais da sociedade atual. Neste caso, temos que tratar aqui as conseqüências da separação sobre o funcionamento da escola. Desse ponto de vista, seria igualmente ruinoso negar que a escola deve sustentar suas práticas de inculcação ideológica sobre conhecimentos e saberes em partes reais e negar que a inculcação ideológica seja dominante em todos os aspectos.
Em síntese, o que os autores argumentam, nesta parte do seu texto, é que independente do conteúdo da disciplina, seja ela de história, filosofia, matemática ou física, o principal papel que cumpre a escola é a inculcação ideológica. Até porque esses saberes são discutidos fora do lócus de sua aplicação. A escola encontra-se separada da produção, assim, as discussões e os problemas colocados são fictícios, artificiais.
Concordamos com a assertiva dos autores de que a matemática, a física ou a história não é a mesma para gregos e troianos. Em primeiro, porque o uso que se faz dessas áreas de conhecimento tanto pode servir ao capital, quanto ao trabalho. Mas, principalmente, porque o conteúdo, seja ele qual for, não pode estar desvinculado dos seus objetivos de transmissão e nem da prática social na qual está inserido. Se o ensino estivesse unido à produção, numa ligação e uso do conhecimento vinculado à prática, ele seria transmitido da mesma forma? Os conteúdos seriam os mesmos? A matemática estudada pelos alunos teria o mesmo conteúdo e a mesma relação com a realidade daquela estudada nas escolas em geral? Voltaremos, em capítulo próprio (capítulo III, da Terceira Parte), a essa discussão.
3) Esta separação material entre as práticas escolares e as práticas produtivas em geral é um dos efeitos da divisão do trabalho em manual e intelectual. Esta divisão imprime sua marca às formas nas quais se apresenta o saber nas sociedades burguesas: a divisão entre a teoria e a prática. Dito de outro modo, não basta recorrer ao fato da separação escolar para deduzir as formas das práticas escolares. Há que se entender que as formas dessas práticas estão definidas por meio da separação escolar, pela ideologia burguesa do conhecimento, do saber e da ciência. Esta ideologia está caracterizada por uma separação
entre a teoria e a prática, ela submerge suas raízes na separação entre o trabalho manual e intelectual (p. 246-7).
A idéia elaborada pelos autores é clara. Porém, do nosso ponto de vista, falta uma demonstração. A história da constituição da escola moderna de massas e da produção capitalista demonstra essa tese? De fato foi da divisão social do trabalho que resultou a escola burguesa?
No Feudalismo, os aprendizes desenvolviam as suas habilidades para o trabalho e se educavam ao mesmo tempo e em uma mesma instituição, a corporação de ofício. O mesmo se dava no campo. Porém, a escola para os nobres de espada e, posteriormente, para os burgueses emergentes já existia e existia separada da produção. Nos primeiros três séculos de desenvolvimento do capitalismo, a educação para o trabalho continuou sendo realizada nos locais de trabalho. Porém, no final do século XIX, no mundo industrial, a educação desloca-se para uma instituição específica, a escola.
Com o advento do capitalismo, separa-se o trabalhador dos meios de produção. O trabalhador fica somente com a única mercadoria que lhe pertence, a força de trabalho. Com a divisão do trabalho manual e intelectual, o trabalhador passa a integrar, com plenitude, o mercado de trabalho, portanto, em condição que está completamente separada da produção. E, nesse caso, que sentido haveria em manter a educação na fábrica?
No entanto, supondo que os trabalhadores retomassem ou pudessem ser possuidores dos meios de produção, como estamos observando na experiência do MST, o que aconteceria com a educação? Nesse caso, continuaria a fazer sentido uma educação separada da produção? Mais ainda, numa situação em que o trabalhador é ao mesmo tempo proprietário e trabalhador, pode continuar a separação entre trabalho manual e trabalho intelectual?
Desenvolveremos essas questões em capítulo próprio, mas podemos adiantar que há um movimento do MST na direção de recomposição da unidade entre educação e trabalho.
Por último, Baudelot e Establet (1976, p. 254-58) afirmam que o aparelho escolar contribui para reproduzir as relações socais de produção na medida em que: a) contribui para a formação da força de trabalho; 2) contribui para a inculcação da ideologia burguesa.
A formação da força de trabalho se efetua com as mesmas formas da inculcação da ideologia burguesa: pelo mecanismo das práticas escolares.
Como se assegura a reprodução das relações de produção, no que lhe cabe, no aparelho escolar? Mediante os efeitos de seu mecanismo único que produz: a) a repartição material dos indivíduos em duas massas desiguais (75% - 25%) distribuídas entre duas redes internas da escola e entre duas posições opostas da divisão do trabalho, sobre as quais estas duas redes desembocam no exterior da escola; b) a inculcação da mesma ideologia burguesa sob duas formas diferentes, correspondentes às duas massas consideradas, com um destino único: a manutenção das relações de produção existentes.
O aparelho escolar contribui, assim, de sua parte, à reprodução das relações de produção capitalistas: 1)contribuindo para reproduzir materialmente a divisão em classes; 2) contribuindo para manter, isto é, para impor as condições ideológicas das relações de dominação e de submissão entre as duas classes antagônicas, relações conforme a luta de classe capitalista.
Desses efeitos, um é principal: a inculcação ideológica.
O aparelho escolar ocupa lugar privilegiado na superestrutura do modo de produção capitalista porque é, dentre todos os aparelhos ideológicos, o único que inculca a ideologia dominante sobre a base da formação da força de trabalho.