As origens do computador e das redes remetem há mais de 175 anos. Isso quando se considera o telégrafo como precursor das redes, a Internet da era vitoriana. O que faz com que a Internet, a mais importante das redes, considerada a “nova mídia híbrida” (RHEINGOLD, 2003), tenha tamanha repercussão, é a natureza da sua comunicação que inaugura um padrão inédito: muitos-para-muitos e a conectividade possível a partir da criação da world wide web.
De acordo com Gillmor (2005), o espírito do que viria a ser a Internet e as transformações que causaria nas diversas atividades contemporâneas, entre elas o jornalismo, foram colocadas na rede em 1999, com a publicação do “Manifesto Cluetrain”, que revisava conceitos de McLuhan. O Manifesto dizia que a Net era um instrumento que começava “um poderoso diálogo global”:
Através da Internet as pessoas estão a descobrir e a inventar novas formas de partilhar, com uma rapidez estonteante, conhecimentos importantes. De onde resulta que os mercados estão a ficar mais inteligentes, e a tornar-se inteligentes mais depressa que muitas empresas (apud GILMOR, 2005, p. 33).
“É uma lição comprovada da história da tecnologia que os usuários são os principais produtores da tecnologia” (CASTELLS, 2003, p. 28). Com a Internet a história se repete:
Feita de uma crença tecnocrática no progresso dos seres humanos através da tecnologia, levado a cabo por comunidades de hackers53 que prosperam na criatividade tecnológica livre e aberta, incrustada em redes virtuais que pretendem reinventar a sociedade, e
53 “Os
hackers são o que a mídia diz que são. Não são uns irresponsáveis viciados em
computador empenhados em quebrar códigos, penetrar em sistemas ilegalmente, ou criar o caos no trafego dos computadores. Os que se comportam assim são os crackers, e em geral são
materializada por empresários movidos a dinheiro nas engrenagens da nova economia54 (2003, p. 53).
A relação dos usuários com a tecnologia determina o caminho que os adventos tomam ao longo do tempo. Em 1993, o lançamento do livro Comunidade virtuais, de Rheingold, considerado por Flichy (2001) um dos mitos fundadores da Internet, mostra ao mundo, pela primeira vez, a dimensão social/afetiva da tecnologia. O autor, que já naquela época participava intensamente de comunidades online, descreve no livro algumas das suas experiências.
O surgimento da Internet, assim como o dos computadores55, está
relacionado com fins militares e acadêmicos. Por esse motivo, alguns teóricos, entre esses Castells (2003) e Lévy (1999), atribuem o caráter aberto da rede, que gera polêmicas técnicas e sociais. “[...] a Internet foi originalmente a criação da cultura tecnomeritocrática; depois tornou-se a base para sua própria atualização tecnológica através do input fornecido pela cultura hacker, interagindo na Internet” (CASTELLS, 2003, p. 38).
A seguir serão colocados breves fatos acerca do desenvolvimento da Internet e da web.
A Advanced Research Projects Agency (ARPA), ligada ao Departamento de Defesa, foi criada em 1958 pelo presidente dos EUA, Dwight Eisenhower, para pesquisa e desenvolvimento de alta tecnologia aliada à guerra, uma vez que o mundo vivia a ameaça de guerra nuclear.
54 “A nova economia, tendo os negócios eletrônicos como ponta de lança, não é uma economia
online, mas uma economia movida pela tecnologia da informação, dependente de profissionais
autoprogramáveis, e organizada em torno de redes de computadores. Essas parecem ser as fontes do crescimento da produtividade do trabalho e, portanto, da criação de riqueza, na Era da Informação. No entanto, se os profissionais são a fonte da produtividade, seu poder criativo e a eficiência da organização empresarial dependem, em última análise, da inovação. A inovação é uma função de trabalho altamente especializado e da existência de organizações de criação de conhecimento” (CASTELLS, 2003, p. 85).
55 Desde a década de 1930 são elaborados projetos tidos como tentativas de se criar o primeiro
computador. Alan Turing é um importante colaborador no sentido de se questionar sobre a possibilidade da máquina pensar, ou seja, em cogitar a inteligência artificial. A proposta que realmente dá certo é o ENIAC (Electronic Numerical Integrator And Computer), desenvolvido em
A ARPAnet, iniciou, em 1963, o seu funcionamento experimental com universidades e institutos de pesquisa, quatro hosts56: Universidade da Califórnia,
Los Angeles (UCLA), Stanford Research Institute (SRI), Universidade da Califórnia em Santa Bárbara (UCSB) e Universidade de Utah.
Em 1972, a ARPA recebe novo mome, The Defense Advanced Research Projects Agency (DARPA). Nesse mesmo ano, foi criado o primeiro programa para envio de mensagens de correio eletrônico
Em 1983, a ARPAnet começa a se libertar dos propósitos militares, é denominada de Milnet e, logo em seguida, começa a ser chamada de Internet. O protocolo inicial (NCP) oferecia apenas 256 combinações. Com o TCP/IP, as cominações passam a quatro bilhões de combinações.
Uma demonstração ocorrida em 1968 “mudou o curso da história” porque foi nesse ano que Doug Engelbart apresentou a concretização de uma idéia57 que há muito existia, chamada de espaço-informação, a qual lhe renderia o título de pai da interface contemporânea (JOHNSON, 2003).
Isso se deve à leitura que Engelbart fez do famoso artigo “As We May Think”, escrito por Vannevar Bush, no qual o cientista propõe a criação de um dispositivo chamado Memex, considerado como um ancestral do computador pessoal, cujo processador de informações permitia arquivar documentos, organizar dados, fazer anotações pessoais e funcionava também como uma máquina de calcular.
O Memex foi projetado para organizar informação da maneira mais intuitiva possível, com base não em gabinetes de arquivos ou auto- estradas, mas nos nossos hábitos usuais de pensamento – seguindo pistas, fazendo conexões, abrindo trilhas (JOHNSON, 2003, p. 91).
56 “Host – 1.Computador ligado à Internet, também às vezes chamado de servidor ou nó.
2.Computador principal num ambiente de processamento distribuído” (PINHO, 2003, p. 242).
57 Conforme explica Johnson, a idéia de espaço-informação existe há milhões de anos. “O poeta
grego Simônides, nascido seis séculos antes de Cristo, era famoso por sua fantástica capacidade de construir o que os retóricos chamam de ‘palácios de memória’. Foram esses os espaços- informação originais: as histórias convertiam-se em arquitetura, conceitos abstratos transformados em vastas – e meticulosamente decoradas – casas imaginárias. O estratagema de Simônides baseava-se numa peculiaridade da mente humana: nossa memória visual é muito mais duradoura que a memória textual” (2001, p. 15)
Em 1990, a Internet passa a contar com o primeiro provedor de acesso comercial do mundo, o World58, e assim os usuários comuns passam a navegar
na rede via telefone.
A inserção do computador pessoal ocorre em 1977, com a máquina desenvolvida pela Apple. A partir daí, a história do computador evolui para aprimoramentos constantes nos PCs, programas e layouts, a criação da web, e toma outra dimensão com a chegada da rede sem fio, o que significa não apenas um modo de se fazer as coisas de antes em movimento, mas “it will be a way to do things that couldnt`t be done before” (RHEINGOLD, 2003, p. xiv).59
Em 1991, ano que a Internet é aberta para usos comerciais, o físico Tim Berners-Lee cria o HTML (hypertext markup language60), a fim de resolver problemas de ordem de conectividade na primitiva web. Nasce a base da World Wide Web.
[...] a world wide web é fundamentalmente um modo de organização da informação e dos arquivos na rede. O método extremamente simples e eficiente do sistema de hipertexto distribuído, baseado no modelo cliente-servidor, tem como principais padrões o protocolo de comunicação http61, a linguagem de descrição de páginas HTML o método de identificação de recursos URL62 (PINHO, 2003, p.
33).
O poder da web está nos links, nos URLs, os quais permitem o movimento através do clic no mouse de uma página para outra. Atualmente, Berners-Lee dedica-se ao projeto Web semântica, cujo objetivo é permitir o cruzamento de diferentes programas, com a finalidade de apresentar mais interatividade ao usuário.
58 Disponível em: <http://www.world.std.com>. Acesso em: 25 de agosto de 2006. 59 Haverá uma maneira de se fazer as coisas que não poderiam ter sido feito antes. 60 HTML –
Hypertext Markup Language – é a linguagem padrão para escrever páginas de
documentos web, que contenham informação nos mais variados formatos: texto, som, imagens e animação.
61 HTTP –
Hypertext Transport Protocol – é o protocolo que define como dois programas/
servidores devem interagir, de maneira que transfiram entre eles comandos ou informações relativos ao www. Possibilita ainda que os autores de hipertextos incluam comandos que permitem saltos para recursos e para outros documentos.
62 URL –
Uniform Resource Locator – é o localizador que permite identificar e acessar um serviço
A “teia”, como é chamada, tem como principal objetivo permitir que haja interação entre os documentos disponíveis na Internet através dos links. É um sistema aberto que tem espírito colaborativo. Um exemplo é o site Wikipédia63,
uma enciclopédia online gratuita, onde os usuários, além de pesquisar e ler o seu conteúdo, podem editar e criar verbetes. A média do site é de 912 mil visitas ao dia.
Um episódio curioso que está linkado ao jornalismo diz respeito justamente às ferramentas da web. Como se viu, a Internet desenvolveu-se, ao longo de muitos anos, sem a intervenção da web, mas, quando foi criada, transformou o que se conhecia por navegação. Assim também ocorre com vários programas/ferramentas que estão constantemente sendo criados e ajustados para uma melhor utilização do meio. A partir de uma iniciativa de um programador e da atenção dos jornalistas, foi retomada, no final dos anos 90, uma aplicação chamada Frontier, que, em seguida, com a complementação de algumas novas funções, seria denominada de Manila. Esse programa, com interface mais acessível aos leigos, facilitou a criação de blogs. O próprio programador dessa ferramenta, envolvido com a imprensa, cria o seu blog a partir desse programa, que tem como uma das características principais a ordem cronológica, ou seja, a atualização das informações, que se apresentam sempre no topo da página.
Um número inimaginável de documentos encontra-se na web, considerada o grande hipertexto. Porém, segundo Barabasi (2003), o diferencial da web não é a quantidade, mas a distância existente entre um documento e outro; por exemplo, quantos clics são necessários para se chegar ao website do governo brasileiro a partir de uma notícia publicada no portal do clicRBS.
63 A Wikipédia foi considerada pelo “Observer” (matéria publicada em português pela revista
Carta Capital, de 30 de agosto de 2006) um dos quinze sites que mudaram o mundo. A enciclopédia online foi criada em 2001 por Jimmy Wales, nos Estados Unidos. A maior polêmica em torno da
possibilidade de qualquer pessoa editar o texto disponível no site é de que as pessoas poderiam
cometer erros ou abusar do caráter democrático do site. Alguns destes casos já foram tratados na
mídia (por exemplo, um artigo difamador que apresentava a ligação de um assessor de Robert Kennedy ao seu assassinato). Mas o criador do site diz que a natureza do sistema wiki, que prevê
este espírito colaborativo, é maior do que as iniciativas isoladas de boicote. “Às vezes um brincalhão troca uma foto de Hitler por uma de George Bush, e em uma hora alguém já destrocou” (NAUGHTON, 2006, p. 12).
O hipertexto aparece na base da web com a criação de Berners-Lee; todavia, o termo foi cunhado em 1960 pelo filósofo Ted Nelson. De acordo com Nelson, sua idéia era a de uma rede de computadores ligados nos quais fosse possível criar textos multidimensionais em que partes dos textos remetessem a outras partes, e assim, de modo mútuo, seria possível navegar pelos textos por vários caminhos a partir de um escolhido, um sistema que lembra os hiperlinks atuais. Mas, conforme aponta Nelson, o sistema atual de hipertexto disponível na rede está em total desarmonia com o que havia pensado. O computador estaria ainda muito ligado ao papel e, portanto, ao limite dimensional do papel, que é bem menos expressivo do que o computador.