Os PCNEM – Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio – apresentam para a área das Ciências da Natureza, Matemática e suas tecnologias objetivos que transcendem o caráter disciplinar e avançam em direção a uma proposta capaz de responder às necessidades da vida contemporânea e desenvolver a integração entre estes conhecimentos.
“No nível médio, esses objetivos envolvem, de um lado, o aprofundamento dos saberes disciplinares em Biologia, Física, Química e Matemática, com procedimentos científicos pertinentes aos seus objetos de estudo, com metas formativas particulares, até mesmo com tratamentos didáticos específicos. De outro lado, envolvem a articulação interdisciplinar desses saberes, propiciada por várias circunstâncias, dentre as quais se destacam os conteúdos tecnológicos e práticos, já presentes junto a cada disciplina, mas particularmente apropriados para serem tratados desde uma perspectiva integradora” (BRASIL, 1999, p. 7).
É imprescindível a preocupação com o papel da Ciência na sociedade e suas consequências para o desenvolvimento tecnológico e humano. Com isto, o ensino se torna menos distante da cultura social, uma vez que este desenvolvimento não pode ocorrer de maneira desvinculada do contexto. As abordagens educacionais necessitam de novos enfoques para promover o interesse por parte do aluno e desmistificar a ciência frente aos modelos pré- concebidos.
Nesse contexto os PCNEM indicam como estratégias prioritárias a utilização da vivência dos alunos e os fatos do dia a dia, a tradição cultural, o uso da História e Filosofia da Ciência, a mídia e a vida escolar, na busca de reconstruir os conhecimentos científicos que permitiriam refazer suas leituras de mundo, com fundamentação na ciência. Assim,
“[...] a condução de um aprendizado com essas pretensões formativas, mais do que do conhecimento científico e pedagógico acumulado nas didáticas específicas de cada disciplina da área, depende do conjunto de práticas bem como de novas diretrizes estabelecidas no âmbito escolar, ou seja, de uma compreensão amplamente partilhada do sentido do processo educativo. O aprendizado dos alunos e dos professores e seu contínuo aperfeiçoamento devem ser construção coletiva, num espaço de diálogo propiciado pela escola, promovido pelo sistema escolar e com a participação da comunidade” (BRASIL, 1999, p. 8).
A escolha do Eixo Temático: Ciências da Natureza foi feita em razão de carências detectadas na formação do jovem do Ensino Fundamental e Médio,
durante os trabalhos que temos desenvolvido junto às escolas públicas da região. Faltam ao estudante conceitos básicos das Ciências, que lhe permitam compreender fenômenos de natureza ambiental e aqueles relativos à saúde individual e coletiva, bem como o capacite a pensar com propriedade sobre os avanços tecnológicos e suas implicações na dinâmica dos ecossistemas e da sociedade humana. Faltam ao aluno conhecimento e incentivo para que reconheça a importância de avançar nos estudos relativos às áreas das Ciências Biológicas, Matemática, Química e Física de forma a poder capacitar- se em cursos profissionalizantes ou até mesmo seguir rumo ao Ensino Superior.
Em suma, que seja capaz de agir conscientemente e, assim, participar dos processos sociais produtivos. Por outro lado, também temos percebido a escassez de investimentos na formação continuada de professores desta área que, através deste projeto, recebeu incentivo e apoio para reduzir as carências formativas, detectadas a partir de dados oficiais como os do Educacenso (Planejamento Estratégico do Fórum Estadual Permanente de Apoio à Formação Docente), da Secretaria de Educação.
Quais as necessidades formativas para que o professor se aproprie de um saber ou conhecimento complexo, a fim de torná-lo aplicável a situações práticas? A mediação é fundamental no processo de aquisição de saberes, pois dela vão depender a compreensão das relações invisíveis em cada campo de conhecimento. A formação continuada deverá favorecer a compreensão da utilização dos conhecimentos científicos pelo professor e sua capacidade e direito de questionar e, possivelmente, influir nas decisões diretamente ligadas à sua própria formação e à vida em sociedade. O papel do educador não é apenas controlar a construção de conhecimentos específicos, mas se tornar responsável por desenvolver a atitude crítica do aprendiz.
Ao buscar compreender o caminho pelo qual o conhecimento profissional se desenvolve, faz-se necessário propor que o professor exerça uma reflexão contínua ao ensinar. Assim para formar professores de forma mais adequada necessitamos oferecer aos professores, ciclos continuados de reflexão e compreensão.
Por conseguinte, isso determina que as propostas formativas sejam constituídas com a participação dos docentes, para que o conhecimento seja
organizado de forma integrada, desde o início, permitindo que os estudos fiquem a serviço das questões decorrentes da prática profissional. Implica-se em teorizar aquilo que é vivido, emergindo daí, uma probabilidade de coesão entre as duas dimensões. Sob esse prisma, a teoria e a prática são vistas como núcleo integrador desta proposta, na medida em que os dois aspectos devem ser trabalhados concomitantemente. Para tanto, deve-se compreender, essencialmente, uma articulação, um movimento de ir e vir entre a teoria e a prática.
Nessa perspectiva,
“[...] todos os componentes curriculares devem trabalhar a unidade teoria-prática sob diferentes configurações, para que não se perca a visão de totalidade da prática pedagógica e de formação como forma de eliminar distorções decorrentes da priorização de um dos dois pólos” (CANDAU,1999, p. 68).
Segundo Mizukami (2000), o aprender a ensinar é um processo que envolve “fatores afetivos, cognitivos, éticos e de desempenho”. Não está fundamentado apenas na educação formal, mas inicia-se antes dela e se constrói ao longo de toda a vida, num processo contínuo. Portanto, a atuação profissional docente pauta-se num modelo “implícito”, que segundo Tardif (2000), caracteriza a prática, com significados e conhecimentos construídos a partir da própria atividade docente. Sob esta perspectiva, a educação continuada assume importância decisiva no processo de formação docente.
Para Furió Mas (1994), os professores possuem saberes, crenças e comportamentos que podem ser atribuídos à sua experiência como alunos e como docentes, e que conformam uma “formação incidental”. Esta formação é uma dificuldade relevante na transformação da prática educativa, pois se trata de conhecimentos fortemente arraigados no conjunto de saberes pessoal e que necessitam ser desestabilizados a fim de ser reconstruídos.
O professor em formação deve ser instigado a refletir num processo de investigação da prática, a partir da qual se dará a construção e renovação de seus conhecimentos sobre ela. Assim, o foco da proposta deste curso esteve centrado na reflexão dos professores a respeito da sua atuação profissional, com base em conhecimentos teóricos, advindos da pesquisa e tendo como suporte, sua própria prática em sala de aula com conceitos fundamentais inseridos no Currículo Oficial do Estado de São Paulo (SÃO PAULO, 2010).
Diante destes aspectos, alguns membros do grupo de pesquisa “Ensino de Química, Investigação Orientada, Linguagens e formação Docente”, se reuniram para elaborar e oferecer o curso aqui descrito. Os membros que compõem a equipe apresentam diversos níveis de formação, sendo docentes da Universidade, mestrandos do Programa de Pós Graduação em Educação para a Ciência e graduandos dos cursos de Licenciatura das respectivas áreas.
O curso, intitulado “A proposta de Ensino por Investigação na área de Ciências da Natureza: Problematizando Possibilidades Curriculares em Biologia, Física e Química” teve como principais objetivos:
a) problematizar a educação científica que os professores desenvolvem em suas práticas pedagógicas;
b) propor uma leitura sobre a relação entre Educação Científica e a História e Filosofia da Ciência, visando fornecer subsídios teóricos aos professores para que possam refletir sobre a sua inserção no ensino de Ciências;
c) analisar as possibilidades do Currículo do Estado de São Paulo para a inserção da proposta de Ensino por Investigação na escola;
d) analisar as possibilidades de inserção de atividades interdisciplinares e do uso de material didático alternativo com base no Currículo do Estado de São Paulo;
e) desenvolver um exercício teórico-prático com os professores para analisar as possibilidades e limitações da inserção na escola do que foi proposto e elaborado no curso; e
f) trabalhar a prática da Didática Multissensorial, visando inserir tais atividades no cotidiano do professor e da sala de aula.
Por se tratar de um curso interdisciplinar, também foram estabelecidos subtítulos, relacionados aos conteúdos a serem abordados por cada área, individualmente:
Biologia: Ensinando Biologia Celular: possibilidades curriculares a partir de referenciais teóricos e materiais alternativos (História
e Filosofia da Ciência. Materiais Alternativos e Ensino por Investigação).
Física: Questionamentos e possibilidades no ensino de Estrutura da Matéria com o currículo atual: iniciando uma análise Histórico- Filosófica, Epistemológica e Conceitual das estruturas elementares.
Química: Discutindo Equilíbrio Químico, dificuldades de ensino- aprendizagem no ensino de Química utilizando materiais alternativos.
Dessa forma, o curso foi oferecido aos professores do Ensino Médio das disciplinas das áreas de Ciências da Natureza - Biologia, Física e Química, e foram disponibilizadas 20 vagas para cada área do conhecimento.
A proposta inicial do curso foi abordar os seguintes conteúdos: a) Conceitos de Biologia, Física e Química;
b) ensino por investigação;
c) utilização de Material Didático Alternativo;
d) uso da História e Filosofia da Ciência no Ensino de Ciências; e) história da construção de conceitos específicos de cada área de conhecimento;
f) princípios de Educação Inclusiva e a utilização da Didática Multissensorial; e
g) atividades teóricas e práticas.
No entanto, a nossa proposta sempre esteve aberta a mudanças no decorrer do curso, visando um melhor aproveitamento, evitando um plano fechado e indiferente às reações e sugestões dos professores - nosso principal alvo. As atividades de formação tiveram por base o Currículo do Estado de São Paulo e as discussões foram realizadas a partir das reflexões sobre as atividades propostas nos cadernos do professor (Física, Biologia e Química) e nas atividades desenvolvidas pelos professores em sala de aula, com base, principalmente para a área de Biologia, no referencial teórico descrito abaixo, entre outros textos:
- Modelos e metáforas: GRECA e SANTOS, 2005; RAVIOLO e GARRITZ, 2008; FABIÃO e DUARTE, 2005; FERREIRA, 2006b; FERRAZ e TERRAZZAN, 2001.
- Ensino por investigação: MUNFORD e de CASTRO LIMA, 2007; CAÑAL, 2007.
- Didática multisenssorial: ANJOS e CAMARGO, 2011; TAVARES e CAMARGO, 2010.
- Material didático alternativo: SANTOS, 2007; EICHLER e PINO, 2010.
- Abordagem conceitual no curso de Biologia: JUNQUEIRA, 2012.
- Abordagem histórica no curso de Biologia: MAYR, 2008.
Nessa perspectiva, o curso foi desenvolvido, principalmente, mediante problematização do Ensino de cada disciplina no espaço escolar, havendo levantamento de concepções e experiências, leitura de textos e discussões coletivas dos pontos propostos.