Como parte da avaliação do curso, solicitamos aos professores que nos enviassem relatórios comentando sua prática, descrevendo detalhadamente sua aula, as estratégias utilizadas, as reações dos alunos, bem como discutindo os pontos positivos e negativos percebidos por eles durante a aplicação.
Partindo deste relatório, bem como dos demais documentos e da observação das aulas, foi possível elaborar um documento que concentra aquilo que o pesquisador pôde depreender das características presentes na ação de cada professor e de seus depoimentos.
Além de nos revelar mais sobre o conhecimento dos professores, também se torna uma manifestação na qual podemos nos apoiar para discutir e comparar a prática do professor e aquilo que ele relata ter ocorrido em sua prática, ao cruzarmos as informações com os demais instrumentos de coleta.
3.4 Análise dos dados
A metodologia para a análise dos dados deverá seguir a perspectiva teórico-metodológica da abordagem qualitativa, que para Alves (1991), não se opõe à quantitativa, mas apresenta diferenças na ênfase e não na exclusividade.
Godoy (1995), aponta que a pesquisa qualitativa gerou uma vasta diversidade de métodos de trabalho, estilos de análise e apresentação de
resultados. A partir de questões amplas que vão se esclarecendo no decorrer da pesquisa, o estudo qualitativo pode ser conduzido através de diferentes caminhos.
O presente trabalho propõe-se a utilizar uma metodologia de análise de dados qualitativos, geralmente denominada análise de conteúdo, seguindo o desenvolvimento proposto por Bardin (1977). De acordo com Moraes (1999), a análise de conteúdo constitui uma metodologia de pesquisa usada para descrição e interpretação do conteúdo de qualquer documento ou texto. Essa análise proporciona uma compreensão de seus significados além de uma leitura comum.
A análise de conteúdo, segundo o mesmo autor, pode utilizar-se de qualquer material oriundo de comunicação verbal ou não-verbal, como cartas, cartazes, jornais, revistas, informes, livros, relatos auto-biográficos, discos, gravações, entrevistas, diários pessoais, filmes, fotografias, vídeos, etc. No entanto, os dados chegam ao investigador em estado bruto, sendo necessário passar por um processo para facilitar o trabalho de compreensão, interpretação e inferência a que aspira a análise de conteúdo.
Os valores, a linguagem natural e cultural e os seus significados, tanto do sujeito de pesquisa, como do pesquisador exercem uma influência sobre os dados, da qual o pesquisador não pode se abster. De certa forma, a análise de conteúdo, é uma interpretação pessoal dos dados por parte do pesquisador. Não é possível uma leitura neutra, pois toda leitura se constitui numa interpretação (MORAES, 1999).
O mesmo autor afirma ainda que a análise de conteúdo, em sua proposta original, preocupa-se mais diretamente com o significado das mensagens para os receptores, porém, em certos casos, demonstra ênfase tanto no processo como no produto, considerando tanto o emissor como o receptor. Para compreender os significados de um texto, é preciso levar o contexto em consideração. É preciso considerar o conteúdo explícito, o autor, o destinatário e as formas de codificação e transmissão da mensagem. O contexto dentro do qual se analisam os dados deve ser explicitado em qualquer análise de conteúdo.
Numa abordagem qualitativa, a construção dos objetivos, as fases posteriores da pesquisa, especialmente a definição dos dados e os
procedimentos específicos de análise, ao menos em parte, pode ocorrer ao longo do processo. Entretanto, ao concluir-se uma pesquisa é importante ser capaz de explicitar com clareza os objetivos do trabalho realizado (MORAES, 1999).
Ainda que diferentes autores proponham diversificadas descrições do processo da análise de conteúdo, Bardin (1977) e Moraes (1999), a descrevem como constituída de cinco etapas, organizando a síntese das ideias conforme apresentado no Quadro 3.
ETAPAS OBJETIVO PROCEDIMENTO
Preparação das
informações amostras de informação Identificar as diferentes a serem analisadas.
Leitura de todos os materiais e estabelecer quais estão de acordo com os objetivos da pesquisa. Os documentos devem ser representativos e pertinentes aos objetivos da análise. Devem cobrir o campo a ser investigado de modo abrangente.
Iniciar o processo de codificação dos
materiais
Estabelecer um código que possibilite identificar rapidamente cada elemento da amostra a ser analisado. Este poderá ser constituído de números ou letras que a partir deste momento orientarão o pesquisador para retornar a um documento quando necessário. Transformação do conteúdo em unidades Transformação do conteúdo em unidades Definir a unidade de análise
Reler cuidadosamente os materiais. A unidade de análise é o elemento unitário de conteúdo a ser submetido à classificação.
Identificar neles as
unidades de análise Reler todos os materiais. Codificar cada unidade, estabelecendo códigos adicionais, associados ao sistema de codificação já elaborado anteriormente. Ao concluir-se este processo as diferentes mensagens estarão divididas em elementos menores, cada um identificado por um código especificando a unidade da amostra da qual provém e dentro desta a ordem sequencial em que aparece.
Isolar cada uma das
unidades de análise. Reescrever cada unidade de modo a ficarem individualizadas e isoladas. Este processo permite que possam ser compreendidas fora do contexto original em que se encontravam.
Definir as unidades de
contexto Definir outro tipo de unidade de conteúdo, a unidade de contexto. É uma unidade, de modo geral mais ampla do que a de análise, que serve de referência a esta, fixando limites contextuais para interpretá-la. Cada unidade de contexto, geralmente, contém diversas unidades de registro.
Categorização ou classificação das
unidades em categorias
Válidas, pertinentes ou
adequadas Deve ser adequada (aos objetivos da análise, à natureza do material que está sendo analisado e às questões que se pretende responder através da pesquisa) ou pertinente (todas as categorias criadas sejam significativas e úteis ao trabalho proposto, sua problemática, seus objetivos e sua fundamentação teórica).
Exaustividade ou
inclusividade Ser exaustivo significa que deve possibilitar a categorização de todo o conteúdo significativo da análise. Deve possibilitar a inclusão de todas as unidades de análise.
Homogeneidade Sua organização deve ser fundamentada em um único princípio ou critério de classificação. Todo o conjunto deve ser estruturado em uma única dimensão de análise.
Exclusividade ou
exclusão mútua Um mesmo dado não pode ser incluído em mais de uma categoria, cada elemento ou unidade de conteúdo não pode fazer parte de mais de uma divisão.
Objetividade, consistência ou
fidedignidade
As regras de classificação são explicitadas com clareza de modo que possam ser aplicadas consistentemente ao longo de toda a análise. Isto significa que não deve ficar nenhuma dúvida quanto às categorias em que cada unidade de conteúdo deve ser integrada.
Descrição Organização e
descrição dos dados Organização de tabelas e quadros, apresentando as categorias construídas no trabalho e computando-se frequências e percentuais referentes às mesmas. Para cada uma das categorias será produzido um texto síntese expressando o conjunto de significados presentes nas diversas unidades de análise incluídas em cada uma delas. É recomendável o uso de citações diretas dos dados originais. Interpretação Análise detalhada do
conteúdo do objeto de análise.
Através da inferência e interpretação buscar uma compreensão mais aprofundada do conteúdo das mensagens.
Quadro 3 – Etapas da análise de conteúdo (BARDIN, 1977; MORAES, 1999).
Buscamos realizar as análises partindo dos pressupostos indicados por estes autores levando em consideração o contexto de ação e as vivências dos sujeitos de pesquisa.