As informações de data fixa são mais comumente utilizadas para captar os migrantes de retorno direto, isto é, o indivíduo natural que emigrou de seu local de origem e após
36 cumprir com uma ou mais etapas migratórias, reemigrou para estabelecer residência em seu local de origem. Esses migrantes retornados possuem uma grande expressão na participação dos fluxos de imigração em direção ao Nordeste. Como observado na Tabela 4, as UF’s nordestinas possuem as maiores participações relativas nos fluxos de migrantes retornados. No entanto, o migrante ao retornar é acompanhado por outros migrantes não naturais ao local de destino, mais comumente esposas ou filhos, que não são identificados na informação de data fixa como migrantes retornados, por isso se constituem como um efeito indireto da migração de retorno (RIBEIRO, CARVALHO, WONG, 2996; RIBEIRO, CARVALHO, WONG, 1996).
A análise dos efeitos indiretos da migração de retorno possibilita mensurar a importância do retorno migratório para a região Nordeste de forma mais ampla e considerar a sua real participação na migração de retorno ao levarmos em conta a estrutura familiar e redes sociais que envolvem estes migrantes retornados. Esses novos imigrantes no Nordeste estimulam uma nova dinâmica na redistribuição da população nordestina, e com efeitos evidentes e distintos espacialmente, como será explorado nos capítulos seguintes.
Como todo efeito migratório, a migração de retorno tem efeitos sobre o volume e o perfil da população em seus locais de origem e destino. No caso da migração de retorno, ela possui especificidades pela imigração de não naturais associados aos migrantes retornados (RIBEIRO, CARVALHO, WONG, 1996). Um dos efeitos mais óbvios é a fecundidade dos retornados, na qual devemos contabilizar os nascimentos ocorridos durante as etapas migratórias, que devem ser levados em consideração ao medir os fluxos migratórios (RIBEIRO, CARVALHO, WONG, 1996). Assim, temos como efeito indireto das migrações de retorno os filhos tidos que acompanham o migrante em seu retorno e consortes de uniões que também foram estabelecidas durante as etapas migratórias.
A composição familiar tem um papel chave para a compreensão dos efeitos indiretos da migração de retorno. As diferentes trajetórias de vida dos indivíduos fazem com que cônjuges ou outros parentes acompanhem o migrante em seu retorno para casa. Considerando também que a decisão de migrar não cabe apenas a um indivíduo, mas ao conjunto de decisões e estratégias definido na esfera da família que decidem se ocorrerá a migração e qual o local de destino (MINCER, 1978). Também na visão neoclássica, a família surge como um local onde o migrante envia alguma remessa, como uma renda extra, para ajudá-los. Ou a família surge como um núcleo de suporte no qual os migrantes podem pedir auxílio para se adaptarem às dificuldades em seu local de destino (PERES, 2014). Nesse contexto onde os
37 pais/mães migram com seus consortes, filhos, adolescentes ou com dependentes, mudam as concepções tradicionais que unem família e lugar (MONTAÑO, SARAY, 2013). A família, portanto, estabelece um efeito de tempo diferenciado nos efeitos indiretos da migração. Isto significa que os efeitos indiretos da migração não ocorrem no momento da imigração do indivíduo retornado, os efeitos indiretos podem ocorrer num espaço de tempo maior, isto é, o sucesso e a adaptação do retornado em seu local de origem podem influenciar outras pessoas em suas redes a imigrar para o mesmo local.
Dessa forma, a existência de lugares multinucleares e composições familiares dispersas e fragmentadas no território, e seu processo de desterritorialização entre as diversidades espaciais e distâncias que habitam seus integrantes (MONTAÑO, SARAY, 2013; HAESBAERT, 2011) tornam mais complexas as possibilidades dos efeitos indiretos. Isto gera necessidades diretas em ampliar o tema da discussão, sem associar a migração parental, mas considerando também, as situações de orfandade, abandono, uso de drogas, deserção escolar e outros riscos que estão sujeitos as crianças e os adolescentes (MONTAÑO, SARAY, 2013).
Como importante variável a ser considerada nos efeitos indiretos da migração de retorno é a idade ao migrar, especificamente, a migração dos indivíduos que não estão em idade ativa. Neste caso, nos referimos especificamente aos filhos dos migrantes, já que eles não vivem de forma independente, estarão mais propensos a migrar com seus pais, e que ainda muito jovens, acompanham seus pais no retorno migratório. Podendo assim se submeter a um conjunto de fragilidades e dificuldades dadas as disparidades entre os locais de origem e destino.
No caso da migração entre crianças, elas abandonam o seu ciclo de vida original para entrar em outro, isto significa mudar o seu sistema educacional, que nas idades mais jovens, a mudança no processo de adaptação ocorre de forma mais facilitada (SÖHN, 2011). No caso de jovens adultos, a mudança no sistema educacional pode encontrar maiores dificuldades em sua adaptação, o que trará consequências em curto prazo para a inserção desses adultos jovens no mercado de trabalho (AYBEK, 2011).
O acentuado declínio da fecundidade esperada nas projeções, nos padrões de casamento tardios, e maiores índices de escolarização e inserção no mercado de trabalho feminino, são reflexões necessárias para o planejamento de políticas públicas (RIOS-NETO, 2000) e indicam um maior envelhecimento na estrutura etária da população. Este processo de rápido envelhecimento tem uma influência nos fluxos migratórios. No Chile, existem fluxos
38 migratórios, em sua maior parte composto por mulheres, que trabalham no setor doméstico de cuidado de idosos (GONZÁLEZ, 2013). Apesar da população em idade ativa ser a mais propensa a migrar, espera-se uma participação mais efetiva de idosos nos fluxos migratórios, que por estarem aposentados e com uma maior capacidade de renda e mobilidade, eles poderão retornar aos seus espaços de origem (ROBISON, MOEN, 2000). Desta forma, espera-se uma maior participação dos grupos etários mais envelhecidos nos fluxos migratórios de retorno, e também, de idosos que acompanham o migrante retornado por necessitarem do seu apoio.
Apesar dos fluxos de migrantes possuírem sua própria heterogeneidade e padrões de seletividade específicos, como os idosos migrantes que possuem uma boa condição de vida e migram para usufruir de seus rendimentos, e os idosos que migram por necessitarem do apoio e assistência de suas famílias (CAMPOS, BARBIERI, 2013) destacando assim tipologias específicas de migrantes idosos que podem influenciar os efeitos indiretos da migração de retorno. A migração de idosos aborda também uma discussão mais ampla entre elementos como: a relação entre a transferência de renda do local de aposentadoria e local de destino; e também a diminuição da estrutura familiar, a diminuição do número de filhos limitará a possibilidade de suporte dos idosos influenciando a sua migração ou retenção no seu local atual (CAMPOS, BARBIERI, 2013) e o impacto que a migração de idosos trará para o planejamento das políticas públicas de saúde das UF’s nordestinas.
Com isto, o que chamamos de efeitos indiretos da migração de retorno é uma complexificação do tema para abranger a totalidade do que o retorno migratório representa para os espaços de origem e destino para os migrantes retornados, e as redes familiares e sociais destes migrantes. Ao considerarmos o conjunto dos efeitos indiretos e sua vasta gama de possibilidades, pode-se observar que a migração de retorno e seus efeitos indiretos explicam a maior parte das migrações que envolvem a região Nordeste, estas por sua vez, estimulam um novo fôlego para os seus fluxos migratórios. Para evidenciar isto, elaboramos uma representação dos efeitos indiretos da migração de retorno na região Nordeste.