O trabalho de campo da pesquisa foi iniciado em outubro de 2008, após contato inicial com a Escola Educar16 em setembro, quando houve explicação dos objetivos e da metodologia da pesquisa e obtenção da autorização de seus dirigentes para a realização da pesquisa.
Primeiramente, foram analisados os documentos de planejamento semestral e semanal da escola. Estes contêm informações sobre conteúdo, habilidades, competências, procedimentos, processos de avaliação e projetos previstos para cada etapa de escolarização. No entanto, atendendo aos objetivos deste estudo, a análise desses documentos considerou apenas aspectos relativos aos conteúdos, estratégias de EA e recursos didáticos programados para o EF e para o EM.
Em seguida, com o auxílio de informações fornecidas pela Coordenadora Pedagógica da escola, Elisabete17, foram selecionadas algumas turmas que poderiam atender aos requisitos para esta pesquisa: alunos adultos, trabalhadores, que voltaram aos estudos depois de um longo tempo de afastamento da escola.
Ao longo do mês de outubro, foram visitadas diferentes turmas, dos três turnos, com o intuito de conhecer melhor o perfil dos alunos e acompanhar as
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Considerando que, para a Didática, o termo conteúdo não se refere apenas a conhecimentos sistematizados, mas também a procedimentos, atitudes, valores, normas, etc. (VEIGA, 2008), é preciso esclarecer que os conteúdos estudados neste trabalho referem-se somente aos conhecimentos científicos abordados na escola.
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O nome da escola é fictício para preservar a escola e a identidade dos participantes da pesquisa.
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Os nomes de alunos, professores, coordenadores e outros funcionários da escola citados ao longo desse trabalho são fictícios para preservar a identidade dos participantes da pesquisa.
práticas de diferentes professores. Isso permitiu obter uma noção geral de como se estrutura o EC na escola e planejar os próximos passos da pesquisa. Algumas características dessas turmas encontram-se no QUADRO 2.
QUADRO 2 - Turmas visitadas em 2008
TURMA18 TURNO ETAPA PROFESSOR(A) DE
CIÊNCIAS NATURAIS/BIOLOGIA
A Matutino Primeira dos AFEF19 Cássia
B Vespertino Segunda do EM Marília
C Noturno Terceira dos AFEF Bárbara
D Noturno Quarta dos AFEF Cláudio
E Noturno Primeira do EM Marília
No início de novembro do mesmo ano foi decidido continuar o acompanhamento das aulas apenas nas turmas C, D e E, uma vez que nessas turmas havia mais alunos adultos que nas outras turmas. As observações totalizaram 30 horas/aula em sala, não contabilizando horas de conversas informais com os alunos e com os professores da escola.
Em meados de novembro foi aplicado, nas turmas C, D e E, o questionário 1 (APÊNDICE A) que objetivava caracterizar o perfil dos alunos participantes da pesquisa, levantar os conteúdos, estratégias de EA e recursos didáticos utilizados na escola, examinar a visão dos alunos sobre as disciplinas e os conteúdos de Ciências Naturais/Biologia. Esse questionário foi aplicado durante a aula de Ciências Naturais, nas turmas C e D, e de Biologia na E. No dia da aplicação, estavam presentes oito alunos na turma C; oito na turma D; e 16 na E (números que correspondem à média de alunos presentes nessas turmas durante o período de observação das aulas). Três alunos se recusaram a responder o questionário, dois da turma C e um da turma E. Além disso, foram excluídos da análise questionários respondidos por alunos menores de 18 anos, questionários sem informação da idade do respondente e um questionário respondido por um aluno que se recusou a assinar o termo de consentimento. No total, foram analisados 22 questionários: quatro da turma C, cinco da D e 13 da E.
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As letras que denominam as turmas são fictícias, para preservar a identidade dos participantes da pesquisa.
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Em fevereiro de 2009, foi estabelecida a parceria com a professora Marília para a continuidade do estudo em apenas uma turma, que denominei de turma F. Essa turma encontrava-se na primeira etapa do EM e era formada por alunos da turma D (de 2008), alunos repetentes da turma E (de 2008) e alunos novatos. Para começar o trabalho realizou-se uma entrevista com essa professora, levantando-se dados sobre sua experiência com a EJA, sua opinião sobre as estratégias e os recursos didáticos empregados no processo de EA (roteiro da entrevista - APÊNDICE E). Foi também realizada uma entrevista simultânea com a funcionária da Secretaria Escolar, Geovana, e com a Coordenadora Pedagógica da escola, Elisabete20 para conhecer aspectos sobre o funcionamento da escola (roteiro da entrevista - APÊNDICE F).
No início de março, foi aplicado o questionário 2 (APÊNDICE B) na turma F. Esse questionário, construído a partir de modelos utilizados por outros autores (ALVETTI; BORGES, 2007; SCHEID; FERRARI; DELIZOICOV, 2007), visava conhecer a visão de NC apresentada pelos alunos, sua opinião sobre o papel da pesquisa científica na sociedade, sobre a participação popular em decisões que envolvam Ciência e Tecnologia e sobre a contribuição das disciplinas de Ciências Naturais/Biologia para suas vidas. A aplicação desse instrumento deu-se antes de qualquer intervenção da pesquisadora para a inclusão da abordagem histórica e filosófica nas aulas de Biologia da escola. O questionário 2 foi respondido, durante a aula de Biologia, por todos os alunos presentes, sendo dez do sexo feminino e cinco do sexo masculino (um dos respondentes deixou o sexo em branco). A turma F tinha 23 alunos matriculados, mas três deles nunca compareceram às aulas. Esses alunos apresentavam idades entre 18 e 52 anos, a maioria entre 20 e 39 anos. Todos os questionários foram analisados.
Logo após a análise desse questionário, ainda no início do mês de março, foram realizadas entrevistas individuais, com alunos voluntários, para esclarecer e aprofundar os resultados obtidos com a aplicação dos questionários 1 e 2. Havia a intenção de que as entrevistas fossem todas realizadas no início do semestre, mas acabaram sendo realizadas ao longo de praticamente todo o semestre e finalizadas no início de junho. Isso porque o tempo disponível dos alunos para conceder
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Após a realização da entrevista com Elisabete e Geovana, em fevereiro de 2009, a Coordenação Pedagógica da escola ficou sob responsabilidade de outra profissional, porém as informações sobre o funcionamento da escola, por elas fornecidas, permaneceram válidas.
entrevistas, fora do horário das aulas, era escasso, e mesmo quando se dispunham a fazê-lo, muitas vezes acabavam não comparecendo no dia marcado devido a um ou outro imprevisto. Essas entrevistas foram concedidas na própria escola, antes do início das aulas, e realizadas pela própria pesquisadora. Apenas uma aluna, Francisca, foi entrevistada em seu local de trabalho, antes do início do expediente.
O roteiro de entrevistas (APÊNDICE D), utilizado para orientar a pesquisadora, não foi rigidamente seguido em função das diferenças encontradas no funcionamento de cada entrevista. Alguns alunos, mais falantes, tinham mais facilidade em expor suas idéias, introduzindo, inclusive, novos pontos de discussão; outros, mais retraídos, davam apenas respostas curtas, limitando-se a responder o que era perguntado. Além disso, alguns alunos dispunham de mais tempo para conceder as entrevistas. Durante as entrevistas, muitas vezes foi necessário explicar melhor as perguntas ou fazer novos questionamentos a partir das respostas dadas para tentar compreender melhor as idéias dos entrevistados. Algumas dessas tentativas resultaram em respostas induzidas, que após identificadas com o auxílio da análise da conversação foram, portanto, excluídas do corpus de dados para a análise de conteúdo.
As entrevistas, que duraram 21 a 42 minutos, foram transcritas literalmente para análise de conteúdo e de conversação. Os alunos que aceitaram participar - Marta, Rogério, Bernardo, Fernanda e Francisca - eram da mesma turma do noturno, estavam cursando o primeiro ano do EM e, com exceção de Francisca, haviam respondido os questionários 1 e 2.
Marta, 34 anos, parou de estudar porque se casou muito nova, teve filhos e foi trabalhar para ajudar o esposo no sustento da casa. Disse que havia procurado outras escolas, públicas, mas que achou “muito bagunçado” (EM45) e “MUITO FRACO” (EM45-46). Ela escolheu a escola onde foi feita a pesquisa para retornar aos estudos por indicação de uma amiga, que lhe disse que naquela escola o pessoal realmente estudava. Começou cursando o penúltimo ano do EF e aquele era o terceiro semestre que ela freqüentava a escola. Ela parecia satisfeita com sua escolha e enfatizou a organização da escola e formação dos professores:
Marta: [Aqui eu fui] (+) eu ainda perguntei: “Aqui tem aula todo dia!?” “Tem.” “Tem professor?” “TEM.” Falei: “é, eu acho que vai dar certo.” Aí foi um dia eu comecei, achei bom né? Os professores são tudo gente boa, formados, CA-PA-CI-TA-DOS, né? Eu to adorando! (EM52-54*)
Marta mostrou-se muito à vontade ao longo da entrevista. Sua entrevista foi a de maior duração: 42 minutos e só foi interrompida porque estava no horário de início das aulas.
Rogério, 33 anos, demonstrou tranqüilidade ao longo da entrevista, que durou 38 minutos. Ele trabalhava durante o dia na Escola Educar e estudava à noite. Voltou a estudar por incentivo de um colega de trabalho, aliado à facilidade de trabalhar na escola e de ser dispensado do pagamento da taxa mensal. Ele havia retornado aos estudos há dois anos, na primeira etapa dos AFEF e estava cursando o primeiro ano do EM pela segunda vez. Quando questionado se percebia diferenças entre as aulas de Ciências de outras escolas e as daquela escola, Rogério também enfatizou características que acredita a diferenciarem de outras escolas:
Rogério: A:: assim, a maneira de ensinar, né, porque:: tem professores e professores, né (+) Então (+) você se DEPARA na rede pública com professores assim mais casca DURA, outros tem mais paciência de ensinar, outros que não, joga lá no quadro e você se vira. Né? E aqui não (+) a gente:: percebe nos professores assim uma (+) boa vontade de ensinar, e querer que o aluno aprenda.(ER33-37)
Bernardo, 38 anos, trabalhava durante o dia, ingressou na escola na primeira etapa dos AFEF e escolheu esta instituição devido à sua localização, de fácil acesso à sua residência. Ele encontrou o curso pesquisando na internet e afirmou não ter estudado em escola pública. Sua entrevista durou 23 minutos. Apesar de não parecer constrangido, muitas das respostas de Bernardo foram curtas, quase sem comentários.
Francisca, 38 anos, ingressou na escola no primeiro semestre de 2009 e afirmou que já havia cursado o EM em seu estado natal, há muitos anos, mas que desejava se atualizar. Além disso, disse que lá sempre tinha greve e eles nunca estudavam tudo o que deveriam. Ela estava se preparando para prestar um concurso e era a primeira vez que freqüentava um curso de EJA. Apesar de parecer tranqüila durante a entrevista, muitas de suas respostas foram curtas. Sua entrevista durou 21 minutos. Isso talvez se deva ao fato da entrevista ter sido concedida em seu local de trabalho, um pouco antes do início do expediente.
Fernanda, 35 anos, também declarou estar repetindo etapas de escolarização já cursadas. Quando decidiu voltar a estudar, por estímulo de uma amiga que já estudava na Escola Educar, ela estava sem estudar há quase 20 anos e fez uma prova de classificação para ser enturmada. Assim, ela reiniciou os
estudos na primeira etapa dos AFEF e aquele era o quinto semestre que freqüentava a escola. Fernanda demonstrou tranqüilidade ao longo da entrevista, apresentado argumentos para suas respostas. Sua entrevista durou 28 minutos.