O primeiro exemplo de jusiicaiva dada pela classe médica para a realização da cesariana é a airma- ção de que ‘mulheres preferem cesáreas’ e este seria, segundo os médicos, o moivo pelo qual o Brasil possui altas taxas de cesárea (Hopkins, 2000).
O relatório da Pesquisa sobre Saúde Reproduiva e Práicas Obstétricas no Brasil (Nú- cleo de Estudos de População de 1996) reportou que 89% dos médicos entrevistados em São Paulo achavam que as mulheres preferiam o parto cirúrgico (Barbosa et al, 2003, p. 1614).
Como vimos no item anterior, estudos baseados no discurso das mulheres concluem o oposto: que a maioria das mulheres, independentemente de nível econômico e grau de escolaridade, não quer e nem pede cesárea, que não há uma cultura feminina que valorize a cesárea e que, portanto, às mu- lheres, não se poderia atribuir a preferência pela cesárea (Perpétuo et al, 1998; Barbosa et al, 2003, Hopkins, 2000).
Os estudos sobre a preferência das mulheres por parto ou cesárea, em amostras da população femini- na e médica, colocam as razões dadas pelos médicos e pelas mulheres, lado a lado, sem levar em conta ou abordar a relação de poder entre os atores (Hopkins, 2000) nem a apropriação e manipulação do discurso para reforçar ideologias e atender interesses hegemônicos.
Em matéria de discurso, por exemplo, no que tange a preferência, observa-se que o discurso feminista dos anos 60, que clamava pelo direito de controle sobre o próprio corpo, teria sido, de certa forma, apropriado pelo discurso médico para legiimar cirurgias cesarianas desnecessárias ao ser transforma- do em um ‘novo’ discurso: o discurso do direito de escolher a cesariana. O controle das mulheres sobre seu corpo teria passado a ser expresso por novos sintagmas, tais como ‘opção pela cesárea’, ‘cesárea eleiva’, ‘cesárea a pedido’, em que o fator determinante do ipo de nascimento seria o ‘desejo da mãe’ e, portanto, a ‘cultura da cesárea’ seria um produto essencialmente feminino (Barbosa, 2003), fazendo do médico e das insituições meros veículos submeidos e dedicados aos desejos da mulher, a qual, por graça do discurso, seria a toda poderosa na hora do nascimento.
Infelizmente, ainda que muitos proissionais disseminem essa ideia e respaldem toda sua práica cirúr- gica nela, a visão de médicos sensíveis aos desejos das mulheres é ingênua e não encontra respaldo cieníico. Estudos em saúde pública apontam para o reduzido poder de inluência da mulher sobre o resultado do nascimento (Perpétuo et al, 1998, p. 115; Hopkins, 2000). Atribuir às mulheres “parte da responsabilidade pelo crescimento do parto cesáreo não faz senido, não apenas porque a maioria delas não quer esse ipo de parto, mas também porque os moivos alegados [pelos médicos] para tal não se sustentam” (Perpétuo et al, 1998: 115). Tal atribuição às mulheres só encontraria fundamen- tação se “o médico se mostrasse sensível ao desejo da mulher ou então nos casos em que a mulher, tendo sua expectaiva contrariada, adotasse a postura de procurar outro proissional” (Perpétuo et al, 1998, p. 115). Perpétuo et al (1998, p.115) relatam, porém, que tanto médicos sensíveis ao desejo da mulher como mulheres que adotaram a postura de procurar outro proissional não foram relatados nas entrevistas colhidas em seu estudo. Nessa situação, veriica-se que nem mesmo as mulheres que iveram ilho no setor privado (grupo de maior renda e maior escolaridade), as quais escolhem e pagam seu próprio médico, têm sua expectaiva de parto atendida, já que também é alto o grau de incom- paibilidade entre o parto desejado e realizado (Perpétuo et al, 1998, p. 115). Consequentemente, as mulheres, em geral, não parecem ter controle sobre o ipo de nascimento.
Ao invesigar o poder do médico de levar a mulher a ‘escolher a cesariana’, Hopkins (2000)faz uma aná- lise de diálogos entre médicos e parturientes durante o nascimento e, subsequentemente, de narrai- vas femininas sobre a experiência de dar à luz e revela algumas estratégias discursivas (mechanisms) uilizadas pelos médicos para “induzir a chamada exigência de se fazer uma cesárea e demonstra que os médicos são paricipantes aivos no recorrente construto da cultura da cesárea no Brasil2” (Hopkins, 2000, p. 725).
Hopkins (2000) observou que, além de atribuir a cultura da cesariana à preferência das mulheres, os médicos pesquisados também atribuem as cirurgias que realizam a uma suposta ‘pressão irresisível’ feita pelas parturientes. A ‘preferência’ e a ‘pressão’ são ilustradas por alguns trechos selecionados
2 “[…] I also show some of the mechanisms that doctors use in order to induce so-called demand for surgical delivery and argue that they are very acive paricipants in the ongoing construcion of the culture of cesar- ean secion in Brazil.”
do diálogo entre um médico denominado Dr. Sálvio e sua paciente paricular, Branca, na presença da pesquisadora Hopkins (2000, p. 734-735):
Dr. Sálvio para Branca na admissão: Você já veio ao meu consultório já querendo uma cesárea, certo?
Branca: Bem, a gente conversou, né? Eu não queria ter que passar pela dor.
A pesquisadora relata que a paciente não mencionou preferir uma cesárea nem uma vez e que o mé- dico se apega ao medo da dor das pacientes pariculares como algo dado, jusiicável e imutável, não oferecendo qualquer alternaiva para seu manejo:
Branca durante uma contração: Ai, eu não aguento mais!
Dr. Sálvio para a pesquisadora: Viu? Esse é o ipo de coisa subliminar. Sofremos pres- são. Pressão psicológica. Os médicos também sofrem com a pressão do hospital, das estaísicas. Não querem que façamos tantas cesáreas. Por exemplo, o pessoal lá de baixo (administração), vem com as estaísicas. (O diretor médico) vem pra mim e me fala ‘você fez 10 partos no mês passado, 8 foram cesáreas’. Mas ele não está aqui na sala de parto comigo, sofrendo esse ipo de pressão que a gente sofre.
Segundo Hopkins (2000), a parir da interpretação do “Eu não aguento mais!”, o médico passou a in- sisir que a pesquisadora compreendesse a ‘pressão incrível’ que ele sofre em sua proissão, pressão vinda das mulheres e do hospital. Ao mesmo tempo Hopkins (2000) relata que “Eu não aguento mais!” é a frase que ela mais ouviu das mulheres em trabalho de parto, tanto no setor público como no priva- do, não se tratando de um ‘pedido de cesárea’, mas de um sinal de dor e desconforto, com a diferença de que as pacientes dos hospitais públicos eram calmamente ignoradas pelos médicos quando pediam para ele ‘fazer alguma coisa’ ou apenas recebiam um tapinha nas costas dizendo que ‘já ia passar’. A parir de suas observações e entrevistas, Hopkins (2000) conclui que médicos são ‘sim’ (grifo da autora) capazes de resisir à suposta pressão das pacientes – como fazem, por exemplo, no setor público. A pesquisadora relata que durante todo o trabalho de parto o Dr. Sálvio e outros médicos não confor- taram nem acalmaram suas pacientes e não lhes ofereciam meios para lidar com a dor, ainda que se- jam essas as recomendações decorrentes das políicas públicas de atenção ao parto (MS, 2001; WHO, 1996).
Segundo a pesquisadora, os médicos pareciam estar preparando a parturiente para ‘pedir’ uma ce- sárea (Hopkins, 2000). Pelo visto, os médicos são bem sucedidos, pois 93,9% das mulheres que não querem uma cesárea, mas que por algum moivo a solicitam, o fazem durante o trabalho de parto e/ ou parto por causa dor (Barbosa et al, 2003, p. 1618).
Ao tratar a dor como algo incontrolável e não manejável, e também como algo que a mulher deva suportar e administrar sozinha, amarra-se a representação do nascimento ao discurso hegemônico da dominação masculina, traduzido pelo ‘Parirás com dor’ e reproduzido em expressões introjetadas em nossas mentes como: ‘parir é sofrer’, ‘mulher sofre’, ‘mulher tem que sofrer’.
Enquanto isso, o outro ator em cena é o médico, o qual está lá para redimir a mulher da dor, bastando que ela proira algumas palavras que possam ser interpretadas como um ‘pedido’ de cesárea. As estru- turas milenares de dominação social do feminino contribuem com e permitem que o médico fabrique um pedido que certamente virá. No momento em que o ‘pedido’ se materializa, ainda que decorrente de uma situação praicamente irresisível, em muito similar a uma ‘conissão’ durante uma tortura, dela diferindo apenas pelo fato de a mulher não ter consciência da relação de poder envolvida, a res- ponsabilidade pela cesárea desloca-se para a mulher e o ‘pedido’ é interpretado como preferência sua e graça médica: “Seja feita a sua vontade”. De pecadora merecedora de dor inexorável, por suas pró- prias palavras ao pedir a cesárea, a mulher se redime e, por obra médica, seria supostamente elevada à condição de deusa, dona de vontades realizadas.
No caso de Branca, é o que inalmente acontece, quando a paciente assimila o vocabulário do médico e passa a usar a palavra ‘pressão’ como sua:
Branca: Oh Sálvio, agora estou fazendo pressão...
Dr. Sálvio: Temos uma alternaiva chamada analgesia. Você quer? Branca: Ah, não sei.
Dr. Sálvio: Você quer uma cesárea, agora, né? (Hopkins, 2000) Em seguida o Dr. Sálvio rompe a bolsa da paciente, sem avisá-la, e sentencia:
Dr. Sálvio para a pesquisadora: Está verde. Mecônio. Ainda que o bebê esteja bem é uma indicação de cesárea.
Dr. Sálvio para Branca: Você venceu! Venceu!
Dr. Sálvio para a Pesquisadora: Para a administração, é apenas uma cesárea eleiva. Você acha que é? Se fosse uma mulher no sexto ilho com 8 cm de dilatação, ela teria o bebê em 15 minutos. Mas esse é seu primeiro ilho, ela está com 5 cm, não dá para saber. (Hopkins, 2000)
Como podemos observar, o Dr. Sálvio é corolário da jusiicaiva não fundamentada de que médicos e insituições são altamente sensíveis aos desejos e preferência das mulheres, que, segundo eles, são quem decide sobre o parto. Um perfeito retrato do patriarcado da civilização ocidental: um sistema no qual tudo que é ligado ao masculino (homem, ciência, ação etc.) detém o poder, e do qual as mulheres são excluídas (Bourdieu, 2014).
O úlimo trecho do relato do Dr. Sálvio é o mais chocante nesse senido, explicitando o efeivo poder do médico sobre a parturiente e sobre seu total domínio sobre a situação, demonstrando de quem foi a vontade realmente feita.
Dr. Sálvio após a cirurgia: Quantas vezes Branca fez pressão? Pelos menos cinco. Pesquisadora: Pelo menos.
Dr. Sálvio: E eu resisi. Pesquisadora: Sim.
Dr. Sálvio em uma voz mais baixa e maliciosa para o obstetra assistente: Mas não mui- to. [Dr. Sálvio, em seguida, ri maliciosamente.] (Hopkins, 2000)
O diálogo acima demonstra claramente como, a parir da jusiicaiva da ‘preferência’, os médicos mol- dam a situação de modo que a cesárea seja resultado de uma ação (pressão, desejo, pedido, opção) da mulher e não uma ação facilmente controlada pelo médico dada a consituição das estruturas sociais de dominação.
A falta de consciência sobre as estruturas sociais de dominação, sobre a naturalização das diferenças sociais entre homens e mulheres e sobre as relações sociais de poder entre os atores no cenário do nascimento relete a baixa percepção, tanto de mulheres atendidas no setor privado como do público, sobre o fato de médicos preferirem a cirurgia em detrimento do parto normal. Hopkins (200, p.739) constatou que menos de uma em cada seis mulheres no setor privado acreditava que os médicos pre- feriam cesáreas.