Quarto exemplo de jusiicaiva para cesárea é a de que ‘parto normal é coisa de índio’ (Perpétuo, 1998:112). Nessa representação, parir vaginalmente seria algo primiivo e não civilizado e, portanto, ‘natureba’, ‘selvagem’, ‘coisa de bicho’, ‘atrasado’, ‘não cieníico’, não tecnológico, consequentemente, arriscado e perigoso para a mãe e o bebê. Esse discurso está releido em falas como ‘parto normal é coisa de natureba, bicho grilo, maconheiro’, ‘parir em casa é voltar ao passado’, ‘parto normal pra mim é cesárea’, ‘para quê arriscar?’. Como nossa abordagem está dentro da Análise Críica do Discurso, considera-se que toda escolha linguísica – em qualquer nível – possui carga ideológica e, portanto, não é aleatória, ainda que relita ideologias – em regra – dominantes de maneira inconsciente (ver textos abaixo).
Figura 05. Rede social Facebook, comentário público, 2014.
5 Em seguida, temos as falhas na esterilização cirúrgica através da laqueadura tubárea. Na ordem decrescen- te, temos, então as sequelas decorrentes: distócia de ombros no parto, complicações no pós-parto, como dor, cicatriz inestéica, além de esquecimento de corpo estranho como compressas ou gazes, erros nos exa- mes laboratoriais, ístulas e infecções pós-parto, abortamento, óbito materno e outras complicações, como fratura de fêmur, não diagnósico de gestação, perfuração uterina em curetagem e esquecimento de restos ovulares. (Cury et al, 2013, p.112)
Texto 46. Compilação de falas do Grupo Dignidade Médica, composto por estudantes e proissionais da medicina. Falas compiladas e disponíveis em peril público no Facebook, 2014.
O próprio movimento pela humanização do parto opera esse discurso de duas formas. A primeira, reproduzindo a ideia de que se trata de uma ‘volta às origens’, ‘volta ao passado’, ‘conexão com a mãe terra’ e, portanto, nessa linha poderia estar contribuindo para reforçar a condição de ‘menos civilizada’, ‘selvagem’, ‘louca/histérica’ da própria mulher, cuja representação é tradicionalmente – na medicina (Rohden, 2001) e também fora dela – ligada ao ‘natural’, em oposição ao cieníico; ao artesanal, em oposição ao industrial. Representações essas baseadas em determinismos biológicos que jusiicam diferenças psicológicas e morais entre homens e mulheres, as quais possibilitaram uma construção social da sexualidade, por meio de diversos elementos discursivos (Bourdieu, 2014), contra os quais o feminismo tem lutado há décadas.
Especialistas da área também reforçam a representação de que ‘parir é uma volta ao passado, à natu- reza [selvagem] da mulher’. O médico Michel Odent, um dos principais nomes do parto natural, prega uma ‘volta à natureza’, atrelando a igura da mulher que dá à luz à ‘condição de mamífero’.
[N]o que tange ao parto e nascimento, aquilo que for especiicamente humano deve
ser eliminado, enquanto as necessidades da mamífera devem ser supridas.6 (grifo no original) (Odent, 2004, p. 24)
A fêmea de um animal mamífero na loresta não é capaz de dar à luz enquanto houver um predador por perto. Vale notar que quando uma mulher em trabalho de parto tem total privacidade e se sente segura, ela frequentemente se encontra em posições
6 [W]here labour, delivery and birth are concerned, what is speciically human must be eliminated, while
ipicamente adotadas por mamíferas, por exemplo, em quatro apoios.7 (grifo nosso) (Odent, 2004, p. 24)
Falas como as de Odent inserem-se no e reverberam o discurso hegemônico – androcêntrico e cieníi- co – em oposição ao – feminino e natural/selvagem. Odent reproduz a visão de separação entre corpo e mente e ‘desumaniza’ o parto [algo não humano, mamífero, selvagem]. Em um exame mais deido, este trecho poderia ser considerado a anípoda de uma das principais bandeiras do movimento pela humanização, a saber: um parto respaldado pela MBE, ou seja, no ‘progresso, avanço da ciência’ e também ‘centrado na mulher’, no feminino – que não é não-humano.
A ciência de hoje conclui por mais simplicidade, menos intervenções, menos paricipação de médicos e menos hospitalização no momento do nascimento e as políicas públicas caminham nessa direção, e fato recebe atenção também da mídia (ver texto abaixo).
Texto 47. The Guardian. Mais mulheres deveriam dar à luz em casa, recomenda estudo. (Campbell, 2014, 13 de maio)
As evidências cieníicas sobre o nascimento hoje concluem que ‘O parto mais cieníico é o menos tecnológico’ (Dreger, 2012) e por exisir – no discurso hegemônico capitalista, cieníico, androcêntrico
7 [T]he female of a mammal in the jungle cannot give birth as long as there is a predator around. It is signii-
cant that when a laboring woman has complete privacy and feels secure, she oten inds herself in typically
– uma incompaibilidade e aparente incoerência entre ‘ciência’ e ‘não-tecnologia’ e, por sua vez, entre uma não-paricipação do especialista [acostumado a fazer o parto] e um modo de assistência centrado na mulher com apoio de mulheres (obstetrizes, parteiras, doulas, enfermeiras etc), a jusiicaiva de que um nascimento vaginal é ‘coisa de índio’ está em perfeita harmonia com a ideologia dominante de médicos e maternidades que perdem – na terminologia de Bourdieu (2003) – capital econômico (riqueza) e capital simbólico (presígio) ao fazerem menos uso de recursos tecnológicos e serem me- nos necessários. Nessa linha, no verso da fala ‘parto normal é coisa de índio’ estaria, no reverso, a fala de que ‘parto [cesárea] é coisa de médico [homem8]’. Vale notar que em países em que o número de obstetras supera em muito o número de obstetrizes, parteiras, as taxas de cesárea estão nas alturas (Odent, 2004, p. 22).
A segunda maneira em que o movimento opera esse discurso é pela de ironia. É comum aivistas se referirem a si mesmas e umas às outras como ‘Azíndia’, ‘Azaivista’, porém não estamos convencidas de que as demais ideologias do nascimento, ou melhor, os atores que delas comparilham, captam o humor suil de imagens como as abaixo:
Figura 06. Composição de Maíra Libertad Soligo Takemoto, publicação do grupo “Cesárea? Não, obrigada.”, Facebook (23/10/2013)
Figura 07. Composição de Maíra Libertad Soligo Takemoto, publicação do grupo “Cesárea? Não, obrigada.”, Facebook, 2013.
8 Odent chama atenção ao fato de que nas lendas e mitos o nascimento por ‘cesárea’ ou ‘por cima’ era sem- pre feito por uma igura masculina (Odent, 2004, pp. 25 e ss.).