Diversas pesquisas em Saúde Pública invesigam o desejo de mulheres de todo o Brasil, de todas as classes sociais, de todos os níveis de escolaridade, sobre sua preferência em relação ao nascimento, isto é, se preferem parto normal ou cesárea (Hopkins, 2000; Hoimsky, Ratner, Venâncio, Bógus & Miranda, 2002; Barbosa et al, 2003 entre outras ). Os resultados de todos esses estudos demonstram que a maioria absoluta, cerca de 75% das mulheres, deseja parto normal: 75,5% no Rio de Janeiro (Barbosa et al, 2003) e 71% em Belo Horizonte (Perpétuo et al, 1998). A mesma proporção é veriicada em enquetes informais realizadas pela internet, como a de abril de 2014, lançada durante o programa Encontro com Fáima Bernardes, na maior rede de tevê brasileira.
Figura 04. Resultado da enquete Como você gostaria que fosse o parto do seu ilho?, realizada pelo programa Encontro com Fáima Bernardes, Rede Globo, em abril 2014.
As principais razões pelas quais as mulheres preferem um parto normal são, segundo as pesquisas: “re- cuperação mais diícil e lenta no parto cesáreo” (39,2%) e “dor e sofrimento maior depois da cesárea” (26,8%) (Perpétuo et al, 2003).
Na análise de Barbosa et al (2003), 17% das mulheres solicitou cesárea e, dessas, 75% durante o traba- lho de parto. Entre as mulheres que solicitaram cesárea as razões citadas com mais frequência foram: menos dor (43,2%), realização de ligadura tubária (22,2%) e cesárea anterior (16%). Ressalte-se que as duas primeiras razões estão diretamente ligadas ao nível socioeconômico, pois na faixa de maior renda, analgesia sempre esteve disponível e a ligadura não é considerada fator economicamente relevante para determinação do ipo de nascimento. Outro achado signiicaivo, esse na amostra de Perpétuo et al (1998), é que 40% das mulheres que já haviam ido parto cesáreo disseram que preferiam ter o ilho através do parto normal:
É especialmente interessante a existência de um grande número de mulheres que já haviam ido um parto cesáreo e que gostariam de ter um parto normal (40%), princi- palmente tendo em vista a ideia difundida entre médicos e mulheres de que depois de uma cesárea todos os partos devem ser cesáreas por causa do risco de ruptura do útero” (p. 108)
Perpétuo et al (1998, p. 102) constataram que “A maioria absoluta de mulheres disse preferir o parto vaginal [71%], independentemente de sua idade, paridade, nível de escolaridade, ipo de hospital em que teve o parto e forma uilizada para inanciá-lo”. Além disso, na mesma pesquisa, 8% airmou não ter preferência e 21% preferiu cesárea. Segundo a pesquisa, os fatores que inluenciam a cesárea ‘a pedido’ são “além do desejo de laqueadura, as circunstâncias concretas da assistência no pré-parto/ parto”.
Quais circunstâncias seriam essas? Uma pesquisa anterior de Serruya (1996, p. 148), ao invesigar a origem da preferência por cesárea por parte das usuárias do sistema público e constatou que as mu- lheres atendidas pelo SUS “preferem ser operadas porque aí, serão melhor assisidas”. A assistência de melhor qualidade, todavia, poderia ser traduzida pelas ‘circunstâncias concretas da assistência no pré-parto/parto’, ou seja, pela possibilidade de receber anestesia (i.e. parir sem dor) e ser bem tratada (i.e. não sofrer violência obstétrica). Em outras palavras, a escolha da camada de baixa renda seria não por uma cirurgia propriamente, mas por um nascimento digno e sem violência (Hoimsky et al, 2002). A conclusão das pesquisas (Perpétuo et al, 1998; Barbosa et al, 2003, Hopkins, 2000, Hoimsky et al, 2002) converge no senido de que a maioria das mulheres de todas as classes sociais não quer e nem pede cesárea, que não há uma cultura feminina que valorize a cesárea e que não se pode atribuir a preferência pela cesárea às mulheres. Mesmo assim, apesar dos achados cieníicos, temos na classe alta brasileira uma dinâmica peculiar em que mulheres consideradas de baixo risco por uma série de fatores – alta escolaridade, alto nível socioeconômico, residência em regiões desenvolvidas, realização de pré-natal desde o início da gravidez, atendimento em hospital paricular – passam por nascimentos cirúrgicos.
Outrossim, os três fatores que estão efeivamente associados à preferência por cesariana, tampouco seriam todos determinantes para esse grupo dado seu poder econômico. O primeiro deles, a laquea-
dura tubária, é mais comum em mulheres de níveis socioeconômicos mais baixos, tendo em vista que o grupo de faixa mais alta possui acesso a outros meios contraconcepivos. O segundo seriam as ‘cir- cunstâncias concretas da assistência no pré-parto/parto’, as quais, para essas mulheres deveriam ser as melhores possíveis, já que elas escolhem o médico e o local de parto. O terceiro, cesárea anterior, é o único que poderia indicar uma maior ocorrência de cesariana decorrente da crença popular dissemi- nada pelo discurso médico de que ‘uma vez cesárea sempre cesárea’. Porém, essa sentença também poderia ser anulada dado o acesso à informação que esse grupo possui.
Em outras palavras, o resultado da soma de todas as caracterísicas que diminuem a propensão à ce- sariana, bem como da anulação de todos os fatores associados ao aumento do índice de cirurgia pelo poder econômico e acesso à informação, deveria ser uma taxa de cesariana mais baixa na faixa de mu- lheres de maior renda e maior escolaridade. Mas, o resultado da conta é exatamente o oposto. Apesar de terem ‘tudo’ (poder econômico e informação) a seu favor, ao analisar a preferência da mulher e o parto realizado, constatou-se que 70% das gestantes que se internam em hospitais privados não conve- niados (i.e. mulheres de maior renda e maior escolaridade que pagaram pelo serviço ao médico de sua escolha) “têm um parto operatório contra a sua expectaiva” (Perpétuo et al, 1998, p. 102).
Veriica-se que, portanto, a esmagadora maioria das mulheres de classe alta, mesmo manifestando preferência por um nascimento vaginal e mesmo estando associada a baixo risco, alto poder econômi- co e alta escolaridade etc., não passa pela experiência desejada de um nascimento vaginal nos hospi- tais e maternidades pariculares.
É claro que a experiência desejada de parto não depende de moivos isolados, mas de um conjunto complexo de fatores os quais, mais adiante, os relatos de VBAC podem ajudar a elucidar. Questões como: ‘O que levaria mulheres de alta escolaridade e renda, que desejam um parto normal, passarem por um nascimento cirúrgico?’, ‘Por que essas mulheres não iveram sua preferência atendida?’, ‘O que ocorre entre a concepção e o parto que faz mulheres de baixo risco ter uma cesárea?’, ‘Quais as forças e relações de poder que operam na a relação médico e paciente?’ e ‘Como essas mulheres constroem e reconstroem a sua representação do nascimento?’.
Porém, antes de passarmos à análise dos dados, coninuaremos com a descrição do contexto no qual se inserem os relatos que são objeto da presente tese. O próximo paradoxo aborda as incoerências do discurso médico.