5.4 Heterogeneity in second stage
5.4.1 Heterogeneous effects
Kandel (1972) chama de operacionalização na pesquisa um procedimento estratégico capaz de mediar a teoria e a empiria, a fim de acessar as informações de forma pertinente. Chama o movimento inverso de interpretação, que objetiva validar ou não uma hipótese sobre uma realidade. Segundo Gaskell (2008), a entrevista individual ou de profundidade consiste em uma conversação, na qual podemos considerar que “técnicas que tangem relações são, em si, relações sociais”.1 (BOSI, 2010, informação verbal).
Minayo (2010a) ensina que as informações produzidas durante uma entrevista são reflexões do próprio sujeito sobre a realidade que vivencia no estabelecimento da subjetividade que só podem ser acessadas com a contribuição do próprio sujeito. A técnica da entrevista é capaz de ultrapassar os níveis de respostas mais superficiais e de atingir as reações mais profundas e verdadeiras do sujeito interrogado (ROGERS, 1945 apud KANDEL, 1972). Kandel (1972) chama atenção para os processos de “ideologização” dos significados e necessidade de aprofundamento das entrevistas, com o objetivo de desvelar o profundo e compreender o contexto de conformação das opiniões.
Guy Michelat postula que, no campo ideológico, ‘o que é de ordem afetiva é mais profundo, mais significativo e mais determinante do que é intelectualizado’, no sentido de que as relações são mais estreitas com o “comportamento do indivíduo”. Talvez seja preciso nuançar essa ligação do ‘afetivo’ com o ‘profundo’ sob pena de perder um dos traços essenciais da ideologia. Com efeito, o que o sujeito apresenta na superfície em sua resposta à pergunta do entrevistador comporta aspectos afetivos tanto quanto cognitivos ou comportamentais, todos eles sendo aspectos fortemente estereotipados e racionalizados. [ ] Este nível ‘profundo’, invisível para o observador apressado,é aquele no qual se articulam precisamente o jogo das forças sociais que operam no indivíduo sem que este saiba, como ator social, e o jogo da subjetividade cuja parte consciente é apenas a emergência do cume do iceberg. (KENDEL, 1972, p.221)
A entrevista tem por objetivo descobrir a estrutura de sentidos própria do entrevistado, minimizando o máximo possível a imposição de estruturas e suposições do entrevistador sobre o relato do entrevistado (BRITTEN, 2009). A entrevista, como forma de interação social, está sujeita à mesma dinâmica das relações da própria sociedade (MINAYO, 2010a). O pesquisador precisa manter-se aberto às diferenças de conceitos, opiniões e
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Informação coletada durante a aula da disciplina Metodologia Qualitativa na Investigação Social ministrada pela professora Maria Lúcia Magalhães Bosi, realizada no Mestrado em Saúde Pública, Universidade Federal do Ceará, em novembro de 2010.
experiências que surgirem neste percurso. Além disso, o pesquisador e/ou entrevistador devem está atento para as questões relativas ao universo linguístico do entrevistado e à polissemia de significados que determinados construtos expressam, de acordo com o sujeito que participa da entrevista (GASKELL, 2008; BRITTEN, 2009).
Para tal, Gaskell (2008) propõe uma fase de planejamento anterior ao campo, na qual duas questões fundamentais surgem: o que perguntar e para quem perguntar? Ai constituem os recortes iniciais de exploração sobre determinada temática. O autor denomina de tópico-guia, que consiste em uma sistematização flexível do que se pretende abordar durante as entrevistas. A imaginação social e científica do pesquisador, entretanto, deve estar sempre presente e sensível ao aparecimento de temas não explorados anteriormente pelo pesquisador, mas que confere significativas contribuições e compreensões à pesquisa.
Entendemos que a ordem dos assuntos tratados não obedece necessariamente uma sequência rígida e, sim, como assinala Minayo (2010a, p. 265), “é determinada freqüentemente pelas próprias preocupações, relevâncias e ênfases que o entrevistado dá ao assunto em pauta”. Durante a entrevista, o entrevistado pode ir apresentando espontaneamente seu pensamento e experiências, dentro do eixo principal expresso pelo pesquisador, garantindo que as questões pertinentes ao objeto sejam abordadas (TRIVIÑOS, 1994). Apesar dos roteiros de entrevistas pré-formulados, descritos nos Apêndices A e B, tentamos priorizar o máximo possível o estimulo às falas e condução própria do pensamento dos usuários e profissionais de saúde inseridos no estudo, permitindo que refletissem sobre o cotidiano do cuidado à criança, bem como acerca da tecnologia aqui avaliada.
Antes de iniciar a entrevista, explicamos aos participantes os objetivos e métodos que seriam utilizados na pesquisa. Garantimos a participação consciente e voluntária no estudo com a leitura, na íntegra, e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCL) (APÊNDICE C e D), de acordo com a Resolução do Conselho Nacional de Saúde nº 196 / 96, que define critérios éticos para a pesquisa com seres humanos. Ademais, o TCLE nos assegura, na qualidade de pesquisador ou a comprovação de participação dos sujeitos no estudo, assim como a conscientização e transparência, aos participantes, de todo o protocolo de estudo.Deixamos clara a garantia do sigilo das informações e identidades dos participantes do estudo, bem como a livre decisão de participar e deixar a pesquisa ou a não publicação de suas falas.
As entrevistas ocorreram nas residências dos usuários e locais de trabalho dos profissionais, pois entendemos que o local de produção do discurso influencia na sua confiabilidade. As entrevistas foram gravadas com a autorização dos participantes. Os gravadores foram previamente testados, a fim de minimizar e prevenir possíveis intercorrências que pudessem atrapalhar o andamento da entrevista e perder o discurso produzido naquele momento, tendo a consciência de que o discurso jamais será manifestado da mesma maneira e com as mesmas intenções em outro momento.
Após aprovação inicial da sua participação no estudo, as entrevistas foram agendadas de acordo com a nossa disponibilidade e a do profissional, dando prioridade ao segundo. As entrevistas foram realizadas em horário mais conveniente que não atrapalhasse as consultas e as atividades nas unidades. Geralmente aconteciam no inicio da manhã, no horário do almoço ou no fim da tarde. Este fato, no entanto, não nos garantiu facilidade na realização das entrevistas, haja vista os imprevistos diários na rotina de atendimento das unidades de saúde, como reuniões extraordinárias, intercorrências de ordem pessoal e familiar e, comumente, uma demanda extra de atendimento que o profissional de saúde do PSF tem de abarcar no cotidiano das ações. Muitas vezes tivemos que adiar e remarcar as entrevistas, em razão destes imprevistos.
Outra questão de importante influência no andamento do campo foram duas greves profissionais, enfermeiros e dentistas, consecutivas, com assembleias e atos constantes que, além de retirar o profissional da unidade de saúde, os indisponibilizavam para as entrevistas. Ademais, as atividades de atendimento do PSF estavam suspensas em razão da greve, impedindo a observação das ações e atividades do serviço nos primeiros meses, entre maio e junho. Passada a greve, demos seguimento ao trabalho com os profissionais, contudo, neste intermeio, já iniciamos um contato com os usuários.
Com relação às usuárias, não houve maiores dificuldades na realização das entrevistas, na maioria. Após o contato do agendamento, sempre pegávamos o contato telefônico para, no dia anterior a realização da entrevista, confirmar e lembrar às usuárias acerca do compromisso. De modo geral, a receptividade das usuárias foi muito positiva e sem nenhuma recusa neste grupo para a participação na pesquisa, acrescentando que sempre se mostraram disponíveis e alegres com a nossa presença em sua residência. Vale destacar que, na qualidade de pesquisadora, a experiência do contato com estas usuárias nos proporcionou
um aprendizado interessante, levantando o questionamento do modo como representam a maternidade e que tipo de mãe a CSC produz.
Posteriormente, as entrevistas foram transcritas fidedignamente para a análise do material empírico. Gill (2008) ensina que uma boa transcrição deve ser um registro o mais bem detalhado possível do discurso a ser analisado, com o objetivo de não perder as características centrais da fala. Nas palavras de Jonathan Potter (1996, p. 136 apud GILL, 2008), “Muitas vezes, algumas das intuições analíticas mais iluminadas aparecem durante a transcrição, porque é necessário um engajamento profundo com o material para produzir uma boa transcrição”.