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– Informasjonsskriv og samtykke i forbindelse med intervju

Ducrot (1981) afirma que muitos atos de enunciação têm função argumentativa, pois objetivam levar o destinatário a uma determinada conclusão ou desviá-lo dela. Tal função possui marcas na estrutura do enunciado: a frase pode apresentar expressões ou termos que, além de seu conteúdo informativo, servem para dar uma orientação argumentativa ao enunciado, conduzindo o destinatário a uma determinada direção.

Nessa linha, será mostrado o comportamento argumentativo das construções adversativas e das construções concessivas, pois tais construções dão orientação argumentativa ao enunciado.

A partir das observações de Ducrot e Vogt (1980), verifica-se que, na construção adversativa, o mas conduz a conclusões contrárias: introduz-se uma proposição q que orienta para uma conclusão não-r oposta a uma conclusão r à qual p poderia conduzir.

Retoma-se um exemplo citado na seção 2.2:

85) Ele é inteligente, mas estuda pouco. (DUCROT & VOGT, 1980, p. 104) Essa frase pode ser lida da seguinte forma:

Argumento 1 Conclusão 1

Ele é inteligente estuda bastante

Argumento 2 Conclusão 2

Estuda pouco não estuda bastante

Como se viu no capítulo 2, o argumento da proposição p (ele é inteligente) aponta para uma conclusão r (estuda bastante) e o argumento da proposição q (estuda pouco) aponta para uma conclusão não-r (não estuda bastante). Nesse caso, é o argumento da oração adversativa que prevalece (trata-se de argumento forte), o que se apontou na seção 2.2.

Ressalte-se que a construção concessiva também pode ser representada por esse esquema argumentativo, pois, como diz Camarero (1999, p. 189), toda estrutura contra- argumentativa, na qual se incluem tanto as construções adversativas quanto as concessivas, contém um enunciado p, apresentado como um argumento possível para uma conclusão r, e

outro enunciado q, orientado para uma conclusão oposta (não-r). O autor traz um exemplo de construção concessiva, representando-a no esquema argumentativo:

86) Embora um perigo desta nova medicina de bem-estar seja o fato de ela poder forjar em

alguns uma visão simplista e enganosa da natureza humana, penso que seu objetivo principal é admirável: facilitar-nos a busca da felicidade e as oportunidades para encontrá-la. Podemos pedir mais? 82

Argumento 1 Conclusão 1

esta nova medicina de bem-estar esta medicina pode ser prejudicial pode forjar uma visão simplista

e enganosa da natureza humana

Argumento 2 Conclusão 2

o objetivo principal é admirável esta medicina é benéfica

Em 86, o argumento da proposição p (esta nova medicina de bem-estar pode forjar uma visão simplista e enganosa da natureza humana) orienta para a conclusão r (esta medicina pode ser prejudicial), mas o argumento da proposição q (o objetivo principal é admirável) conduz para a conclusão não-r (esta medicina é benéfica). Aqui, o argumento da

oração concessiva não é o que prevalece (trata-se de argumento fraco).

Considerando que a construção adversativa e a construção concessiva se situam na conexão de contra-argumentos para uma conclusão, levando, assim, a conclusões contrárias, diz-se, em geral, que tais construções estabelecem oposição (RODRÍGUEZ, 1990) ou contraste (GARCÍA, 2000) entre fatos.

Entretanto, a diferença fundamental entre a construção adversativa e a construção concessiva, como apontam Rodríguez (1990), Camarero (1999) e García (2000), está no argumento que se destaca: como se viu, a oração adversativa constitui um argumento forte e a oração concessiva se apresenta como um argumento fraco. Assim, a construção adversativa e a construção concessiva trazem, como diz Guimarães (2007), diferentes orientações argumentativas83. Dessa forma, como afirma o autor, em cada caso o texto progride em uma determinada direção. Nos exemplos citados a seguir, pode-se verificar essa diferença de comportamento:

82 Aunque un peligro de esta nueva medicina del bienestar es que puede fomentar en algunos una visión

simplista y engañosa de la naturaleza humana, pienso que su objetivo principal es adimirable: facilitarnos la búsqueda de la felicidad y las oportunidades para encontrarla. Podemos pedir más?

83 Entende-se como orientação argumentativa a apresentação de um argumento como algo que se considera que

87) / Os incidentes de Leme envergonham o país / , / mas o país não parece estar

envergonhado / . / A nação não está tomada por um sentimento doloroso de esturpor ou de indignação. /

Outras coisas não aconteceriam em países modernos ou democráticos, a começar por uma greve de cortadores de cana obrigados a cumprir sua tarefa sem que o patrão lhes forneça luvas ou facão. Mas nada disso chega a sensibilizar os brasileiros que vivem conforme os padrões materiais entre aceitáveis e excelentes, e que convivem sem maiores tormentos com a miséria da maioria dos seus patrícios (esta palavra castiça de raízes latinas tem algo de irônico: em latim, patrício quer dizer nobre e rico). Assim, em lugar de entender que os incidentes como os de Leme teriam de caber apenas em filmes de aventuras medievais, ou do gênero faroeste, os brasileiros bem postos na vida tratam do assunto como se a violência brotasse de um duelo entre forças iguais. (GUIMARÃES, 2007, p. 112)

88) ... Já pelos temas, fica bem marcado o caráter interdisciplinar da reunião.

/ Embora o tema central enfatizasse a necessidade de uma discussão ampla dos problemas do Oeste brasileiro como um todo / , / o Pantanal acabou por se tornar a grande estrela do evento / , / o que, afinal, já era de esperar, visto que o encontro atraiu para Campo Grande as maiores autoridades brasileiras do assunto. / (GUIMARÃES, 2007, p. 112)

Em 87, o autor diz que, como é a oração adversativa que traz o argumento predominante (forte), o texto progride levando em conta a direção indicada por esse argumento. Observe-se que a ideia da acomodação do país diante dos fatos aparece na oração adversativa (o país não parece estar envergonhado) e prevalece no decorrer do texto, como exemplificam os seguintes trechos: mas nada disso chega a sensibilizar os brasileiros que

vivem conforme padrões materiais entre aceitáveis e excelentes; os brasileiros bem postos na vida tratam do assunto como se a violência brotasse de um duelo entre forças iguais.

Em 88, por sua vez, o autor diz que, como é a oração nuclear que apresenta o argumento predominante (forte), o texto progride levando em consideração a direção indicada por esse argumento. Note-se que o texto progride levando em conta a ideia de que o congresso não se ateve ao tema proposto, conclusão tirada a partir do fato expresso na oração nuclear (o

Pantanal acabou por se tornar a grande estrela do evento). A expressão o que já era de esperar, que ocorre após a construção concessiva, mostra que esse acontecimento não

surpreende, embora fosse imprevisto antes.

Como se vê, cada construção indica uma orientação argumentativa, fazendo que o texto progrida em determinada direção. Essa distinção se dá, como se disse ainda há pouco, pelo fato de que o segmento adversativo e o segmento concessivo apresentam diferentes forças argumentativas.

Por outro lado, é possível afirmar que as adversativas e as concessivas se assemelhariam pelo fato de trazerem concessão84. Como mostra Koch (1997, p. 65), quando se indica concessão, “em vez de se apresentar o argumento como resultado de uma argumentação por autoridade, de maneira “ditatorial”, reconhecem-se estrategicamente as razões do outro.” (grifo meu) Trata-se daquilo que Garcia (1997, p. 375) chama de “concordância parcial”: reconhece-se um argumento para, em seguida, refutá-lo.

Grote et al. (1997, p. 93-94) apresentam três motivações para a presença de concessão em construções adversativas e/ou concessivas, a saber:

A) Concessão I: Convencer o leitor

89) Embora seja verdade que o Windows é barato, eu, no entanto, não compraria, porque ele

tem muitos defeitos85.

Trata-se, nesse caso, da concessão do tipo argumentativo, já que o objetivo é convencer o leitor, parafraseando contra-argumentos já explicitados ou antecipando aqueles que ainda não foram enunciados para concedê-los, ao mesmo tempo em que se insiste na dominância de outro argumento.

B) Concessão II: Prevenir falsas implicações

90) As salas de aula são pequenas, mas não inadequadas86.

Na concessão do tipo II, o locutor tem de antecipar inferências que o interlocutor poderia fazer a partir de um fato presente no discurso. Como apontam Grote et al. (1997), esse tipo de concessão aparece principalmente na língua falada.

C) Concessão III: Informar sobre eventos inesperados

91) Embora fosse Dezembro, não nevou e a temperatura subiu para 20 graus87.

Na concessão do tipo III, o principal objetivo é simplesmente informar sobre dois eventos, enfatizando que a correlação entre eles não é comum ou não é esperada.

Na análise dos dados desta dissertação, consideram-se as concessões do tipo I e III, pois elas aparecem com mais frequência no córpus.

84 Saliente-se que, como já se disse, a construção adversativa (com mas) nem sempre expressa concessão. 85Although you are correct that Windows is cheap I nevertheless wouldn‟t buy it, because it has many bugs. 86 The classrooms are small, though not unsuitable.

Apesar de tanto as adversativas quanto as concessivas apresentarem concessão, por motivações particulares, como as apontadas por Grote et al. (1997), pode-se considerar que cada tipo de construção constitui uma estratégia argumentativa particular. Caberia ao locutor optar por utilizar uma das estratégias de acordo com as necessidades comunicativas.

Neves (2000) afirma que, nas adversativas, o falante admite uma proposição e, nas concessivas, refuta uma proposição, como se verifica nestes esquemas oferecidos em sua obra:

92. Eu não assistia a todas as aulas, mas começava a aprender com elas. 93. Embora eu não assistisse a todas as aulas, começava a aprender com elas.

Esquema adversativo

a) eu admito que eu não assistia a todas as aulas;

b) (de qualquer modo / ainda assim) eu começava também a aprender com elas. (NEVES, 2000, p. 876-77)

Esquema concessivo

a) alguém/você pode me objetar que eu não assistia a todas as aulas, e eu não desconheço

isso;

b) (de qualquer modo / ainda assim) eu começava também a aprender com elas.

Observe-se que, em 92, vem expressa uma admissão na oração inicial da construção adversativa (o falante admite algo ao ouvinte) e, em 93, apresenta-se uma refutação na oração concessiva (ao prever uma possível objeção do ouvinte, o falante já faz a refutação).

Guimarães (1981), por outro lado, considera que a estratégia do mas é a de frustrar a expectativa e a do embora é a de manter a expectativa. Na estrutura A, mas B, diz-se algo que pode ser assumido como argumento válido e, em seguida, nega-se a validade de tal argumento, pois se apresenta outro argumento que aponta para conclusão oposta. Na estrutura

Embora B, A, ao contrário, apresenta-se um argumento para uma conclusão já se antecipando

que o que prevalecerá é o outro argumento que ainda será apresentado. Obviamente, essa diferenciação entre as conjunções referidas é válida apenas quando o embora ocorre em segmento adverbial anteposto. Apesar disso, as observações feitas por Guimarães (1981) se mostram pertinentes para a análise aqui empreendida, pois, como se verá, no córpus examinado a conjunção embora aparece, na maioria das vezes, na posição anteposta.

Guimarães (2007), além de apontar essas diferenças entre as adversativas (com mas) e as concessivas (com embora), mostra, com base na semântica argumentativa, que, por outro

lado, tais construções se aproximam por exibirem, igualmente, o fenômeno de polifonia. Com base em Bakhtin, o autor explica que a polifonia é a convivência de vozes diferentes no discurso e, consequentemente, de perspectivas distintas.

O autor mostra que, no discurso, poderão ser ocupados diferentes papéis: o de enunciador, o de locutor e o de alocutário. O enunciador é a posição do sujeito que estabelece a perspectiva da enunciação. O locutor L é aquele que se representa como fonte do dizer e o locutor Lp é o locutor que constitui pessoa no mundo. Por outro lado, o alocutário AL é a representação do ouvinte no discurso e o alocutário ALp é o alocutário que constitui pessoa no mundo. A partir dessas informações, é possível fazer uma leitura polifônica dos exemplos 87 e 88 citados.

Em 87, o texto se constrói na perspectiva do locutor L, que vai na direção de o povo

não se revolta (conclusão tirada a partir do argumento da oração inicial), e busca uma adesão

do alocutário ALp à revolta do locutor Lp, que apresenta outra perspectiva, a de que o povo

deve se revoltar, conclusão tirada a partir do argumento da oração adversativa. Nesse caso, a

perspectiva do locutor L e a perspectiva do locutor Lp constituem diferentes pontos de vista. Em 88, por sua vez, também se representam duas perspectivas. A oração concessiva, que conduz à conclusão o congresso se ateve ao tema central proposto, traz a perspectiva dos formuladores do tema do encontro (o título não é escolhido da perspectiva do locutor, mas imposto pela perspectiva do tema do encontro). Por outro lado, a oração nuclear, que leva à conclusão o congresso não se ateve ao tema central proposto, apresenta a perspectiva do locutor, que, ao expô-la, faz uma avaliação (o que era de se esperar).

A polifonia presente na construção adversativa e na construção concessiva evidencia que não é possível compreender o funcionamento real dessas construções sem que se leve em consideração a relação estabelecida entre locutor e interlocutor.

Essa relação também fica evidente quando as adversativas e as concessivas são vistas na “lei da preferência” (GARCÍA, 1994), uma categorização bastante reveladora desses dois tipos de construção.

Para que se entenda o funcionamento da lei da preferência, é necessário saber, primeiramente, qual é a concepção de signo adotada pelo autor. Com base em Peirce, García (1994) propõe que o signo é dialógico, pois a língua é um fato social. O autor diz que, no signo dialógico, há a associação de um significante dito por um falante com o significado que

é suscitado em um ouvinte88. Dessa forma, verifica-se que, por parte do emissor, a forma pronunciada é dominante (figura) em relação ao sentido recessivo (fundo) e, por parte do receptor, o sentido que se desenvolve em sua mente é dominante (figura) em relação à forma recessiva (fundo) que ele chega a captar89.

García (1994) mostra, assim, que há diversas instâncias semióticas resultantes das tensões que geram as formas e os sentidos do emissor e do receptor. A partir disso, o autor propõe leis perceptivas, dentre as quais a lei da preferência.

Na lei da preferência, há o enfrentamento do sentido captado pelo receptor, elemento forte que funciona como figura, com o sentido do emissor, elemento fraco que atua como fundo. A preferência pode ser explicada da seguinte maneira: o ouvinte entende um certo sentido ilocucional emitido pelo falante90 e acrescenta a disposição de responder de uma certa maneira no turno seguinte segundo seu conhecimento das convenções sociais e das circunstâncias91.

García (1994) mostra que tal lei pode ser manifestada por diferentes opções: a “coordenativa” (aqui chamada de paratática), associada à construção do tipo alter, e a “interordenativa” (aqui denominada hipotática adverbial), associada à construção do tipo

alius.

Na construção do tipo alter, um dos turnos representa a contribuição de um participante, e o seguinte, a intervenção de outro participante (embora pudesse haver mais participantes), e cada turno não responde exclusivamente ao anterior, mas ao tema geral da conversação de que se trata. Por outro lado, na construção do tipo alius, um dos turnos representa a contribuição do falante, que propicia a do ouvinte, e o outro, a intervenção do ouvinte, que é suscitada pela do falante e responde a ela.

O autor diz que, quando a conversação se projeta na estrutura da expressão composta, a construção do tipo alius se transforma em interordenação e a construção do tipo alter em coordenação. Na coordenação (tipo alter) cada sequência é atribuída a um participante indiferenciado, pois a informação relevante deve aparecer no princípio; caso contrário, seria

88 O autor diz que, no signo dialógico, tem-se a impressão de que se pode associar em um diálogo (e em geral na

comunicação, caso em que o falante se converte em emissor e o ouvinte em receptor) a forma do falante com o sentido que se desenvolve na mente do ouvinte.

89 García (1994) diz que, na “fala real”, a forma da mensagem é menos percebida que o sentido. Basta pensar,

por exemplo, que, como mostra o autor, passado certo tempo desde a emissão de uma mensagem pelo falante, o ouvinte nem sequer pode recordar a forma utilizada pelo falante para transmitir sua mensagem. Mesmo assim, reconstrói o sentido do falante e enriquece o sentido do falante com todo tipo de inferências. Daí o sentido do receptor ser figura e a forma captada por ele ser fundo.

90 Pode ser um convite, uma pergunta, uma ordem, etc.

possível interpretar que o participante do qual depende a sequência seguinte introduz informação nova. Na interordenação (tipo alius), por outro lado, a primeira sequência depende de um falante que mantém uma interlocução com o ouvinte sobre um tema conhecido de ambos, sendo indiferente a ordem em que aparece a informação, pois falante e ouvinte se movem em um universo semântico fechado.

Assim, García (1994) considera que as adversativas e as concessivas constituem duas formas diferentes de manifestação da lei da preferência, a construção coordenada (do tipo

alter) e a construção interordenada (do tipo alius), respectivamente. Visto isso, restaria

verificar como a adversativa (construção “coordenada”) e a concessiva (construção “interordenada”) expressam a relação de preferência.

No caso das construções concessivas, na relação Concedente (oração adverbial concessiva) + Concedido (oração nuclear), o concedente, que revela o conjunto de convenções sociais e culturais, preferiria o contrário do que é dito no elemento concedido. No entanto, o sujeito da enunciação, que também participa do sistema de preferências, pode ter uma preferência individual que é contrária à social. Assim, García (1994) propõe a seguinte fórmula para as construções concessivas:

[Fundo: concedente] ativador de preferência [FIGURA: CONCEDIDO] antipreferência manifestada

No trecho

94) Embora neve, sairei.92 (GARCÍA, 1994, p. 169),

a oração concessiva embora neve funciona como ativadora de preferência (ativa-se a ideia de que nevar é, segundo as convenções sociais e culturais, condição para impedir que o fato a ser expresso posteriormente ocorra)93 e a oração nuclear sairei expressa uma antipreferência (não é a preferência social que se mantém, mas a do sujeito enunciador). Dessa forma, o concedente registra um enunciado do qual segue uma implicação de preferência que, no entanto, é desautorizada pelo concedido.

Para as construções adversativas, por sua vez, García (1994, p. 346) propõe o seguinte esquema:

92 Aunque nieva, saldré.

{FIGURA: EXPRESSÃO PLENA} {fundo: expressão adversa} (sentido do emissor) (SENTIDO DO RECEPTOR) preferido

No exemplo

95) Ele ganha pouco, mas trabalha94. (GARCÍA, 1994, p. 348),

o que se impõe é a preferência representada pela implicação que se extrai do segmento adversativo (não está parado, tem trabalho).

Saliente-se que, na construção adversativa, no entanto, há, segundo o autor, uma “contradição”, pois, do ponto de vista informativo, a expressão adversativa apresenta um simples acréscimo de informação, já que atua como fundo. Entretanto, do ponto de vista

semântico, a expressão adversativa traz um conteúdo “forte” que se comunica ao receptor95, ou seja, a força argumentativa da oração adversativa que está a favor de uma conclusão C é maior que a força argumentativa da oração inicial que está a favor de uma conclusão contrária a C96.

Observa-se que, embora tanto as adversativas quanto as concessivas sejam incluídas na lei da preferência, na construção concessiva se expressa uma relação de antipreferência (uma “restrição desprezada”) e na construção adversativa está presente uma relação de preferência (uma “restrição mantida”).

Considerando-se a lei da preferência e, também, o fenômeno de polifonia, observa-se que, na construção adversativa e na construção concessiva, no segmento que traz argumento forte manifesta-se o ponto de vista do locutor e naquele que apresenta argumento fraco traz-se ponto de vista do interlocutor. No entanto, Gouvêa (2002), analisando o mecanismo de concessão em textos jurídicos, verifica que, em alguns casos de adversativas e de concessivas, apresenta-se posicionamento do locutor no segmento que traz argumento fraco, fenômeno que a autora denomina de “mudança de posição do locutor”. Para exemplificar isso, apresentam-se estas ocorrências trazidas por Gouvêa (2002):

96) O Prof. Emanuel Kadt dizia não conhecer outro país onde a medicina fosse tão

descaradamente comercializada como no Brasil, embora o fato não possa ser desvinculado do modelo econômico geral. (GOUVÊA, 2002, p. 182)

94 Gana poço, pero trabaja.

95 O autor toma como base os postulados de Ducrot e sua escola.

96 Saliente-se que García (1994) julga que o segmento adversativo é fundo apenas sob o ponto de vista

informativo. Neste trabalho, considera-se que, sob um ponto de vista semântico-pragmático, esse segmento deixa de constituir um mero acréscimo de informação e passa a atuar como figura.

A autora diz que, nessa construção, o locutor argumenta da perspectiva mais fraca (ou seja, a sua voz se manifesta no segmento concessivo) porque o depoimento do professor era mais importante do que uma ressalva qualquer que o locutor tivesse de fazer às palavras desse professor.

97) (...) Portanto, teria pago valor superior ao dos objetos por cuja subtração foi acusado

pelo Ministério Público, que lhe imputa este peculato impróprio, consistente em subtrair para si objeto de que não tem a posse, mas ao qual tem acesso, em razão da qualidade de funcionário. (GOUVÊA, 2002, p. 101)

Como mostra a autora, nessa construção o argumento da perspectiva mais fraca (no segmento inicial) direciona o raciocínio para a tese que o locutor, que é o juiz, vai defender na sentença: a de que a denúncia oferecida contra o réu é improcedente. Nesse caso, segundo analisa a autora, o juiz se posicionou na perspectiva mais fraca porque não poderia omitir o que determinava um dos parágrafos registrados em documentos que representam a lei, que seria decisivo para a interpretação do delito em questão.

Sendo assim, observa-se que, apesar de, nas adversativas e nas concessivas, o argumento forte se relacionar com o ponto de vista do locutor, há casos em que, por motivações particulares, é o argumento fraco que exibe o posicionamento do locutor. No