6.2 Feltets opplevelse av lovendringen
6.2.1 Informantenes opplevelse av lovendringen
Os quadros de referência constituem espécies de matriz disciplinar que agrupam um conjunto de conhecimentos científicos que condicionam e orientam toda a prática teórica (DE BRUYNE; HERMAN; SCHOUTHEETE, 1977, p. 133-152).
Os objetos de estudo podem adquirir a necessidade de abordagens múltiplas (multirreferenciais), dada a complexidade do fenômeno pesquisado, condição do presente trabalho. Dado o caráter complexo das teorias científicas, Bachelard propôs a utilização de métodos múltiplos na busca recorrente do conhecimento científico.
Quando aplicada à análise de fenômenos, a multirreferencialidade possibilita uma leitura pluralista dos seus objetos, tendo como base diferentes quadros de referência (ARDOINO, 1998).
Segundo Ardoino (1998, p. 37),
a abordagem multirreferencial vai [...] se preocupar em tornar mais legíveis, a partir de uma certa qualidade de leituras (plurais), tais fenômenos complexos [...]. Essas óticas [...] tentarão olhar esse objeto sob ângulos não somente diferentes [...] mas sobretudo outros [...]. Dito de outra forma: assumindo, a cada vez, rupturas epistemológicas.
No presente trabalho, adotaram-se os quadros de referência analítico e comparativo, os quais apresentam características de complementaridade.
3.1.1 Método Analítico
A análise tem sua origem no grego, e, em geral, traduz-se pela descrição ou interpretação de uma situação ou de um objeto qualquer nos termos dos elementos mais simples pertencentes à situação ou objeto em questão (APPOLINÁRIO, 2004, p. 51).
Inicialmente empregado por Aristóteles, esse método somente viria a se destacar a partir de René Descartes, com a formulação das quatro regras para traçar
normas gerais e indispensáveis a qualquer trabalho científico, na obra “O discurso do método” (APPOLINÁRIO, 2004, p. 52).
Além de Descartes, também Newton foi influenciado pelo método analítico. Em sua obra Óptica, ele afirma que a ciência natural deve seguir o método da geometria, por ser o mais apropriado para investigar a natureza das coisas. Por meio da análise, pode-se proceder dos compostos aos ingredientes, dos movimentos às forças que os produzem e, em geral, dos efeitos até as suas causas (FRANCIOTTI, 1989).
O método analítico procura desvendar a lógica intrínseca à prática consagrada, a fim de reduzir aquela prática a um conjunto defensável de regras de procedimento. A análise consiste na decomposição de um todo em suas partes, sendo a síntese a reconstituição do todo decomposto pela análise. A análise constitui o processo que parte do mais complexo para o menos complexo, enquanto a síntese vai do mais simples para o menos simples (CERVO; BERVIAN, 1996, p. 42).
Assume a forma de perguntar o que o pesquisador faz quando realiza seus estudos, e em seguida procura identificar a conexão lógica possível entre as várias etapas do processo de pesquisa. Ao indagar o porquê de o objeto ou fenômeno ser realizado obedecendo a determinados procedimentos, a metodologia analítica desenvolve uma descrição lógica defensável do que antes talvez fosse apenas uma coletânea prática convencional (BECKER, 1999, p. 24-25).
3.1.2 Método Comparativo
O método comparativo, como o próprio nome sugere, realiza comparações, auxiliando o pesquisador a verificar regularidades, perceber deslocamentos e transformações, construir modelos e tipologias, identificar continuidades e descontinuidades, semelhanças e diferenças, e explicitar as determinações mais gerais que regem os fenômenos em análise. É utilizado tanto para comparações de grupos no presente, como de grupos no passado, ou entre grupos no presente e no passado.
Ocupando-se da explicação dos fenômenos, o método comparativo possibilita analisar o dado concreto, deduzindo do mesmo os elementos constantes, abstratos e gerais. Pode ser usado em todas as fases e níveis de investigação: num estudo descritivo, pode averiguar a analogia entre (ou analisar) os elementos de uma estrutura; nas classificações, possibilita a construção de tipologias; e em termos de explicação pode apontar vínculos causais entre os fatores presentes e os ausentes (LAKATOS; MARCONI, 1991).
Foram analisadas as contribuições de Comte, Durkheim e Weber, pois nas obras desses autores foi possível encontrar um tratamento mais aprofundado das questões epistemológicas e metodológicas associadas ao uso da comparação na construção do conhecimento.
Os procedimentos comparativos de Comte estão inspirados na Biologia. Quando se observa um fenômeno, deve-se entendê-lo como um organismo social complexo. As partes constituintes devem ser analisadas de uma forma semelhante aos membros do corpo humano, ou seja, a partir das funções desempenhadas por cada parte. Na concepção de Comte, as leis gerais e invariáveis podiam ser descobertas nas ciências humanas, por meio da comparação, no tempo e no espaço, entre diferentes épocas históricas ou diferentes agrupamentos humanos (COMTE, 1988).
As Ciências Humanas deveriam valer-se do método comparativo utilizado na Biologia, desde que de modo ordenado e obedecendo a um encadeamento racional. Segundo Comte, o uso da comparação na Biologia envolvia: (1) a comparação entre as diversas partes de cada organismo determinado; (2) a comparação entre os sexos; (3) a comparação entre as diversas fases do desenvolvimento de um organismo; (4) a comparação entre as diferentes raças ou variedades de cada espécie; (5) enfim, o mais alto nível, constituído pela comparação entre todos os organismos da hierarquia biológica (MORAES FILHO, 1983).
Nas Ciências Humanas, a comparação pode ocorrer em diferentes níveis. O primeiro procedimento envolveria o contraste entre as partes constitutivas de um fenômeno e a identificação de diferenças simples fenômeno–fenômeno. O segundo passo refere-se a comparações entre fenômenos em diferentes épocas. No terceiro, segundo Comte, as Ciências Humanas deveriam construir classificações envolvendo diferentes raças, gêneros, etnias e famílias, para melhor comparar (MORAES FILHO, 1983).
Durkheim (1985, p. 112) apresentava uma visão diferenciada de Comte. Segundo aquele autor,
[...] se desejarmos empregar o método comparativo de maneira científica, isto é, conformando-nos com o princípio da causalidade tal que se desprende da própria ciência, deveremos tomar por base das comparações que instituirmos a seguinte proposição: a um mesmo efeito corresponde sempre uma mesma causa. Não temos senão um meio de demonstrar que um fenômeno é causa de outro, e, é comparar os casos em que estão simultaneamente presentes ou ausentes, procurando ver se as variações que apresentam nestas diferentes combinações de circunstâncias testemunham que um depende de outro.
análises de Comte e Durkheim encontram raízes em formas distintas de compreender o modo como se dá a validação científica do conhecimento nas chamadas “ciências humanas”, remetendo, portanto, a diferentes visões.
Não ignorando as diferentes leituras acerca das bases epistemológicas da sociologia weberiana, vale a pena resgatar aqui a interpretação proposta por Fernandes (1980, p. 94-95):
Ao contrário do que acontece com Durkheim, o "método comparativo" desempenha, na técnica indutiva de Weber, um papel secundário, ainda que construtivo. Ele não é importante como instrumento de abstração, mas como elemento racional de controle. Bem analisadas e conhecidas as modalidades de manifestação de um fenômeno em condições sócio-culturais diversas e distintas, confrontam-se os resultados interpretativos e estabelecem-se dentro de que limites certos efeitos podem ou não ser atribuídos a determinados fatores causais, chegando, assim, à seleção das condições suficientes de tal fenômeno.
No sentido proposto por Weber, a comparação baseia-se em uma estratégia centrada na comparação entre casos, tomados em sua diversidade e singularidade. O recurso à comparação está presente em diversos estudos empíricos desenvolvidos por Weber ao longo de toda a sua obra (WEBER, 1992).
O método comparativo tem sido empregado das mais diversas maneiras no campo das ciências sociais. Os distintos usos da comparação refletem diferentes posições acerca das relações entre as teorias gerais e as explicações locais, os quadros conceituais e as técnicas de pesquisa, a formulação de hipóteses e sua validação (FERNANDES, 1980).
Bloch (apud CARDOSO; BRIGNOLI, 1975) identifica dois momentos inerentes ao método comparativo: um momento analógico, relacionado à identificação das similitudes entre os fenômenos, e um momento contrastivo, no qual são trabalhadas as diferenças entre os casos estudados. Segundo esse autor, a analogia teria precedência sobre a análise em termos contrastivos, não apenas enquanto passo metodológico, mas enquanto forma de compreensão do real. É identificando possíveis elementos históricos ou estruturais semelhantes, tomados enquanto lugar relevante das comparações pertinentes, das identidades e diferenças que possibilitarão traçar o quadro classificatório, que podemos dar verdadeiro peso explicativo às diferenças. Outros autores, no entanto, dão importância a ambos os momentos da análise.
O método comparativo implica uma série de passos que se articulam de forma diferenciada segundo distintas orientações teóricas e metodológicas. Procurou-se sistematizar aqui algumas das dimensões implícitas nesse processo, sem se ter a pretensão de estabelecer fronteiras rígidas entre as diferentes operações teórico-
metodológicas inerentes à atividade de investigação, e considerando, portanto, a existência de certo grau de simultaneidade entre esses distintos procedimentos: (1) a seleção de duas ou mais séries de fenômenos que sejam efetivamente comparáveis: a seleção dos fenômenos a ser estudados implica não apenas a definição de recortes claramente delineados no tempo e no espaço, e, portanto, capazes de tornar claramente reconhecíveis os universos empíricos pesquisados, mas, mais do que isso, na construção de instâncias empíricas capazes de “reproduzir os aspectos essenciais dos fatos ou fenômenos investigados, selecionadas e coligidas em totalidades coerentes”; (2) a definição dos elementos a ser comparados: esse ponto parece central, à medida que tem como desdobramento diferentes alternativas possíveis de trabalho. Parte-se de modelos explicativos previamente construídos, nos quais as variáveis a ser comparadas já se encontram claramente especificadas; (3) a generalização: a princípio, o que se espera é que o método comparativo, se bem aplicado, possa servir como uma bússola, para que o pesquisador consiga realizar sua viagem explorando os caminhos que se abrem no decorrer do processo de investigação, sem se afastar demasiado, no entanto, de um trabalho sistemático sobre as interrogações que o motivaram no início de seu trabalho (CARDOSO; BRIGNOLI, 1975).