4. Empiri
4.2. Informant 1: Inger Teigstad, Innovasjon Norge
Células de inseto utilizam aminoácidos para síntese de biomassa e geração de energia. Aminoácidos como glutamina, glutamato, aspartato, serina, arginina e metionina são utilizados para produção de energia (IKONOMOU et al., 2003). A maioria dos aminoácidos (histidina, lisina, treonina, glicina, valina, leucina, fenilalanina, tirosina, triptofano e isoleucina) consumidos durante a fase de crescimento celular é incorporada em proteínas celulares. A oxidação destes aminoácidos para produção de energia é insignificante. Glutamina e ácido aspártico (indiretamente também glutamato, asparagina e serina) podem ser utilizados para síntese de ácidos nucléicos. Serina pode ser utilizada para síntese de glicina, e metionina para síntese de cisteína (DREWS et al., 1995).
Dentre os aminoácidos mais utilizados pelas células de inseto, encontra-se na literatura maior enfoque para a glutamina. Benslimane et al. (2005), realizaram estudos através da
marcação radioativa de carbono e apontaram a utilização da glutamina como fonte de carbono para o ciclo dos ácidos tricarboxílicos.
A glutamina consumida pode ser convertida em glutamato e amônio, mas em alguns casos a glutamina pode ser sintetizada pelas próprias células em quantidades capazes de suprir o crescimento celular (ÖHMAN et al., 1996).
A limitação de glutamina no meio de cultura força o consumo de aminoácidos como aspartato (fortemente consumido em culturas de Sf9 em batelada) seguido do glutamato e da asparagina. Na ausência de glutamina, os aminoácidos metionina e tirosina também podem ser consumidos pelas células Sf9 (MENDONÇA et al., 1999). Células de insetos podem necessitar de aspartato e glutamato, que são precursores de oxaloacetato, que normalmente promove um aumento do fluxo de metabólitos para o ciclo TCA (ciclo dos ácidos tricarboxílicos).
A suplementação de metionina e tirosina ao meio de cultura de células Sf9 retarda a morte celular (MENDONÇA et al., 1999). Adição de metionina e cisteína é crítica para o crescimento de duas linhagens de células de inseto no meio livre de soro IBL10 (VAUGHN e FAN, 1997) e cisteína é o único aminoácido completamente consumido em culturas de altas densidades de células Sf9. No entanto, Doverskog, Han e Häggström (1998) demonstraram que células Sf9 podem crescer em meio livre de cisteína, desde que a cultura seja iniciada com células com uma idade de inóculo de 47-53 horas. Neste caso, mais metionina foi consumida pelas células, sendo utilizada na biossíntese de cisteína. O mesmo grupo de pesquisa demonstrou que o crescimento de células Sf9 e Sf21 é possível em meio livre de glutamato, glutamina e aspartato na presença de íons amônio (ÖHMAN et al., 1996). No entanto, Mendonça et al. (1999) notaram que a privação de glutamina pode afetar o crescimento celular e sua síntese pelas células de inseto não é tão eficiente quanto seu fornecimento no meio de cultura.
Alguns estudos sugerem que culturas de células de inseto com excesso de glicose e glutamina produzem alanina como subproduto metabólico, mas variações são decorrentes de cada tipo de célula. Por exemplo, para células Tn-5 ocorre acúmulo de lactato, alanina e íons amônio em excesso de glicose e glutamina, mas células Sf9 se diferenciam neste sentido, pois mesmo em excesso destes substratos não apresentam acúmulo de lactato e amônio. Entretanto íons amônio podem se acumular em meio com baixa concentração de glicose. Já a alanina é um metabólito comum em presença ou escassez de glicose (RHIEL et al., 1997).
Com bastante especificidade, Drews et al. (2000), propuseram uma rota metabólica para glutamina e glicose através de marcação de carbono e nitrogênio. Esta proposta é resumida na Figura 3.2.
Figura 3.2. Metabolismo de aminoácidos proposto para células Sf9. Abreviações : GP6-glicose-6-fosfato ; Fl,6P- frutose-bifosfato ; GAP- gliceraldeido fosfato ; HAP –dihidroxicetona fosfato ; PYR- piruvato ; 2-OG-2- oxiglutarato ; Enzimas : 1-DHAP desidrogenase ; 2-lactato desidrogenase ; 3.a-piruvato decarboxilase ; 3.b- etanol desidrogenase ; 4-glutamato-piruvato transaminase ; 5-glutamato sintase ; 6-glutamina sintetase ; 7- glutaminase ; 8-glutamina desidrogenase ; 9- fluxo do TCA de volta pra glicólise (Adaptado de DREWS et al.,2000).
Pela rota metabólica proposta através da marcação de nitrogênio, os pesquisadores identificaram que os doadores de nitrogênio para a formação de alanina são o grupo amina da glutamina e o grupo amida do glutamato. As investigações apontaram também para a ação de amidotransferases das células Sf9 e não das vias de glutaminase e glutamato desidrogenase, além da observação de o metabolismo de glutamina não ser sensível à concentração de glutamato extracelular. Por outro lado, para a formação de íons amônio, estariam envolvidas glutaminase e glutamato desidrogenase.
Com relação ao metabolismo de glicose observou-se que este composto ao participar do TCA é convertido em moléculas de 3 carbonos e alanina. Além disso, mesmo em meio que possui glutamina, este aminoácido é sintetizado à partir de glicose.
Podem ser encontrados outros trabalhos na literatura que fazem a análise quantitativa da glutamina no sentido de identificar a concentração mínima necessária nas formulações de meio de cultura. Ikonomou et al. (2001) citam a exaustão de glutamina em cultivo em biorreator, em meio YPR, partindo de uma concentração inicial de 2,0 g.L-1, mas não consideram este substrato limitante nestas concentrações.
Além da glutamina, trabalhos apontam para o consumo de cisteína por células Sf9. Radford, Reid e Greenfield (1997) realizaram cultivos de células Sf9 em meio Sf-900 II, em biorreator e observaram que o único aminoácido completamente consumido foi a cisteína, podendo-se atribuir a isto o fim do crescimento exponencial. Coincidente à sua exaustão foi observado o fim do consumo de outros aminoácidos, ou seja, tudo indica que a exaustão de cisteína compromete o metabolismo celular. Além disso, observou-se o comportamento deste aminoácido como limitante na produção de proteína recombinante, uma vez que sua exaustão aconteceu 60 horas pós-infecção e foi relacionado à diminuição do rendimento de proteína recombinante.