extra-lingüística, tem a função de representá-la, possuindo, dessa forma, vinculação direta com a significação lingüística.
Um dos autores que mais contribuíram para sedimentar o avanço do entendimento do referente no que tange à epistemologia foi o conhecido semioticista Greimas. Embora sua concepção de semiótica diferisse em alguns elementos da de Peirce20, sua idéia de destacar o papel da percepção como parte essencial do processo de significação reforçou os elementos do signo peirceano, ligando-o à realidade, por meio do referente (ou objeto) e da percepção. Dessa forma, para Greimas, a significação pode ser entendida como uma forma de percepção codificada, intermediando os universos dos objetos e das significações (BLIKSTEIN, 1990, p. 46).
Posto isto, a realidade, mediada pela percepção/cognição, chega ao triângulo de Ogden e Richards pelo referente, tornando-o obrigatório e ligado de modo claro os demais elementos (símbolo e referência). O triângulo, portanto, é expandido:
Figura 15: Percepção e Referente (adaptado de BLIKSTEIN, 1990, p. 46)
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Greimas não aceitou a visão da semiótica como a “ciência dos signos”, por entender que esta deveria ser concebida apenas como um “teoria da significação”.
Referência (Interpretante) Símbolo (Representamen) Referente (Objeto) Realidade Percepção (Greimas)
Blikstein, ao analisar os conceitos da figura acima (e outros similares21), nos leva ao inevitável reconhecimento de que: (a) a semiose irrompe durante a transformação da realidade em referente, justamente pela mediação do processo perceptivo-cognitivo; (b) o referente possui uma função semiológica no processo da significação, uma vez que ele é “fabricado” a partir da realidade (1990, p.49).
É de vital importância a análise da concepção peirceana acerca da percepção. Peirce desenvolveu uma teoria da percepção, inserida na sua filosofia científica, que traz como novidade seu caráter triádico. Segundo o autor, em todo processo perceptivo há o envolvimento de três elementos: o percepto, o percipuum e o julgamento de percepção.
O percepto diz respeito àquilo que normalmente é compreendido como estímulo; ou seja, aquilo que está à nossa volta, que percebemos e apreendemos no processo perceptivo. Peirce o define como elemento de compulsão e insistência na percepção. Segundo Santaella e Nöth, “esse elemento corresponde à teimosia com que o percepto, ou aquilo que está fora de nós, apresentando-se à porta dos sentidos, insiste na sua singularidade, compelindo-nos a atentar para ele” (2005, p. 86). O percepto, portanto, não é um elemento a partir do qual o indivíduo infere a natureza de alguma coisa, mas, sim, algo que surge, e que não é criado pela mente.
Já o percipuum, segundo elemento da teoria da percepção peirceana, pode ser entendido como o modo pelo qual o percepto é apresentado ao indivíduo que o percebe, ao ser filtrado pelos seus sentidos. Trata-se da sutil mudança da natureza do
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Blikstein acrescenta alguns conceitos bem similares à percepção de Greimas: a interpretação, de Coseriu, e o ponto de vista, de Saussure. Ambos possuem a mesma função de mediar a relação entre a
percepto no momento em que ele chega à mente da pessoa, com base nos limites e determinações dos seus sensores. Peirce mencionou três importantes subdivisões do percipuum, de acordo com o modo segundo o qual ele atinge os sentidos do indivíduo (apud SANTAELLA e NÖTH, 2005, p. 86):
(a) Como qualidade de sentir. Quando a consciência do indivíduo está em um estado de maior disponibilidade, pouco reativa, desarmada, o percipuum traduz o percepto como mera qualidade de sentimento, vago e indefinível;
(b) Na forma de um choque. Trata-se de um caso em que o percipuum tem um caráter mais fortemente reativo; diz respeito à situação em que o percepto atinge os sentidos do indivíduo de modo surpreendente, atraindo a atenção com certo grau de brutalidade;
(c) Por meio do automatismo dos hábitos. Trata-se do mecanismo atuante nas situações mais usuais; o percipuum é regulado com base nos esquemas gerais da ação perceptiva, levando a uma interpretação correspondente ao julgamento de percepção – o terceiro elemento do processo perceptivo.
É importante ressaltar que os três níveis do percipuum são interligados, mas com uma lógica de diferenciação que é, em maior ou menor grau, infinitesimalmente temporal e cuja duração irá depender da intensidade dos níveis de sentimento e surpresa do percipuum, pois ambos produzem necessariamente uma certa hesitação perceptiva (SANTAELLA e NÖTH, 2005, p. 87).
O terceiro elemento do processo perceptivo, o julgamento de percepção, é formado a partir do terceiro nível do percipuum – aquele que atua sob o domínio do automatismo das estruturas mentais do indivíduo. O julgamento de percepção é, dessa forma, uma
inferência lógica e de âmbito geral, ligada a terceiridade, na qual o percipuum é ajustado segundo características particulares ligadas aos hábitos mentais do intérprete. Santaella e Nöth resumem a teoria da percepção de Peirce:
“Estamos continuamente recebendo uma chuva de perceptos que flui dentro de nós como percipua, os quais, tão logo alfuem, são imediatamente colhidos e absorvidos nas malhas dos esquemas interpretativos com que estamos aparelhados, convertendo-se assim em julgamentos de percepção. É só através desse julgamento que identificamos e reconhecemos o estímulo percebido.
Em síntese, o percepto bate à nossa porta, insiste, mas é mudo. O percipuum é o percepto já traduzido pelos sentidos. Essa tradução pelos sentidos tem três níveis, o do sentimento, o do choque e o do automatismo interpretativo, este correspondendo exatamente ao juízo perceptivo, o qual, por sua natureza interpretativa, é aquele que nos diz o que está sendo percebido” (2005, p. 87).
O percepto, portanto, é algo que está localizado fora do signo e que, por outro lado, é representado dentro do signo. O percipuum, por sua vez, é o meio pelo qual o mecanismo cognitivo do indivíduo liga o elemento externo ao juízo perceptivo. Uma vez que o percipuum faz parte do signo, essa ligação refaz internamente (no nível sígnico) a realidade presente no mundo exterior, recriando-a. O conceito de percipuum, portanto, possibilita a fabricação do referente. Posto isto, podemos concluir que a aplicação da teoria da percepção de Peirce pouco difere daquela realizada anteriormente com o conceito de percepção trazido por Greimas. Uma reelaboração do modelo de fabricação do referente poderia ser o da figura 16.
Figura 16: Percepção e referente considerando a teoria peirceana da percepção