4. Results and discussions
4.5 Factors influencing the spatial distribution and trends of AOCs
4.5.3 The influence of climatic factors on the environmental fate and behavior of AOCs
6.1 Consagração do martírio e sofrimento
O texto da resposta divina aos destinatários humanos, ávidos por saberem o “até quando”, utiliza outra vez a forma de aoristo passivo, esta vez na expressão “” (até que fossem completados). Esta frase é comumente associada com os textos apocalípticos, em que se estabelece um número de justos ou de mártires que deve ser alcançado antes de chegar o escatón.127 O verbo “” pode significar completar, encher algo ou alguém, completar um período de tempo, chegar a um fim definido como cumprimento das predições ou promessas divinas,128 das orações, leis ou ministérios,129 ou finalizar e completar uma atividade em que a pessoa estava envolvida desde o começo.130 Notavelmente, Bauer encontra problemas ao querer classificar e estabelecer um sentido exato da expressão de 6,11, e deixa separada somente esta ocorrência.131
Seguindo a ótica de pensamento e interpretação em que se estabelece um número de justos ou de mártires, Heil encontra uma estrita semelhança entre
” de 6,11 e irmãos
“” (co-escravos, servos) de 1,1 (e em outras partes do Apocalipse) e
127
Assim entre outros: AUNE, Revelation 6-16, p.412; BEALE, Revelation, p.394; COLLINS, A., Perspective, p.207-217; PRIGENT, p.137; HEIL, p.221. Ulfgard, a partir do duplo uso da conjunção “”, estabelece que em 6,11 são mencionados dois grupos: os “” (co-escravos) e os “” (irmãos), dos quais somente os segundo estariam sido assassinados “”, ULFGARD, Feast, p.56. Mas, aqui, Mounce vê as mesmas pessoas sob um aspecto diferente.
128 Mt 1,22; 2,15; Mc 14,49; Lc 1,20; 4,21; 21,22; Jo 12,38; 13,18; 15,25. 129 Rm 8,4; 13,8; Gl 5,14; Col 4,17. 130 Lc 7,1; 21,24; At 12,25; 13,25; 14,26; 19,21. 131
Cf. verbete , BAUER, Walter. Griechisch-deutsches Wörterbuch zu den Schriften des Neuen Testaments und der frühchristlichen Literatur. Berlim e.o.: de Gruyter, 6a edição 1988, col.1348-1351; cf. também DANKER, p.827-829; Aune observa também que esta expressão é problemática por apresentar variantes textuais: 1) “” (fossem completos [aor. pass. subj.]) A C fam 16112344 itgig61 vg syrhph 2) “” (completassem [aor. at. subj.])-2-025 046 fam 10061006
fam 16111854 Oecumenius2053text 2351 Andreas Bizantine 3) “” (completarão [fut. at. indic.]) fam 161116112329 Oecumenius2053comm 4) “” (fut. med. ind.). A leitura 1) que representa o uso típico uso intransitivo do verbo foi trocada por leitura 2) e 3), ambas transitivas. Estas leituras devem ser entendidas como: até eles tivessem completado o número, AUNE, Revelation 6-16, nota 6,11.h-h, p.385
“” (eu, João, irmão vosso) de 1,9.132 A partir desta observação, Pattemore afirma que João pretende identificar toda audiência de seus leitores / ouvintes com esses termos. Em conseqüência, o fato de que os destinatários se identificam como “” e “” dos mártires significaria também que eles estão preparados para serem assassinados, como estes, por amor à palavra de Deus.133
Bauckham, depois de ter analisado as semelhanças e diferenças entre quatro tradições apocalípticas,134 conclui que João de Patmos utiliza uma tradição anterior, comum a estes quatro escritos, para tratar o tema maior de sua profecia: que o intervalo antes da vinda do Reino de Deus é o período em que os fiéis de Deus devem levar o testemunho até o ponto de sofrimento e morte.135 Segundo ele, isso não quer dizer que existe uma quota de mártires para ser completada que fosse determinada arbitrariamente, mas, que as testemunhas ou mártires poderiam desenvolver um papel chave no objetivo de Deus de estabelecer seu reinado universal.136 Aune, para apoiar em 6,11 o uso da tradição judaica do número dos justos predeterminado por Deus, encontra a mesma noção na antiga literatura cristã e, por isso, conclui que este conceito foi bem conhecido e utilizado.137 Mas, o interessante é que o exegeta menciona duas ocorrências na literatura patrística138 onde o conceito do numerus praedestinatorum influiu na redação de atos de mártires.139 A partir disso podemos supor que este conceito pelo menos emprestou aos redatores dos escritos martirológicos idéias e motivações para o crescimento de uma tensão e esperança escatológicas. Infelizmente, o comentarista se limita somente a citar os textos, mas há outros que levantam a hipótese de que, a partir dessa época, o conceito do numerus 132 HEIL, p.229 133 PATTEMORE, p.89. 134
BAUCKHAM, p. 43: Ap 6,9-11; 1En 47,1-4; 4Esd 4,35-37, cf. nota 88; e 2Br 23,4-5a “Quando Adão pecou e a morte foi decretada contra todos os que iam nascer, a multidão daqueles que nasceriam foi contada. E para este número foi preparado o lugar onde os seres vivos podem viver e onde os mortos podem ser preservados. Nenhuma criatura viverá novamente até o número que foi determinado esteja completado.” (tradução nossa).
135
BAUCKHAM, p.55-56. 136
Cf. também COLLINS, A., Perspective, p.209. 137
Cf. AUNE, Revelation 6-16, p.412, que cita entre outros exemplos:“... o endurecimento atingiu uma parte de Israel até que chegue a plenitude dos gentíos.” (Rm 11,25); o autor de 1 Clemente usa a frase “o número dos eleitos” “” (1 Clemente 2,4; 59,2); assim Justino disse que Cristo não voltará para o juízo “até o número esteja completo daqueles que ele previu”
“” (1 Apol 45,1).
138
AUNE, Revelation 6-16, p.412: Policarpo dá graças que ele é capaz “ter parte entre o número “” dos mártires” (Mart Pol 14); uma expressão semelhante em Ep Ludg 13.
139
praedestinatorum assumiu uma interpretação martiriológica e indiretamente influiu na recepção do Apocalipse de João.140
6.2 Sofrimento como causa de um Mal imperante
Visto que a voz dos intérpretes que leva os resultados da análise histórico-crítica da perícope 6,9-11 para um sentido martirológico é tão unânime e quase uniforme, salvo algumas diferenças de matiz, decidimos incluir na nossa análise de texto uma outra voz que muda totalmente o paradigma e o critério de pensamento e que, por isso, é útil para perfilar um novo horizonte na nossa discussão.
Para Villiers, a auto-descrição de João no início do livro (1,9) introduz o motivo de perseguição que depois perpassa o livro todo. Um dos momentos em que este motivo é apresentado como um tema crucial é 6,9-11, o grito que depois encontra sua resposta na ressurreição de duas testemunhas (11,11). Segundo o autor, a análise do livro inteiro confirma que a perseguição não deve ser considerada como um assunto menor do livro, mas, como um dos motivos condutores do todo o texto. Ele analisa as teorias dedicadas a explicar o conceito de perseguição,141 e afirma que o livro enfoca a natureza da perseguição de maneira muito mais complexa do que considerando meramente seus aspectos físicos ou suas causas externas e internas. O caráter específico da linguagem de João, ao descrever a situação real das igrejas, destacado por outros pesquisadores,142 leva Villieres a afirmar que João elabora criativamente sua própria situação, produzindo várias camadas de significados. Seu texto não deve ser reduzido a uma “simples mensagem” parenética acerca do comportamento dentro da sociedade. O escrito interpreta forças que estão por trás da perseguição, discute diferentes formas que esta assume ao longo da história, explica detalhadamente suas conseqüências e procura formas de dar resposta a esta perseguição.
140
Cf. VASSILIADIS, Martyria, p.129-134; Cf. também acima, nota 25, p.16. 141
Aqui mencionamos apenas a evolução do pensamento com respeito ao lugar do sofrimento no Apocalipse. As próprias teorias serão discutidas mais tarde.
142
Embora se possa esboçar um perfil concreto das igrejas, elas são marcadas, “através do uso da linguagem metafórica, por uma grande abertura que permite sua atualização. As imagens procuram libertar uma criatividade produtiva nos leitores e leitoras de todos os tempos que quer levar para um confronto pessoal com a crítica profética de João e, finalmente, para um compromisso decisivo com Cristo e uma prática de vida orientada nele.” Cf. KOWALSKI, Beate. Das Verhältnis von Theologie und Zeitgeschichte in den Sendschreiben der Johannes-Offenbarung. In: BACKHAUS, Klaus. Theologie als Vision: Studien zur Johannes-Offenbarung. Stuttgart: Katholisches Bibelwerk, 2001, p.54-76.
Na opinião de Villiers, a recepção histórica do Apocalipse de João foi profundamente influenciada pelas contínuas tentativas de colocar o livro no contexto do Império Romano e de sua oposição aos cristãos, o que desconsiderou o papel diretivo do texto no processo da interpretação. O sentido da perseguição no escrito está intimamente vinculado com os acontecimentos de Cristo e com os escritos judaicos. Com certeza, João lê a história do crente como uma história de perseguição, e seu texto leva os leitores / ouvintes para uma viagem dolorosa do crente através dos séculos. Porém, ao descrever essa viagem, João transcende seu próprio tempo e sua própria situação histórica. Villiers conclui que o caráter geral do livro reflete a atividade de um autor que pretende falar de algo inexpressível, intangível e transcendente que se estende ao longo dos séculos e afeta muitas gerações de crentes. Ao querer fazer isso, ele incorpora tradições que definem o escrito muito mais do que uma tentativa de consolar alguns crentes transtornados e nervosos. O texto revela que o autor fala expressamente do futuro da igreja, porém, em termos do presente e do passado. Enquanto existe o mal, causa da perseguição e do sofrimento, a igreja deve estar consciente daquilo que o futuro contém e saber preparar-se para ele.143