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2. Background

2.1 Airborne Organic Contaminants – chemical structure, usage and regulation

2.1.4 Dechlorane plus (DPs)

Uma vez que a comunidade dos hebreus, à qual é endereçado o livro do Novo Testamento, tivesse aceitado a condição de viver sob um julgo imposto pela religião anterior – o Judaísmo – ela estaria aceitando também o fato de não se tornar uma religião, mas sim uma seita dentro do próprio Judaísmo.

Por outro lado, se o Cristianismo se demonstrava como uma nova religião, deveria propositadamente quebrar com o julgo da religião anterior. Entretanto, não seria tão simples assim, pois, toda a tradição em que se embasava a religião judaica era também o suporte onde se alicerçaria a religião cristã.

Como quebrar com a tradição, e – por paradoxo – precisar dela para existir? A existência e superioridade, almejadas pelo culto cristão frente ao Judaísmo teriam sido impossíveis, não fossem os métodos de re-leituras simbólicas (alegóricas e tipológicas) adotados pelos cristãos primitivos.

Ao Templo, lugar sagrado do sacrifício, é dado uma nova proposta, o próprio corpo se torna o local de sacrifício, a morada do Espírito Santo e o próprio sacrifício: “Por meio de Jesus, portanto, ofereçamos continuamente a Deus um sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome” (Hb 13,15). A Moisés é dada uma outra leitura, ao Sumo-Sacerdote, ao sacrifício, a Melquisedeque, enfim, todas as tradições Judaicas são respeitadas, com um

porém ; são figuras agora re-lidas pela comunidade cristã. Geralmente

espiritualizadas, e colocadas num patamar de exemplos, ou seja, segundo o livro de Hebreus, tudo que ocorrera até então, tinha sido para apontar para a figura de Cristo, da outra Jerusalém, do outro Templo, de um outro descanso..., tudo é transcendido.

O Judaísmo seria a religião imanente, enquanto o Cristianismo, apesar de considerar a tradição judaica, espiritualiza cada leitura, cada figura, cada objeto, cada sacrifício, cada símbolo; tudo se torna uma re-leitura espiritual.

A antropóloga Hélène Clastres aponta um acontecimento semelhante a este, numa religião considerada mais primitiva, por desprover do código escrito (o

Tupi-Guaraní). Para eles, a busca da Terra-Sem-Males não era uma busca por um local transcendente, eles acreditavam que um dia haveriam de encontrar uma terra onde tudo seria melhor (aqui)203, e o mal não poderia entrar. Era, portanto, uma busca imanente, onde a terra seria um dia descoberta de forma concreta, como mostra Clastres nas linhas que seguem:

The prophets also called for a total rejection of the conforts of sedentary agricultural life in favor of an austere, painful and dangerous nomandism. The human/god distinction could not be transcended simultaneously because the mythic Land-Without-Evil204.

Clastres mostra que, toda essa caminhada nômade, feita pelos Guaranis, se deu antes da chegada do homem branco, o qual foi apertando a cultura indígena em espaços cada vez menores:

Already, by the virtue of differentiations existing prior to the arrival of Europeans, and because of the isolation of the varied sobgroups, the Guaraní culture had relatively uniformity in language, mythical tradition, and others aspects of culture. The differentiation became more pronounced during the colonial period, when some of the

203 CLASTRES, Hélène. The Land-Without-Evil. Illinois, University of Illinois Publication, 1995, p. 45. “It is

the concrete search, here and now, for the ‘Land-without-Evil’ that is so characterized. “É uma busca concreta, aqui e agora, pela ‘Terra-Sem-Males’, a qual era toda detalhada.( Trad.livre do autor).

204 CLASTRES, Hélène. Op. Cit. p. xi.. Também os profetas chamavam para uma rejeição total dos confortos

da vida agricultural e sedentária em favor de um nomandismo austero, dolorido e perigoso. A distinção da deidade humana não poderia ser transcendida simultaneamente, devido ao mito da Terra-Sem-Males.

populations were submitted for more than a century, to Jesuit tutelage and then returned after the expulsion of the missionaries to their primitive mode of existence205.

Após o retorno que foi proporcionado aos Guaranis, eles jamais teriam a possibilidade de voltar a ser nômades, e com isso, Hélène Clastres observa que eles acham uma saída para continuar professando a mesma experiência religiosa, o mesmo discurso. A Terra-Sem-Males se tornaria transcendente; agora o lugar proclamado pela religião Guarani estaria depois desta vida, a terra não seria mais concreta e material, mas sim espiritual. Clastres cria uma discussão de total relevância para esta pesquisa, em cima desse acontecimento.

A partir desta introdução e apresentação do problema, Clastres vai investigar o que ocorre quando o discurso religioso se abre para as mudanças sociais, mostrando que os Guaranis existentes (até os dias de hoje), são os que se adaptaram às mudanças sociais impostas com a chegada do homem branco. Por outro lado, os subgrupos Guaranis que não se abriram, desapareceram completamente:

(...) by syncretism, of the present religion (by saying that their adjustment to change is a characteristic of the Guarani culture); or it may be to account for the discrepancy he stablishes between the Mbyá of Paraguay who, in his own

205 CLASTRES, H. Op. Cit. p. 5. Assim, por probidade de diferenças existentes anterior à chegada dos

europeus, e devido o isolamento de subgrupos variados, a cultura Guarani tinha uma certa uniformidade de linguagem, de tradição mítica e outros aspectos da cultura. (Trad. livre do autor).

words “seem to have preserved the original purity of their traditions” and the other Guaraní group for whom “the most superficial examination shows that they have assimilated a number of Christians elements206”.

A autora prossegue mais adiante no debate estabelecido em sua obra com outros pesquisadores anteriores a ela, os quais defendiam que a questão de aceitar elementos de fora da religião teria a ver com o “estilo” da própria religião (com sincretismo ou com pureza original). Clastres descorda de Schaden e propõe algo que parece mais coerente:

A priori, neither explanation seems convincing, because of theoretical presuppositions they bring into play: Indian Religious thought, because of its lack of coherence, allows the penetration of any foreign elements; (...) religious discourse (discourse about humans and the world and also discourse of a society about itself) could remain immutable while society changes207.

206CLASTRES, Hélène. Op. Cit. p. 5. (...)por sincretismo, da presente religião (por dizer que seu ajustamento

à mudança é uma característica da Cultura Guarani); ou isto pode ser creditado à discrepância que ele (um outro pesquisador [Schaden] que a autora está citando) que ele estabelece entre os Mbyá do Paraguai, os quais “na mais superficial averiguação, mostra que eles assimilaram um número de elementos cristãos”. Trad. livre do autor.

207 CLASTRES, Hélène. Op. Cit. p.5. Em princípio nenhuma das explicações parecem ser convincentes,

devido às pressuposições teóricas que eles trazem à vista. A primeira pressupõe que o pensamento religioso indígena, devido à sua perda de coerência, permite a penetração de qualquer elemento de fora, o segundo pressupões que o discurso religioso (discurso acerca dos humanos e do mundo e ainda o discurso da sociedade acerca de si mesma) poderia se manter imutável enquanto a sociedade muda.

Esta autora vai nos contemplar com essa pesquisa que se tornou por demais respeitada em diversas universidades dos Estados Unidos e da Europa, e a despeito de sua abrangência, concluímos aqui as citações de sua obra ainda em seus pressupostos e propostas iniciais, aonde a autora define que, ainda que os Guaranis falem até hoje de uma Terra-Sem-Males, isto é um tema antigo, existente entre os Tupi-Guaranis do séc. XVI208.

Partindo disto, mesmo que o estudo seja acerca de uma religião primitiva (menos sistematizada) e sem escritos sagrados, pode-se fazer um paralelo para o Cristianismo (tanto com o primitivo quanto com o atual), o qual se constitui como uma religião de enorme capacidade para adequar-se às mudanças sociais.

Entretanto, como toda religião, há uma dialética entre o tradicional e o moderno, entre o sagrado e o profano, entre o novo e o velho, entre ‘se abrir para existir, ou se fechar para se extinguir’ como é mostrado ao longo do trabalho da pesquisadora. E por este motivo esta obra traz uma contribuição de peso para nossa pesquisa.