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4. Results and discussions

4.6 Associations within and between different groups of AOCs

4.6.2 Evaluation of environmental processes

No primeiro plano da imagem projetada pelo visionário está “”

(multidão imensa). Em 17,15 encontramos

“” (povos e multidões, nações e línguas) muito semelhante a Dn 3,4. Mas parece que, aqui, o termo designa uma grande massa de pessoas, sem referência ao estado ou às circunstâncias que levam à sua composição, uma horda. Entretanto, os evangelistas utilizam amplamente esta palavra para

149

4,1; 7,1.9; 15,5; 18,1. 150

“Quando disse essas coisas no meu coração, levantei meus olhos...” 4Esd 9,38; “A segunda noite tive um sonho, e eis...” 11,1; “Depois de sete dias que sonhei o sonho de noite, e eis...” 13,1. “Depois dessas coisas eu vi...” 2Ba 6,1; 22,1; 35,1; 52,7b. “Naqueles dias, o furacão me arrebatou da terra...” 1En 37,1; “Depois disso, eu vi...” 40,1; 41,1; 52,1; 57,1; 71,1. A mesma expressão do Ap 7,9 aparece em Dn 7,6.7 da LXX.

151

Cf. KORNER, Ralph J. "And I saw ...": an apocalyptic literary convention for structural identification in the Apocalypse. In: Novum Testamentum, 42,2. Leiden: Brill, 2000, p.160-183.

indicar um encontro de uma grande quantidade de pessoas reunidas por algum motivo,152 ou que portam alguma característica que as distingue.153

A imagem mais próxima a esta visão é aquela do apócrifo 2 Esdras, cujo tema principal é a assembléia dos eleitos, sendo esta uma importante componente da crença escatológica do Segundo Templo.154 Em outro escrito judaico, 2 Baruque, em sua parte de diálogo com Uriel (13,1-20,6), Baruque aparece como uma testemunha escatológica contra as nações. Segundo a idéia que se perfila nesta seção do escrito apocalíptico, Israel é castigado, por isso, finalmente poderá ser salvo. Entretanto os gentios, que agora podem seguir seu caminho, serão levados a uma destruição final.155 Este conceito de intervenção salvífica de Deus, difundido bastante no judaísmo durante o período helenístico e romano,156 e aquele fragmento do apócrifo contemporâneo ao Apocalipse de João parecem ser respostas a uma grande expectativa de reunir todos os israelitas dispersos.157

Seguindo esta mesma tendência de interpretação, vários estudiosos158 observam que a expressão sugere o cumprimento da promessa divina dada a Abraão, com seu aspecto de numerosidade: “...multiplicarei grandemente a tua descendência, de tal modo que não se poderá contá-la (LXX: ) (Gn 16,10), repetido em outros contextos no AT,159 como também cultivado na literatura judaica pseudepígrafa,160 e com seu aspecto de paternidade de uma multidão de nações

“” (Gn 17,4) refletido em “...

” do 7,9 (uma multidão imensa ... de todas as nações) e enfatizado por outros autores cristãos.161

152

Por exemplo, Mt 9,23; Lc 5,1; Mc 7,17. 153

Por exemplo, Mt 14,5; 21,26; Mc 11,18.32; Jo 7,49; cf. o verbete “”, DANKER, p.745-746. 154

METZGER, p.552: “Depois disso eu vi um homem descer da montanha, convocar para si um grupo silencioso. A ele se uniu uma multidão, alguns alegres, outros tristes, alguns vieram do cativeiro, e alguns lhe traziam outros como uma oferenda.” 2Esd 13,12-13 (tradução nossa).

155 Cf. COLLINS, Imagination, p.217. 156 Cf., por exemplo, Sb 12,20-22; 2Mc 7,18-19. 157 Cf., por exemplo, Is 2; Mq 4; Ez 37,12; Dt 30,2. 158

Cf. BAUCKHAM, Climax, p.224-225; AUNE, Revelation 6-16, p.466-467; PRIGENT, p.146; BEALE, Gregory. John’s use of the Old Testament in Revelation. Sheffield: Sheffield Academic Press, 1998, p.352; IDEM, Revelation, p.426-431.

159

Por exemplo, Gn 26,4; Ex 32,13; Dt 1,10; 2Sm 17,11; 1Rs 3,8; Is 10,22. 160

Escada de Jacó (1,10); Oração de Azarias (1,13); Testamento de Abraão (A 1,5); Apocalipse Grega de Esdras (3,10); como também em Qumran: 1Q20 21,13.

161

Rm 4,16-18; Justino: Diálogo com Trifo (11,5; 119,4); Tertuliano: De monogamia (6); Adv. Marcionem (4,34; 5,3).

A proximidade literária destes fragmentos sugere uma linha de pensamento que percorre muitos séculos. Não pretendemos aqui entrar na polêmica de querer saber como João poderia entender as promessas dadas a Abraão,162 ou qual era o número real dos cristãos que viviam no fim do século 1 E.C.,163 em vez disso, preferimos destacar a interpretação que oferece Thompson e que nos parece bastante congruente. Ele chama a atenção para fato de que a multidão imensa que está no céu não é inumerável () por causa do um número limitado (cf. 1Rs 3,8), mas porque esta multidão consiste em pessoas de toda nação “” (como uma comunidade sócio-política), de todas as tribos “” e povos “” (como uma entidade social) e línguas “” (unida pela língua comum).164 Essas quatro designações da multidão que estão juntas, uma característica presente também em outras imagens do Apocalipse,165 leva Mounce a afirmar a universalidade desta multidão.166

Para esclarecer ainda melhor o sentido da imagem do “” é necessário comparar entre si as imagens no Apocalipse onde uma multidão parece estar reunida pela mesma razão. Enquanto alguns interpretadores, ao comparar a “multidão imensa” (7,9) com os “homens de toda tribo, povo e nação... e uma multidão de anjos... e toda criatura...” (5,9-13), ressaltam nos dois fragmentos somente a mesma condição dos eleitos que passaram vitoriosamente da morte para a vida através do martírio,167 uns falam dos santos “resgatados”,168 e outros apontam “os mil milhares... e miríades de miríades...” (Dn 7,10), como uma possível fonte para ambas as descrições da multidão no Apocalipse de João, e afirmam que as três imagens apresentam as nações que louvam a Deus numa relação próxima entre o Messias e o seu povo.169

162

Sobre esta discussão, cf. BEALE, Revelation, p.431. 163

Sobre esta polêmica, cf. AUNE, Revelation 6-16, p.467. 164 THOMPSON, Revelation, p.108. 165 5,9; 7,9; 11,9; 13,7 e 14,6. 166 MOUNCE, p.171. 167

Cf., entre outros: CHARLES, p.201-202; BOUSSET, Wilhelm. Die Offenbarung Johannis. Göttingen: Vandenhoeck & Ruprecht, 6ª ed. 1906, p.286; KIDDLE, Martin. The Revelation of St. John. Londres: Hodder & Stoughton, 1952, p.141-142; MOUNCE, p.171; BAUCKHAM, Richard. The Theology of the Book of Revelation. Cambridge: Cambridge University Press, 1993, p.77.

168

KOESTER, Craig. R. The Dwelling of God: The Tabernacle in the Old Testament, Intertestamental Jewish Literature, and the New Testament. Washington: Catholic Bible Association, 1989, p.117; WITHERINGTON, Ben. Revelation. Cambridge: Cambridge University Press, 2003, p.138.

169

Segundo Halperin, a mesma imagem das multidões vistas por Daniel e Enoque170 também está presente na visão de João. Assim acontece no fragmento 5,8-13, que pertence a uma antiga tradição judaica da visão merkavah presente em Daniel e 1 Enoque, onde o Cordeiro recebe a homenagem primeiramente das criaturas vivas e dos anciãos, depois “de milhões de milhões e milhares de milhares” de anjos, e finalmente “de cada criatura no céu e na terra...”.171

Neste sentido, João poderia inspirar-se numa antiga tradição hínica172 da visão merkavah de Dn 7 e 1En 71 e acrescentar aos seres vivos e multidões de anjos uma multidão universal de todas as nações, numa ação de louvar a Deus. A hipótese de que o autor faz uma leitura própria da visão merkavah, assim como ela cresceu desde o livro de Ezequiel, leva-nos a estabelecer que, na nossa interpretação do Ap 7,9-17, trata-se de uma visão proléptica da futura glória, visão esta que está incluída aqui por causa das tribulações que devem preceder a vinda da nova era, e não discorremos sobre um clímax das tribulações escatológicas.173