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7 Positive health effects related to n-3 fatty acids

7.3 Inflammation and immune function

Provavelmente, a contribuição mais relevante que Myrian Muniz deixou para os estudos sobre pedagogia teatral tenha sido a de ampliar os horizontes acerca da formação do ator brasileiro. Ao reunir as diversas influências que compuseram o grande painel da sua trajetória artística, seja como atriz, diretora e professora, Myrian acabou por constituir, ainda que de maneira não intencional, uma forma brasileira de ensinar teatro, composta primeiramente pela influência que sofreu quando participou do elenco do Teatro de Arena. Os artistas que compunham aquele coletivo artístico buscavam encontrar um jeito brasileiro de fazer teatro, em contraposição ao que era produzido no Teatro Brasileiro de Comédia, que tinha uma maneira estrangeira devido à presença dos diretores europeus, na sua maioria artistas vindos da Itália. Essa forte influência, segundo Zebba Dal Farra, desenvolveu um olhar singular em Myrian para o trabalho do ator, olhar esse que tinha um ponto de vista de dentro da cena e não da plateia:

Acho que ela conversava com os atores também. Tinha uma interlocução com os atores, com o Guarnieri, com o Lima, com os atores do Arena, daquela primeira formação dela. Acho que ela aprendeu a fazer teatro com esses atores. Porque se você for pensar os mestres dela

como o D’Aversa, que era um diretor, e o Flávio, que era um cenógrafo, eu falo assim: _”Puxa vida! Como que uma atriz, da força da Myrian, da potência da Myrian, como foi o aprendizado dela?” E refletindo sobre isso eu penso que ela aprendeu com os atores, aprendeu jogando, aprendeu de memória: um aprendizado que você faz porque se lembra do que é ser ator. Na verdade, não é um aprendizado que você faz muitos exercícios para conseguir determinadas capacidades e competências. Você vai fazendo um treinamento que é meio de memória, de memória na relação. Você estabelece uma relação, uma relação cênica e isso aí cria uma memória e essa memória você repete com o outro. Como um caçador que aprende a caçar com o outro caçador. O ator, ele aprende com o diretor, mas no caso da Myrian eu acho que ela aprendeu muito com os atores. Esse diálogo muito forte talvez tenha sido com o Fauzi, com o Guarnieri, com o Lima. Não no contexto de pensamento, mas no contexto do desempenho, do jogo cênico. (ZEBBA DAL FARRA - ENTREVISTA)

Outro aspecto importante dessa linha de atuação pedagógica era o fato de que a música estava sempre presente, mas não como no teatro musical, em que ela entra como parte da narrativa do espetáculo. Myrian propunha que o uso da música fosse encarado, em primeiro lugar, como forma de ampliar a expressividade do aluno ator e, em segundo lugar, como um catalisador da dramaturgia, servindo em muitos momentos como um amálgama para o roteiro do espetáculo. Todos os espetáculos de que participei como aluno ator, sob o comando de Myrian Muniz, tinham um espaço nobre e importante dedicado à música, sem que isso os tornasse apresentações de “teatro musical”. Zebba Dal Farra coloca essa característica como sendo uma especificidade do “ator muniziano”.11

11 Ator muniziano é aquele ator que foi formado por Myrian Muniz.

Uma vez eu escrevi que o “ator muniziano” é um ator musical. E eu acho que é mesmo. Não foi por acaso que ela dirigiu a Elis e foi muito feliz nesse espetáculo paradigmático, o Falso brilhante, na maneira que foi concebido. Eu acho que ela tinha essa percepção que a música, como ela falava, conecta com um outro plano, com o divino. Então o ator cantava muito, canta muito em grupo. Sempre teve esse momento de cantar, de juntar o corpo e o espírito, se integrar, dialogar e circular. Era uma meta isso daí. (ZEBBA DAL FARRA - ENTREVISTA)

A utilização da obra de poetas brasileiros como matéria-prima para exercícios em sala de ensaio, herança evidente dos tempos do Teatro de Arena, era um aspecto relevante da sua atuação pedagógica e tinha como objetivo primeiro trabalhar a expressividade dos alunos atores, e, em segundo lugar, também poderia constituir material dramatúrgico para um espetáculo. Myrian encontrava na obra desses autores uma rica parceria para seus processos de criação junto aos aprendizes, estabelecendo o que Zebba Dal Farra chamou de poética da criação:

“Talvez os parceiros com quem ela conversasse fossem mais os poetas e atores do que os educadores, encenadores ou sujeitos que trabalharam com procedimentos. Acho que ela estava mais dentro da poética de criação, e daí vinha a professora.” (ZEBBA DAL FARRA - ENTREVISTA)

Acredito que essa escolha estava respaldada por uma vontade de explorar a cultura nacional, além do fato de que os poetas estabelecem uma relação singular com a vida cotidiana, buscando decifrá-la e melhor entendê-la.

Por fim, a característica que considero mais importante, e que Myrian apontava como fundamental para a compreensão do ofício do palco, está sintetizada na seguinte frase, muito utilizada por ela: TEATRO É RELAÇÃO! Esse conceito se concretizava em diferentes

níveis. O primeiro acontece entre professor e o aluno, através de um interesse extremado do primeiro pelo segundo. Cristina Pereira define como um “método de observação que você tem das pessoas, de interesse que você tem de conhecer as pessoas.” (CRISTINA PEREIRA - ENTREVISTA) O segundo, acontece através da relação do aluno ator consigo mesmo, sempre mediado pelo professor, que atua como um provocador. Segundo Zebba Dal Farra, essa relação que se estabelece é sempre de risco:

O que é que a relação aguenta? Se você está olhando e pensando no que é que precisa, você está mexendo em algo que precisa ir para outro lugar, tem uma coisa em transformação. E essas coisas são sempre doloridas. Você mexe num lugar que não é confortável e conforto, no teatro, não é uma coisa boa. Eu hoje estava falando que o teatro se preocupa muito em tirar a paz do espectador. E não é esse o procedimento que ela preconizava? Equilibrar o desequilibrado e desequilibrar o equilibrado. Está num lugar de tensão. Tem o risco que é o risco da experiência, na verdade. E foi como ela aprendeu a fazer teatro. (ZEBBA DAL FARRA - ENTREVISTA)

Existe ainda a relação entre o aluno ator e o personagem que interpreta, que se estabelece, de forma gradual, à medida que a

interação entre professor e aluno também se desenvolve, com o objetivo de estudar o personagem. Myrian buscava desvendar os pontos de aproximação entre o criador e sua criatura, segundo Cristina Pereira: “Mas eu falava: ‘Eu não sei como é esse personagem, Myrian?’ E ela dizia: ‘Você sabe. O personagem é você.’ Então você acreditava que você podia fazer aquilo porque você tinha elementos.” (CRISTINA PEREIRA - ENTREVISTA) E por fim, existe a relação que se estabelece entre os componentes do grupo, sejam eles professores ou alunos, e que está fortemente apoiada na comunicação.

Essa combinação heterogênea dos diferentes elementos que se articulavam através dessa rede relacional dava à atuação de Myrian como pedagoga uma característica única e, aparentemente, aleatória e desorganizada, mas na qual ela tinha plena consciência do que desejava extrair do aluno ator, segundo as seguintes características descritas por Cristina Pereira:

Comunicação, afetividade, amor, aproximação, acolhida. E objetividade. Por que tudo isso parece uma coisa louca, mas ela era muito objetiva. Ela sabia o que ela queria fazer.