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8 Intake assessment

8.2 Estimated intake assuming consumption of n-3 fortified foods and n-3 food supplement-scenario 263

Muitos alunos atores de Myrian Muniz acabaram desenvolvendo uma atuação no âmbito da pedagogia teatral, por influência dos processos que viveram ao lado dela. Muito mais do que uma metodologia propriamente dita, Myrian propagou uma maneira de ensinar teatro que estava calcada, em primeiro lugar, na ética, e depois na estética. E não se trata de uma mera reprodução de procedimentos, mas sim uma maneira humanista de abordar a formação do ator. Zebba Dal Farra revela como lida com essa influência, mesmo estando dentro de uma instituição formal de ensino:

Tudo que ela dizia, esse lugar ético que ela colocava, eu coloco para os meus alunos e com muita tranquilidade, hoje. Por que também tinha um lugar da Myrian que não cabia muito dentro da academia. Eu tive que fazer essa volta para descobrir. Ela sempre trabalhou a voz e o corpo vinculados com a interpretação, pois se eu estou trabalhando o “ser”, é corpo, voz e interpretação tudo junto. Aqui tinha essa dissociação e, quando eu percebi isso, o meu caminho foi de juntar tudo isso e voltar a trabalhar, como eu faço hoje, que é juntando corpo, voz e atuação. A minha disciplina hoje se chama “Poéticas do gesto e da palavra”, quer dizer, é poética de atuação. A influência da Myrian é total, é base e é uma pessoa com quem eu dialogo. Eu ouço a Myrian dizer certas coisas. O que é que ela faria? O que é que ela diria nessa situação? E ela aparece. É muito intenso esse lugar hoje.

Virar professor, diretor, veio dela, da Myrian. O lugar que eu achei dentro do teatro veio da mão que ele estendeu para mim. Isso foi assim fundamental. (ZEBBA DAL FARRA - ENTREVISTA)

Outro aspecto importante reside no fato de que os professores que foram formados, ainda que de forma não intencional, por Myrian Muniz, utilizam a experiência pedagógica vivenciada ao lado dela como guia para descobrir sua maneira própria de atuar. Esse fato é de extrema relevância na minha atuação como professor e também está explicitado no depoimento de Lúcia de Léllis: “Como professora de teatro estimulo os alunos a ‘picarem a sua própria trilha’, em busca dos seus próprios tesouros interiores, como encontrei o meu.” (LÚCIA DE LELLIS – DEPOIMENTO ESCRITO) Nereu Afonso completa, apontando as características que herdou de Myrian:

“Ela era concreta, e isso me dava confiança e esperança. Eis aí uma lição que hoje, quase 20 anos depois, eu tento reproduzir quando subo no palco, quando dirijo meus atores ou quando ensino meus alunos.” (NEREU AFONSO – DEPOIMENTO ESCRITO)

O processo de formação de um professor/diretor era entendido por Myrian Muniz como algo processual e, em alguns casos, dava-se por caminhos indiretos, como descreve Nill Amaral:

Foi numa peça de Brecht que descobri a vocação para dirigir. Eu interpretava quatro personagens no espetáculo e, poucos dias antes da estreia, havia me desentendido com um dos colegas. Myrian, num ato de “punição”, eliminou quase todas as cenas em que eu atuava - fiquei apenas com um personagem. Foi quando o iluminador, Cacá (marido da Myrian), me convidou para assistir ao ensaio da cabine de luz. Com o olhar afastado do palco, tive uma visão ampla da peça. Descobri: queria ser diretor. (NILL AMARAL - DEPOIMENTO ESCRITO)

Já para Zebba Dal Farra, esse trajeto, que o levou à pedagogia, foi natural: “Ator e depois, diretor. Num determinado momento, eu comecei a dar aula e a dirigir porque eu fiquei ao lado dela, olhando. Foi um caminho natural, que não teve cortes.” (ZEBBA DAL FARRA - ENTREVISTA) A intensidade com que nós, alunos atores de Myrian Muniz, vivemos nossos processos formativos ao lado dela, nos impulsionou a resgatar essa experiência, fortemente envolvidos por um sentimento de nostalgia da descoberta, quando nos deparamos com o ofício de ensinar. Cristina Pereira relatou que, apesar de buscar outras referências, a “presença” de Myrian nas suas aulas acabava por ser muito grande:

Eu comecei a estudar, para dar aula, aquele método da Viola Spolin, mas eu saí completamente daquilo e virou uma coisa Myrian Muniz. Eu peguei aquilo só como um start, mas na realidade eu acho que aquilo é um método que ela tem. (CRISTINA PEREIRA - ENTREVISTA)

Ser professor, para Myrian Muniz, era uma atividade de igual nobreza, se comparada à do ator e do diretor, e esse conceito foi muito difundido aos seus alunos atores, segundo relata Paulo Betti:

Ela tinha um espírito indômito, coragem. Isso a Myrian passou. Ela falava da dignidade do trabalho, da visceralidade do trabalho e também da independência e liberdade do trabalho. Eu vejo muito a Myrian como aquela figura com uma bandeira. Certamente era a bandeira da liberdade. Mãe coragem. Eu penso na Myrian como Mãe Coragem. (PAULO BETTI - ENTREVISTA)

Myrian Muniz preconizava que a formação do artista teatral deve acontecer de maneira articulada e minuciosa, e também buscava desenvolver, nos alunos atores que apresentavam alguma inclinação para a pedagogia e/ou direção teatral, habilidades que resultariam

no descobrimento de uma identidade como professor. Paulo Betti afirma que recebeu dela uma “roupa de professor”:

Quando eu vou, e hoje eu tenho ido menos, para a sala de aula, a Myrian me deu, para usar, esse traje da liberdade. Eu posso falar do jeito que eu quiser, eu posso ser do jeito que eu quiser. Basicamente, o que interessa é a vida, o arroz com feijão, o suor, a lágrima, a sobrevivência e a liberdade. O que a Myrian nos ensinou é que tem que ter substância. (PAULO BETTI - ENTREVISTA)

De maneira análoga aos depoimentos apresentados neste item, eu também me tornei e me reconheço como um formador a partir da experiência vivida ao lado dela. Foi Myrian quem me emprestou ferramentas que se tornaram fundamentais para aguçar meu olhar de professor/pedagogo. Eu, assim como a maioria dos meus colegas depoentes, não frequentei uma escola formal de licenciatura em Artes Cênicas, porém esse campo de conhecimento se tornou essencial na minha prática profissional, muito por interferência da experiência formativa envolvendo vida e teatro que tive, ou seja, foi Myrian Muniz quem me ajudou a trilhar meus caminhos no campo da interpretação, da direção e, principalmente, da pedagogia teatral.

A história do teatro ocidental está repleta de experiências que foram imprescindíveis para o desenvolvimento e sistematização no campo da formação do ator. Apesar de, aparentemente, existir uma associação simbiótica entre encenação e pedagogia, as trilhas possíveis para percorrer o imenso trajeto que une esses dois importantes aspectos da criação teatral, são de uma diversidade impressionante. Existe, porém, um fator que é fundamental e comum a todos elas: a formação do ator. “No início do século XX ampliou-se o conceito de ‘escola’, na medida em que o papel formador foi transferido para o espaço da cena, do fazer teatral propriamente dito.” (TAIS, 2009, p. 10) A criação cênica e o ensino do teatro têm caminhado juntos desde então, de maneira bastante íntima e indissolúvel.

Para analisarmos a relação entre aprendizado e criação, no âmbito teatral, tomaremos como referência inicial o caráter pedagógico da atuação de um dos grandes renovadores da cena moderna do século XX: Constantin Serguiêievich Stanislávski – Alexeiev (1863-1938). O binômio pedagogia/encenação adquire, a partir dos fundamentos do trabalho do ator desenvolvidos por ele, importante dimensão quando se busca elaborar, na teoria, os princípios e procedimentos desenvolvidos na prática. Segundo GUINSBURG (2006, p.45), o mestre russo preconizava que “o

trabalho do ator [...] tinha que ser escrupulosamente preparado pelo trabalho com o ator”. Esse princípio, que é um dos pilares da atuação artístico-pedagógica de Stanislávski que se inicia ainda no final do século XIX, foi batizado de o trabalho do ator sobre si mesmo. “Quem exerce essa profissão deve aprimorar seus instrumentos, debruçar-se sobre si mesmo, ‘educar-se’, ‘pensar- se’, ‘desenvolver-se moralmente e estimular seu cérebro’ em um trabalho contínuo e sem fim.” (TAKEDA, 2008, p.40)

É a partir desse princípio fundante que balizarei minha análise, com o objetivo de traçar uma linha de pensamento pedagógico. Dentre os diversos artistas de teatro que unem o encenador e o pedagogo, e que contribuíram das mais diferentes formas para o desenvolvimento dessa linha, escolhi destacar a atuação de três deles: Constantin Stanislávski, Eugênio Kusnet e Myrian Muniz. A principal razão para essa escolha reside no fato de que o primeiro deles foi o responsável pela estruturação das bases desse trabalho; o segundo aproximou a experiência do mestre russo da realidade teatral brasileira, e a terceira, por ter priorizado, de forma enfática, o autoconhecimento na sua proposta de formação para o ator e, principalmente, por ter resignificado o princípio fundante, buscando sua ampliação através da incorporação de outras experiências. Sendo assim, os três elegeram, guardadas as devidas diferenças,

CAPÍTULO 2