2.3 Feed trial
2.3.3 Infectious Pancreatic Necrosis Virus (IPNV) challenge test
Tais procedimentos são de duas ordens: a) de ordem lingüística, quando se trata de procedimentos que explicam os diferentes tipos de relações do ato enunciativo através de processos de modalização do enunciado; e b) de ordem discursiva, quando eles contribuem para a encenação dos outros modos de discurso ou quando são preponderantes em determinado
gênero, como é o caso das cenografias de diversão “horóscopo”.
Os procedimentos de ordem discursiva dependem da intencionalidade e das estratégias discursivas selecionadas pelo sujeito comunicante para seu projeto de fala e materializam-se sob
o manto dos outros modos de organização do discurso, isto é, podemos encontrar “momentos”
descritivos, narrativos e argumentativos nos registros verbais dessas cenografias.
Ao configurar-se de modo argumentativo, verificamos a presença de procedimentos semânticos do processo de argumentativização (la mise en argumentation), que se constituem pela utilização de um argumento que repouse sobre um consenso social, de modo que os membros de determinado grupo social, face a tal argumento, compartilhem certos valores, agrupados em domínios de avaliação. Alguns domínios, nesse campo de ação, sempre segundo Patrick Charaudeau (op.cit.), devem ser destacados:
i) o domínio da verdade, que se define em termos de “falso ou verdadeiro”: “A Lua
transita (...) por volta do meio-dia de hoje” (FSP, 12/07/2000);
ii) o domínio estético, que se define em termos de “bonito ou feio”: “Aposte firme na
aparência” (FSP, 15/11/2000);
iii) o domínio ético, que se define em termos de “bom ou mau”: “Você já deve ter
percebido como as coisas voltam para você...”, “Suas ações contemplam o bem de todos...” (FSP, 12/07/2000);
iv) o domínio pragmático,que se define em termos de “útil ou inútil” e se resume a um cálculo, cálculo que consiste em medir os projetos e os resultados das ações humanas em função das necessidades racionais de sujeitos agentes que os realizam ( mesmo se estes venham a passar pormomentos desagradáveis): “Mercúrio favorece
a revisão de temas obscuros”, À tarde, a Lua entra na décima mansão lunar” (FSP,
15/03/2000);
v) o domínio hedônico, que se define em termos de “agradável ou desagradável” e diz respeito ao prazer em relação aos projetos e ações humanas: “Os resultados
compensarão bastante...”, “...sinalizam um bom dia...” (FSP, 15/03/2000). Alguns
domínios de avaliação podem ser de diversos tipos, como pode acontecer no domínio ético (valor de solidariedade, honestidade, justiça, responsabilidade, esforço, disciplina entre tantos outros) e no pragmático (normas fundadas sobre quantificações, comportamentos, prudência, sedução ou por sua singularidade).
Alguns efeitos buscados com o uso do modo de organização descritivo serão salientados por nós, a seguir; tal modo, como já foi dito, pode ser de grande utilidade para a coesão/formação do discurso astrológico, já que busca ou carrega em si certos efeitos:
a) um efeito de realidade e ficção— neste caso, tanto a realidade quanto a ficção devem ser consideradas em conjunto, tendo em vista que é a alternância entre esses dois modos de visão do mundo que embasa muitas narrativas e discursos. A intervenção da presença do autor-astrólogo, com a assinatura de seu nome real, a publicação de seu endereço eletrônico, as datas das fases da Lua, o uso de dados históricos são alguns dos fatores que podemos destacar, neste âmbito e que contribuem para criar, no universo interpretativo do leitor/jogador, um efeito de realidade diretamente ligado às relações de influência dos astros sobre a vida terrestre. Esse efeito é essencial se pensarmos que, entre os leitores/jogadores que acreditam em horóscopos, o nível de informação sobre o funcionamento astronômico no mundo contemporâneo é considerado alto (posto que o consumo de jornais impressos concentra-se entre as classes A e B); b) um efeito de saber, que se dá na fabricação da imagem do especialista que
descreve a situação astrológica do “consulente” e que usa esse conhecimento
como prova de veracidade daquilo que enuncia. A astróloga da “Folha” precisa mostrar os caminhos e posições dos astros no firmamento, suas relações com os
outros astros, suas influência sobre as casas zodiacais: “A Lua em Câncer....”, “Mercúrio retrocede em Peixes...”, “...este planeta é passível de...”, “...associadas a Mercúrio e Urano...” (FSP, 15/03/2000);
c) um efeito de confiança, que ocorre a partir da intervenção, explícita ou implícita, da pessoa que faz a descrição e, assim agindo, é levada a exprimir sua apreciação pessoal. Tal efeito pode se manifestar de diferentes maneiras: por
meio de reflexões pessoais (“O mais inteligente nesse dia é exercitar a leveza”, FSP, 12/07/2000); pela interpelação direta do leitor (“Você não precisa repetir trajetos alheios”, FSP, 15/11/2000); pelo apelo ao leitor a compartilhar uma reflexão feita pelo narrador (“Você deve estar se perguntando como a vida dá tantas reviravoltas”, FSP, 12/07/2000);
d) um efeito de gênero, que pode resultar do emprego de certos procedimentos do discurso; a repetição freqüente torna-se característica de determinado gênero,
um “sinal” de que este e não um outro gênero está sendo usado. Nesse caso, a
abertura das previsões diárias utiliza o estilo jornalístico de redação de notícias e, por sua vez, as previsões para cada signo zodiacal acabam por cristalizar o
gênero “previsões e aconselhamentos”. Este gênero ou efeito de gênero segue
uma formulação estrutural do tipo {proferimento sobre um comportamento adequado para o dia ou de problema atual da pessoa regido pelo signo [a causa e a conseqüência para o comportamento ou a solução para o problema (a configuração que determina a situação)]}. Por exemplo:
“Bom dia para estudar e aprender. Saiba incluir a contribuição de outras pessoas à
rotina e ao trabalho diário. Tornará tudo mais fácil de ser executado, tirando dos ombros um peso desnecessário. Astros inclinam a confiar no invisível, liberando tempo e espaço para se
“Se certos pensamentos giram sem parar na sua cabeça, sem solução aparente, não quer
dizer que está preocupado(a), mas sim ansioso(a). Saiba distinguir uma coisa da outra. Tensão
no ar. Lua e Marte sinalizam intranqüilidade” (FSP, 15/03/2000).
“A concentração em seus objetivos é o segredo para coexistir em meio a tantas
diferenças de opinião e vontades descontroladas. Para evitar cair nessas armadilhas, concentre- se apenas em sua própria singularidade. Contudo, o cenário astrológico sinaliza excessos e
manipulações que chegam de surpresa” (FSP, 12/07/2000).
Como se vê, as previsões possuem uma constância na forma apresentada ao leitor/jogador. Essa estrutura mais geral pode sofrer algumas alterações quanto à ordem dos argumentos, entretanto, a estrutura básica (problema-solução-situação zodiacal) permanece em quase todas as previsões diárias dos signos zodiacais, em qualquer veículo de massa que
contenha a cenografia “horóscopo”.
As previsões zodiacais também fazem usos de estratégias narrativas de modo bastante acentuado. Os principais procedimentos de narrativização que encontramos dizem respeito, principalmente, às formas de implicação do destinatário-leitor, aos modos de intervenção do narrador, seu estatuto e seus pontos de vista.
De maneira geral, o destinatário das previsões diárias do zodíaco é incitado a receber e verificar (pela posição astral dos planetas) na história que lhe está sendo contada (a de sua
“angustia ou prazer vivencial”) uma história próxima de seu “real”, passível de verificação
mensurável, através dos cálculos realizados pelo astrólogo: tais cálculos buscam determinar as posições astrais no céu zodiacal do signo objeto de consulta. Essa participação será tanto mais forte quanto maior for a crença do leitor/jogador nas previsões do zodíaco.
As intervenções, o estatuto e o ponto de vista do narrador das cenografias “horóscopo” já foram discutidos anteriormente; iremos, pois, apenas reforçar o fato de que a assinatura da astróloga, com seu nome verdadeiro, talvez seja um efeito de confiança muito importante para a credibilidade das previsões por ela feitas.
Na figura que se segue, temos uma visão da disposição gráfica da cenografia
“Horóscopo” no jornal Folha de S. Paulo (essa disposição gráfica foi alterada mais
recentemente e as previsões diárias para os signos agora aparecem em uma coluna vertical estreita).