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O verbo “enunciar” encerra algumas ambigüidades. Em sua totalidade, ele se refere à totalidade de um ato de linguagem: “enunciar um certo tipo de discurso”, “enunciar argumentos interessantes” etc., e pode ser sinônimo de verbos como relatar,

expor, formular, exprimir, entre outros.

Em um sentido mais estrito, tal verbo contém uma ambigüidade, porque tanto pode corresponder ao propósito referencial do ato de linguagem (também chamado de

‘enunciado’), como pode corresponder ao ato de enunciação, que é distinto do propósito

e ao mesmo tempo o engloba.

De fato, todo ato de linguagem é composto de um propósito referencial que está encadeado em um ponto de vista enunciativo do sujeito falante, ambos integrados em uma situação de comunicação, como se vê a seguir:

{situação de comunicação [ponto de vista enunciativo (propósito)]}

Assim, o verbo “enunciar” refere-se ao fenômeno que consiste em organizar as

categorias da língua, ordenando-as de modo a mostrar a posição que o sujeito falante ocupa em relação ao interlocutor, ao que é dito e ao que é dito sobre o outro.

Desse modo, podemos distinguir três funções dentro do modo enunciativo, seguindo sempre a visão de Charaudeau (1992: 647-651):

a) estabelecer uma relação de influência entre locutor e interlocutor: “Seu descontentamento com alguns comportamentos que vê acontecer em sua família pode

ser solucionado mediante seu encantador poder de comunicação” (FSP, 12/07/2000,

12/07/2000, Câncer, negrito nosso); “Se a sua inspiração terminar antes que o trabalho

termine, chegou a hora de reorganizar suas atividades cotidianas” (FSP, 12/07/2000, Escorpião, negrito nosso). Nos trechos em negrito, todos alocutivos, a astróloga dirige- se explicitamente ao leitor real, a fim de cooptá-lo para uma ação futura que se mostra como a mais adequada, tendo em vista a configuração astrológica no momento da

“leitura”.

b) revelar o ponto de vista do locutor: tal perspectiva é marcada pela intervenção de presença explicitada na assinatura ou seja, pelo nome do sujeito comunicante-astólogo: em nosso corpus, das quatro autorias das cenografias “horóscopo”, as duas primeiras foram assinadas sob a máscara de pseudônimos: Stella (de 1960 a 1968), seguido de

Emile Sutra (de 1972 a 1980). Seguindo os dois autores, surgiram dois outros, ambas

mulheres, que, pode-se dizer, assumiram sua identidade; assim, elas criaram uma espécie de narrador-personagem-midiático, que vive em constante tensão com o autor- indivíduo. A primeira foi Cláudia Holander (de 1984 a 1998), seguida de Barbara

Abramo (de 2000 aos dias atuais).

De maneira geral, o ponto de vista deste sujeito-comunicante pode ser descrito como o de uma estudiosa da “ciência astrológica”, o que exige conhecimentos de astronomia, física, entre outros; não há indicações explícitas para essas inferências, mas devemos considerá-las plausíveis, tendo em vista que a empresa que edita o jornal

Folha de São Paulo, devido a seu sucesso editorial, tem por obrigação impor critérios,

que restringem a publicação de cenografias produzidas por pessoas sem uma comprovação curricular mínima. A publicação de um endereço eletrônico e o de um sítio na rede mundial de computadores são outras intervenções de presença do narrador. Outra intervenção, mas que participa, mais ativamente, do modo de organização descritivo, como vimos na seção precedente, é ligada às datas do aparecimento das

diversas fases da Lua — “Cheia: 16/jul/10h54; Minguante: 24 jul/18h01; Nova: 30

jul/23h25; Crescente: 6 ago/22h01” (FSP, 12/07/2000).

c) ser testemunha da palavra do outro/tiers: o sujeito-comunicante constrói seu projeto de fala com procedimentos discursivos que buscam estabelecer um efeito de real para

determinada configuração dos procedimentos de “enunciativização” (l’act

d’enonciation). Assim, o texto de abertura é construído à maneira do lead (no jargão jornalístico o lead corresponde ao primeiro parágrafo de uma notícia e responde às perguntas básicas vindas do latim quis, quid, ubi, quibus auxilliis, cur, quomodo,

quando?, traduzidas por: “quê, quem, onde, como, com o auxílio de quem, de que

modo, quando?”. O texto de abertura pode também incluir a utilização de nomes

próprios em seus procedimentos narrativos: “Mercúrio aumenta a comunicação” (FSP,

15/03/2000); “Duelo de Titãs” (FSP, 12/07/2000); ele configura, dessa forma, uma

função narrativa descritiva que serve para produzir um efeito de real e de veracidade que incidirá sobre os cálculos necessários para o estabelecimento da posição dos astros e sua correlação, durante o período astrológico da casa zodiacal para a qual a previsão/aconselhamento está sendo realizada; as datas das fases da Lua reafirmam a influência dos astros (mesmo não sendo a Lua um astro, no sentido estrito do termo, mas, para quem crê na Astrologia, qual a importância disso?) sobre o destino dos indivíduos; por sua vez os conselhos, abduzidos pela posição dos astros, incitam à corrupção de alea ou seja: funcionam como uma tentativa de vencer a ordem suprema do Destino, que a tudo rege e determina os caminhos.

Essa maneira de abrir as previsões diárias com um texto redigido como um lead pode marcar uma tentativa de dar mais credibilidade a um tipo de cenografia considerada sem valor ou função, à primeira vista. Uma dessas aberturas, que reproduziremos a seguir, além do formato gráfico de uma notícia corriqueira (como

qualquer outra publicada pelo jornal), tendo um título (Mercúrio aumenta a

comunicação), apresenta uma lista de influências do planeta sobre a vida terrestre,

incluindo dados históricos e datas:

“Quarta-feira é o dia dedicado ao deus dos pés ligeiros.

Mercúrio. O planeta de mesmo nome é o protetor ancestral dos escritores, dos filósofos, dos matemáticos, dos astrólogos e dos comerciantes. Mercúrio preside o raciocínio, a comunicação e a troca entre os homens. A internet e a mídia, por exemplo, estão associadas a Mercúrio e Urano. Esse planeta, invisível a olho nu, provavelmente tem relação com a socialização das invenções e das descobertas científicas. Quando Urano ativou a carta astrológica d grito do Ipiranga, na história recente do país, acompanhamos a chegada dos telefones celulares e do acesso à Internet. A privatização do sistema de telecomunicações começara, sob a batuta do então ministro Sérgio Motta, que faleceu pouco depois. Agora, Mercúrio retrocede em Peixes desde 21 de fevereiro. Durante este período, tudo que é simbolizado por este planeta é passível de confusões e erros. Contudo, Mercúrio favorece a revisão de temas obscuros. Comportamento: Pela manhã, Sol e Lua favorecem o uso da vontade e da razão. A comunicação melhora, é mais fácil avançar nas iniciativas, buscar apoios e alianças. À tarde, a Lua entra na décima mansão lunar, que protege os casamentos” (FSP, 15/03/2000).

Como se vê, o texto foi construído dentro de um emaranhado de causas- conseqüências devidas aos posicionamentos dos astros. Vale ressaltar a interferência

direta dos planetas na vida humana, como no enunciado “Quando Urano ativou a carta astrológica do grito do Ipiranga...” ou quando são descritos os comportamentos que

3.3.3. Os componentes da construção enunciativa