2.3 Feed trial
2.3.1 The freshwater period
A astróloga enuncia sua posição em relação ao interlocutor no momento mesmo em que ela o implica em seus ditos e assinala o comportamento a ser assumido (“Pense
bem se deve...”, “Você sabe dizer quais seus talentos e dons?”, “Não desconfie da sua capacidade...”, “Reaja!” são exemplos extraídos das previsões de 15/03/2000). O
locutor age sobre o interlocutor (ponto de vista acional) questionando-lhe sobre seu comportamento, seu autoconhecimento, sua auto-estima; ele o incita a agir, a “fazer seu
destino” por meio das indicações astrológicas e da realização de atos que, em uma
lógica de causa-efeito, apenas podem resultar em algo benéfico.
Qualquer que seja a relação psicossocial do interlocutor, qualquer que seja seu comportamento efetivo, ele será instado pelo ato de linguagem do locutor, ele deverá ter uma reação determinada: responder e/ou reagir (relação de influência): “Imprima seu
toque original...”, “... continue examinando tudo aquilo em sua vida que quer mudar”, “Paciência!”, “Para ter mais informações sobre qual a melhor atitude a ser tomada, consulte amigos e colegas...” (FSP, 12/07/2000) mostram esse apelo a uma “tomada de posição”. Afinal, os astros indicam as possibilidades para a solução de algum problema — e nesse aspecto essas cenografias assemelham-se às narrativas, com seu leitmotiv
estrutural da falta e da busca pela supressão dessa falta—, mas o caminho a seguir deve ser escolhido pelo consulente.
Além disso, o sujeito falante, no momento mesmo de sua enunciação, atribui a si
e ao interlocutor “papéis linguageiros”, que são de duas ordens:
a) o sujeito falante, em sua enunciação, encontra-se em uma posição de
superioridade em relação ao interlocutor e lhe atribui papéis que
Assim, há a produção de um “embargo” do locutor sobre o interlocutor, que faz surgir uma relação de força entre os dois.
b) O sujeito falante, em sua enunciação, encontra-se em uma posição de
inferioridade em relação ao interlocutor e atribui papéis que mostram
a necessidade do “saber” e do “poder fazer” do interlocutor. Há, assim, a produção e uma “solicitação” por parte do locutor ao
interlocutor, de modo que se estabelece entre eles uma relação de
demanda.
3.3.3.2. A relação do locutor ao dito (ou ao propósito)
O sujeito falante enuncia sua posição em relação ao que é dito sobre o mundo (o propósito referencial), sem que o interlocutor seja implicado nessa tomada de posição. Como resultado, surge uma enunciação com o efeito de moralizar subjetivamente a verdade do propósito enunciado, de modo a revelar o ponto de vista interno do sujeito falante.
O propósito referencial encontra-se, assim, situado no universo discursivo do sujeito falante (ponto de vista situacional) e pode ser especificado por:
a) um ponto de vista do modo de saber, que demonstra qual o conhecimento do
locutor a respeito do que é enunciado: “Contudo o cenário astrológico sinaliza excessos e manipulações que chegam de surpresa”, “A cena astral que se configura atualmente...” (FSP, 12/07/2000); “A rotina flui bem
melhorgraças ao astral que trabalha a seu favor!”, “Astral segue a seu favor
hoje...”, “... é a Lua que na tarde de hoje entra em seu signo”, “Lua e Júpiter indicam crescimento e esperança” (FSP, 15/11/2000). O lead das previsões
zodiacais é construído de maneira a salientar o conhecimento astrológico do narrador;
b) um ponto de vista de avaliação, que demonstra como o locutor julga o conteúdo
do propósito enunciado: “O planeta de mesmo nome é o protetor ancestral...”, “...tudo que é simbolizado por este planeta é passível de confusões e erros” (FSP, 15/03/2000) “...o cenário astrológico sinaliza...”
(FSP, 12/07/2000);
c) um ponto de vista de motivação, que demonstra a razão pela qual ele é levado a
realizar o conteúdo do propósito referencial: “Quem poderia imaginar que
você sairia de uma situação aborrecida em tão pouco tempo e de maneira tão
simples?”, “Você deve estar perguntando como a vida dá tantas voltas” (FSP, 12/07/2000); “Os resultados compensarão bastante”, “Tensão no ar”, “...é mais fácil avançar nas iniciativas...” (FSP, 15/03/2000);
d) um ponto de vista do engajamento, que demonstra seu grau de adesão ao
propósito: “Maleabilidade é a palavra de ordem...”, “Para evitar cair nessas armadilhas...”, “Mas o milagre aparente deve-se...”, “Paciência! As
mudanças nomundo ocorrem...” (FSP, 12/07/2000) ou em “Desafios podem
ser aceitos com alegria”, “Vitórias inesperadas podem ocorrer”, “Participação em projetos comunitários também é favorável...” (FSP,
15/11/2000);
e) um ponto de vista de decisão, que demonstra, por sua vez, o estatuto do locutor e o tipo de decisão que é realizado com o ato enunciativo: “Lua e Júpiter
indicam crescimento e esperança”, “...a necessidade de tornar sua casa mais...”, “Seu humor melhora”, “...é a Lua, que na tarde de hoje...” (FSP,
3.3.3.3. A relação do locutor com a alteridade
O sujeito comunicante, no caso, aquele que prevê um futuro e aponta uma possível solução para um problema a partir da configuração astrológica, desaparece de seu ato de enunciação, mas de modo a não implicar seu interlocutor. Ele é um testemunho da maneira como um discurso (esotérico) do mundo se impõe a ele. No caso
da astrologia, esse discurso é de autoria “dos astros”, isto é, sua responsabilidade está
estreitamente relacionada com a conjuntura astrológica, conjuntura esta que, dentro desse universo de crenças, não pode ser alterada pelo ser humano.
A crença na influência dos astros na vida terrestre, que na antigüidade podia levar à guerra ou a um recuo temporário desta, perdeu seu valor como saber-saber válido para explicação dos acontecimentos da vida cotidiana. A desvalorização, o descrédito e mesmo o processo de ridicularização a que a astrologia foi submetida ao longo dos séculos, pelas religiões e pelas ciências, não lhe tiraram a capacidade de promover e sustentar crenças, mesmo no hipermaterialista mundo contemporâneo. É essa sua capacidade para manter a adesão aos valores e crenças que erige como visão de
mundo, que garante sua sobrevivência na “selva” do processo rotineiro de apresentação
das notícias, em que diversos textos e cenografias competem pelo espaço físico limitado do jornal.
Ao propor uma solução para uma situação que aflige o leitor/jogador, o astrólogo está indo contra o Destino, indo contra o curso natural das coisas, que está predeterminado pelas configurações dos astros, especialmente no momento de nascimento do consulente. Dessa forma, as previsões diárias do zodíaco vão contra esse destino, corrompendo a alea, ou seja, o espírito de jogo que exige retidão e resignação do jogador aos desígnios da Sorte.