2. Teoretisk rammeverk
3.2 Observasjon
3.2.2 Infant observation, egne valg og kritiske refleksjoner
São abordadas nesta seção as reflexões acerca da dinâmica política local e os conflitos religiosos provenientes da perda de influência do clero nas esferas de poder da sociedade. Assim, é possível compreender os intuitos da elite intelectual da época que também exercia influência na esfera política da província.
O fim do século XIX é marcado por grande agitação política no cenário nacional e local. Mudanças no regime de poder, do Império para a República, a Abolição e o surgimento e derrocada de oligarquias locais são marcos desse período de progresso e ordem. O mundo mudava e o sentimento de mudança percorria toda a América. Não alheias as mudanças, as classes dominantes e os interesses do capital estrangeiro, viam o momento para aproveitar-se das transformações que vieram a ocorrer, enquanto os mais pobres, o povo, via boquiaberto, desprezado e a margem, o progresso dos ricos.
Sobre a política cearense na segunda metade do século XIX nos conta Cordeiro (1997, p.79), que as lideranças políticas-partidárias no período do Império permanecem sob o julgo dos clãs familiares e fazendeiros tradicionais e ricos. A política clientelista reafirma sua atuação no Nordeste, sendo comum no Ceará.
Ainda sobre a política local Cordeiro (1997, p.79) afirma, que haviam dois partidos, o Liberal que até 1860 foi liderado pelo Senador Alencar, depois de falecido a chefia do partido passa para Thomaz Pompeu de Souza Brasil. Em 1877, com o falecimento de Pompeu há uma cisão no partido, onde surgem os Liberais Pompeus, tendo a frente Nogueira Accioly, e os Liberais Paulas, comandados por Vicente Alves de Paula Pessoa. O partido Conservador não tinha um líder de consenso hegemônico, no entanto até 1862 o grupo chamado de boticários-cacarás, em alusão ao boticário Antonio Rodrigues Ferreira e Miguel Fernandez Vieira chamado Carcará, eram as maiores lideranças do partido. Depois desse período com a morte de Vieira, o grupo se divide em dois, Conservadores Graúdos, sob as
127 ordens do Barão de Ibiapina e Conservadores Miúdos, sob a organização do Barão de Aquiraz.
Com o novo regime repúblicano, extinguiram-se esses velhos e experimentados, de modo que os grupos oligárquicos foram momentaneamente afastados do governo. Os repúblicanos históricos e os militares (muitos destes adesistas de última hora) tomaram o poder, sendo confirmados no comando da província pelo governo central. Os primeiros tempos da república no Ceará foram marcados por muita instabilidade, agitações, trocas de governantes e práticas de atos ilógicos e cômicos. Uma verdadeira comédia de absurdos. (FARIAS, 2004, p. 240).
O movimento repúblicano já vinha desde o período imperial adentrando a cena política local, principalmente levantando a bandeira da abolição dos escravos e as ideias positivistas e da revolução francesa. Com o anuncio da instauração da República, a elite local começa a se reorganizar para manter-se no poder, conservadores e liberais passaram um tempo afastados pelos repúblicanos e militares. Sobre a política nesse período nos conta Farias (2004, p. 242), que em 1889 surge Partido Repúblicano e no ano seguinte, em fevereiro de 1890, funda-se o Clube Democratico, que se tornaria depois no Partido Repúblicano Democrático, que agrupou grande parte do grupo chamado de conservadores graúdos. Tinham como órgão divulgador o jornal O cearense, depois renomeado de Órgão Democrático e por fim O Ceará.
Vários clubes repúblicanos surgidos no período tornaram-se partidos e pelo que se pode ver as velhas raposas políticas do império aderiram a República dando “novas roupas” aos seus antigos partidos e permanecendo com a mesma ideologia. Segundo Farias (2004, p.242) Em julho de 1890, Nogueira Accioly cria a união Repúblicana, que acolheria os chamados liberais pompeus e os conservadores miúdos. Tinham um periódico chamado Gazeta do norte que foi renomeado para o Estado do Ceará. Haviam também os Partidos Católico e Operário, o primeiro formado por religiosos ultrarreacionários da elite, sendo liderados pelo Barão de Aratanha; e o segundo tinha pouca representatividade dos trabalhadores, liderado pelo cirurgião-dentista Aderson Ferro, sem força passou a figurar como massa de manobra entre ex-monarquistas e repúblicanos.
O jogo de poder na política local é enredado por questões outras, relacionadas além dos interesses pessoais, nas ideias racionalistas higienistas, sanitaristas e nos dogmas religiosos. A velha querela entre fé e razão entra em cena na Fortaleza do século XIX. Isso se deve a perda de influência do clero desde o período imperial, o crescimento da maçonaria e a instalação da República e a separação da Igreja do Estado, com a sua laicização. Além disso, o século XIX faz aflorar nessas terras as ideias naturalistas, evolucionistas, positivistas, ou seja,
128 nascem pensamentos pautados na filosofia racionalista que vai de encontro aos saberes dogmáticos da igreja.
Novos matizes de ideias começam a se fazer sentir na vida intelectual brasileira: positivismo, naturalismo, evolucionismo e todas as modalidades do pensamento europeu do século XIX, num progresso de espirito critico concomitante [...] no Brasil a partir de 1860. (CORDEIRO, 1997, p. 28).
Para se ter uma ideia das ideologias e princípios políticos que circulavam na cidade na segunda metade do dezenove podemos recorrer a alguns dados da autora Celestes Cordeiro em sua obra Antigos e Modernos no Ceará Provincial, que traz um apanhado das ideologias política dessa época, através da análise dos jornais desse período. Nesse sentido vamos adaptar essas informações no quadro abaixo:
Quadro 1 – Grupos políticos e seus princípios GRUPOS POLÍTICOS E SEUS PRINCÍPIOS
GRUPOS PRINCÍPIOS
CONSERVADORES Desconfiados do progresso e críticos do progressismo; defendem como impossível a autonomia moral da sociedade; acreditam em um lento processo de reformas encabeçado pelo Estado e respeitando o passado, a lei e as circunstâncias; tradicionalistas
. (CORDEIRO, 1997, p. 245)
LIBERAIS Elogiam o progresso, defendem a
liberdade de consciência e de expressão, e sua garantia em mecanismos institucionais que promovam a autonomia moral; e, finalmente, aceitam movimentos de reforma mais amplos e independentes. (CORDEIRO, 1997, p. 245)
LIBERAIS RADICAIS Oposição ao poder moderador.
(CORDEIRO, 1997, p. 245)
129
progresso necessário, aceitação do liberalismo econômico, preocupação pela autenticidade e ampliação do sufrágio e crença na educação básica como fator de reforma social. (CORDEIRO, 1997, p. 245)
LIBERAIS DOUTRINÁRIOS Defendem a monarquia constitucional, a descentralização administrativa, o aperfeiçoamento do sistema representativo e do judiciário, o abolicionismo gradual, a subordinação da igualdade à liberdade e o reforço do Poder como garantia das liberdades. (CORDEIRO, 1997, p. 245)
Fonte: Adaptado de Cordeiro (1997).
Esse cenário de ideologias diversas se justifica por um lado pelo apego ao já estabelecido e o medo do novo e de mudanças na ordem social, uma vez que o rico quer continuar no poder. Do outro lado, há aqueles que anseiam por mudanças, que acolhem o novo como uma oportunidade de progresso e ascensão social. Essa bipolaridade entre conservadores e liberais, foi, nas circunstancias que aconteceram, influenciadas pelas ideias de civilidade e progresso importadas da Europa e massivamente discutidas e implementadas no cotidiano local.
São novos tempos, o progresso vem acompanhado das novas descobertas científicas. Pode-se dizer que o período dos paradigmas, uma era de imposição dos limites e regras do jogo da ciência. A fé devia ser colocada em seu devido lugar, a ciência é igual “São Tomé”, só acredita vendo, ou melhor no que pode ser provado.
Nessa hora são os católicos os representantes da mais autentica mentalidade conservadora. [...], a chamada “questão religiosa” pode ser vista como momento culminante da luta entre a mentalidade católico-conservadora e o espirito laico e liberal. E é a partir da década de 70, também no Ceará, que esse espirito se manifestará através de uma série de personagens e movimentos como a Escola Popular por exemplo, e que reação se fará incansavelmente pelos jornais, na tribuna parlamentar, nas cátedras, nos livros, e pela organização de um “laicato” católico frequentemente mais ortodoxo que o clero. (BARROS, 1983, p. 29-33 apud CORDEIRO, 1997, p.29).
130 A questão religiosa que eclodiu na cidade na segunda metade dos oitocentos teve como palco a imprensa local, agremiações literárias e científicas com seus folhetins de divulgação veiculavam suas ideias anticlericais e positivistas e a igreja e a elite conservadora criticando essas agremiações em seus respectivos jornais.
No Ceará, de acordo com Montenegro, o auge desse conflito seria alcançado com a fundação da Academia Francesa, defensora do ideário cientificista, em confronto com a qual se colocaria a reação católica que se posicionava, de modo geral, “contra o liberalismo, a revolução francesa, o capitalismo, a ciência moderna, a igualdade antindividualista, a reforma protestante. (MONTENEGRO, 1992, p.62 apud CORDEIRO, 1997, p. 29).
A Academia Francesa foi uma das primeiras agremiações literárias da cidade, mesmo tendo como membros pessoas da elite local tinha um discurso de responsabilidade social e de democratização do acesso à educação para toda a população da cidade, mas é preciso destacar que embora esse “discurso social” seja louvável, ele é bastante influenciado pelas ideias de progresso e civilidade espelhadas nas potencias europeias.
Os frutos da Academia Francesa serão o surgimento de várias outras agremiações literária na cidade. Mas vale destacar um desdobramento dessa tão ilustre agremiação, falamos da Escola Popular, que tinha o objetivo de levar a educação até as camadas mais pobres da população de Fortaleza. Lá diversos intelectuais proferiam palestras para o povo sobre diversos temas: desde a filosofia, política, artes etc. Havia até um curso de como ler o jornal, com a finalidade de identificar as sutilezas estratégias do discurso político, era uma forma de educação para a mídia no século XIX.
A escola popular era um dos órgãos disseminadores das ideias liberais, positivistas e anti-clericais sendo atacada pela elite tradicional e o clero, que perdia influência e poder na sociedade.
É muito significativo que esse embate entre o velho e o novo, nesse momento, se dê principalmente em torno da Escola. A Escola Popular, fundada pelos jovens acadêmicos, é chamada pelo jornal Tribuna Católica de Escola d’Impiedade. De um lado, a defesa da escola – e não da Igreja – como aparelho ideológico de massa. Uma escola popular afirma implicitamente o direito do povo em saber e participar. De outro lado, tudo é visto como ameaça: o progressismo ameaça a autoridade e vai nos levar à dissolução moral. Como garantir a obediência comum necessária à coesão, sem que a autoridade tenha estofo de divindade? O carisma de um chefe e da organização social que ele representa pode advir apenas de um contrato celebrado entre homens, entre iguais? (CORDEIRO, 1997, p. 30).
A questão religiosa, das liberdades individuais e coletivas, o racionalismo em oposição ao dogmatismo são umas das principais pautas dos periódicos locais e dos discursos
131 em praça pública. Ainda vemos nas duas indagações deixadas pela historiadora os indícios da mudança de regime, pois a república veio a substituir o império, podando os poderes da igreja, mas consolidando nos primeiros anos o poder militar.
O problema da liberdade, individual e coletiva, de pensamento e de costumes, oferece o pano de fundo aos grandes debates da época, e é a espinha dorsal do conjunto de mudanças em jogo. Tratava-se, como proclamavam os progressistas, de livrar-se do “padre” e do “soldado”, referindo-se à tutela da Igreja e do Estado. (CORDEIRO, 1997, p. 30).
Em meio ao jogo político e dos discursos entre clero e intelectuais positivistas, entre repúblicanos e monarquistas, entre progresso e higienização social, a cidade pulsava pelos seus ritos de calendário e tradições populares.
Nesse aspecto a religiosidade é traço marcante nas tradições de um povo, uma vez que o contato com o divino é característica antropológica das culturas. Em Fortaleza, assim como na maior parte do Brasil, o catolicismo é a religião mais expressiva, uma vez que nosso processo colonial teve como um de seus fundamentos o viés catequizador católico da Companhia de Jesus. Basta lembrarmos também, que quando Cabral aportou nessas terras, fincou uma cruz e mandou celebrar uma missa, além disso a primeira denominação geográfica dada pelo português foi ao Monte Pascoal, pois estávamos na época da comemoração cristã da Páscoa.
Não fugindo dessa herança católica, as celebrações da Quarema, Páscoa, Dias de Santos, o Natal e a festa de reis eram grandes eventos na cidade, e afetavam o cotidiano desde a elite até a classe menos abastada. Ainda podemos colocar no calendário festivo da cidade as quermesses e novenas promovidas pelas igrejas da capital. Dentre esses ritos o historiador e memorialista João Nogueira nos conta sobre o famoso Terço do Cruzeiro: Velha e tradicional devoção do povo da Fortaleza, da qual os últimos vestígios ainda se observam nas noites de segunda-feira, quando pessoas do povo acendem velas votivas e rezam, em silêncio, em frente o Cruzeiro da Sé. (NOGUEIRA, 1981, p. 68).
Símbolo da cidade naquela época, o Cruzeiro dá Sé não era apenas um altar de Igreja como nos fala o historiador, mas um local de pedidos de graças e promessas. Era um lugar de ligação com o divino, no qual vida e morte, e a memórias dos entes falecidos viam a habitar nas recordações dos vivos.
Os instrumentos da Paixão, as frases latinas inscritas no pedestal, a recordação de Frei Serafim, as almas do longínquo purgatório, a melopeia lúgubre das rezas e a majestade silente do Cruzeiro enchiam o espirito simples e devoto dos que ali se reuniam desse pavor secreto e indefinível, que sempre despertam as coisas que
132
sempre despertam as coisas que se predem ao mistério e a morte. (NOGUEIRA, 1981, p. 68).
Abaixo é possível ver entre a antiga igreja da sé de Fortaleza, hoje substituída por uma catedral de traços góticos e feita com pedras marinhas, e a estátua do Imperador Pedro II, o famoso cruzeiro, palco das novenas e terços no século XIX.
Figura 2 – Cruzeiro da Sé
Fonte: http://www.fortalezaemfotos.com.br/2011/05/as-igrejas-do-centro.html (2018)