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3.1 Roadblocks to be overcome

3.2.3 Individual Perception and Ambivalence

Com relação a serviços de download de material audiovisual, uma das formas mais utilizadas é o compartilhamento através da tecnologia torrent. Sites como The Pirate Bay, Torrentz, KickassTorrents, ExtraTorrent e isoHunt tem muitos acessos diários e estão com frequência na mira da justiça em função de serem um espaço de distribuição de material sob resguardo de direito autoral.

A criação desse protocolo foi um marco muito importante para o compartilhamento de arquivos na internet. Essa tecnologia, criada por Bram Cohen, permite que usuários troquem arquivos sem a necessidade de um servidor mediando e que utiliza a vontade que as pessoas tem de compartilhar conteúdo, como tratamos anteriormente, para que os materiais disponibilizados sejam mais compartilhados. Isso é vantajoso com relação ao download direto porque os usuários dependem apenas deles mesmos para compartilhar um conteúdo, e não de alguém (que, muitas vezes, pode ser uma empresa) para disponibilizar um material em um servidor. Como os arquivos pesados são divididos em pequenas partes e cada ponto da rede (ou seja, cada computador conectado à internet com o software do protocolo ativo e compartilhando o referido arquivo) é responsável por compartilhar uma parte do arquivo, funcionando como um servidor, quanto mais pessoas estiverem compartilhando um mesmo arquivo, mais rápido vai acontecer a transferência desse arquivo.

A empresa criada por Cohen – chamada de BitTorrent – utiliza a tecnologia com diversos propósitos e, a priori, não tem ligação com conteúdo pirata. Com o objetivo de entender as aplicações do torrent e o seu impacto para a cultura de compartilhamento de arquivos que vivemos atualmente, fizemos uma entrevista com Christian Averill, Diretor de Comunicações do BitTorrent, no dia 04 de junho de 2014 na sede da empresa, em San Francisco, CA, nos Estados Unidos. Essa entrevista encontra-se na íntegra no Apêndice A.

BitTorrent é um protocolo de internet, como o http (Hypertext Transfer Protocol). O http foi criado para que os usuários de internet pudessem

transferir textos ou pequenas imagens. Quando o protocolo http foi criado, ele bastava para transferir os pequenos arquivos, mas não seria eficiente para transferir arquivos maiores, já que a internet ainda era bastante instável. Pensando nesse problema, Bram Cohen criou, em 2001, um protocolo que pudesse transferir com eficiência uma grande quantidade de dados. Nesse contexto surgiu o BitTorrent.

A ideia de Cohen foi quebrar os arquivos em pequenos pedaços e distribuí-lo em diferentes lugares. Dessa forma, ao fazer o download de um arquivo, um usuário não o baixa de apenas um servidor, mas a troca acontece entre vários lugares diferentes. O arquivo é transferido para o computador do usuário através de um software comumente chamado de

cliente. Esse software se encarrega de pegar os arquivos que estão

quebrados em pequenas partes diferentes e juntá-los em um único arquivo – um filme, por exemplo. Nessa rede, cada um dos usuários que participa do download está também ajudando a transferi-lo para outro usuário, e cada usuário novo que entra em contato com o arquivo participa da mesma troca. Isso significa que, com o BitTorrent, os usuários dependem uns dos outros, e não mais de um servidor, para fazer download ou upload de um arquivo. Ou seja: quando vários usuários estão compartilhando o mesmo arquivo, a transferência não vai sofrer danos caso um dos usuários se desligue da internet ou do software do cliente. Essa premissa deixa de ser funcional quando diz respeito a arquivos pouco populares. Quando um arquivo tem apenas um seeder, outros usuários não conseguem fazer o download do arquivo caso esse único seeder se desligue da transferência.

Para Averill, a ideia básica do BitTorrent é que “quanto mais pessoas se unem, mais eficiente a transferência de dados se torna”125 (AVERILL, 2014, tradução nossa). Essa característica torna o BitTorrent vantajoso para a indústria do entretenimento. Quando muitas pessoas acessam um ponto específico, a tendência é que ele caia e não esteja mais disponível por algum tempo, até que uma parte das pessoas parem de acessá-lo. Com o protocolo, quanto mais pessoas acessarem um ponto específico, melhor, porque as pessoas que acessam o arquivo passam também a ajudar na sua

125

transferência para outros usuários. Averill cita que, em 2013, a cantora Beyoncé fez um lançamento surpresa de um álbum através do iTunes. Em função do grande número de acessos, a loja da Apple saiu do ar por várias horas. Se eles estivessem utilizando uma solução distribuída, o servidor não seria derrubado, pois o impacto desse número de acessos também é distribuído. Os usuários é que são a nuvem onde os arquivos estão armazenados.

Nesse sentido, a indústria pode utilizar o BitTorrent para divulgar suas obras. Segundo Averill (2014), um criador de conteúdo pode oferecer suas obras através de torrent utilizando os servidores do BitTorrent. Esses servidores funcionam como se fossem os primeiros seeders de um arquivo. Teoricamente, a partir do momento que o arquivo está publicado, os usuários se encarregam de compartilhá-lo.

A facilidade de transferir arquivos pesados involuntariamente levou o BitTorrent a ser um dos expoentes tecnológicos da pirataria de material audiovisual ao redor do mundo. Sobre essa questão relacionada ao uso do protocolo com um fim não-oficial, para transferir arquivos piratas, Averill comenta que isso acontece em função do protocolo ter seu código aberto. Ele justifica que a empresa não pode impedir que os usuários utilizem o protocolo para fins ilegais, mas que eles não têm relação nenhuma com esses arquivos. Averill (2014) acrescenta, ainda, que isso não é exclusividade do BitTorrent: as pessoas também exploram o protocolo http, o Google, o iTunes e etc. com esse mesmo fim.

A empresa acredita em uma internet de opções, não de regras. Sob o slogan “options, not rules”, o BitTorrent defende o livre discurso na internet, inovação e troca de ideias. O protocolo funciona com uma arquitetura descentralizada, em que os usuários trocam arquivos entre si, sem depender de um servidor fazendo a mediação dessa troca – o que é chamado de arquitetura peer-to-peer. Funcionando dessa forma (dando poder para o usuário), o próprio usuário é que define as regras do jogo, e o BitTorrent não tem controle sobre os arquivos compartilhados. Averill comenta que as empresas normalmente querem controlar tudo o que é compartilhado para, além de ficar com uma parte do que for vendido, também reter as informações dos usuários, capital de grande relevância no contexto atual.

Assim, quando um artista compartilha suas obras em canais como Amazon, iTunes ou Spotify, ele não tem relacionamento com o seu fã. Para Averill, o BitTorrent acredita que os artistas devem ter uma relação direta com seus fãs, sem intermédio das empresas, e isso é possível com o BitTorrent porque eles não controlam os dados dos usuários, deixando o artista livre para publicar o conteúdo que quiser e conversar com os usuários de forma livre.

Ainda pensando em uma internet de opções, não regras, o BitTorrent lançou uma novidade em 2014: agora os artistas podem criar e compartilhar torrents pagos. Essa novidade é vantajosa para o artista, que, além de ficar com 90% do dinheiro da venda dos torrents (MCGARRY, 2014), se relaciona diretamente com o fã através da arquitetura peer-to-peer. O primeiro caso de torrent pago foi lançado em setembro de 2014 pelo cantor Thom Yorke, que colocou à disposição seu álbum “Tomorrow's Modern Boxes”126 por U$ 6,00. Esse torrent foi colocado à disposição através do BitTorrent Bundle, uma plataforma criada pelo BitTorrent para que os artistas pudessem compartilhar suas obras gratuitamente através do protocolo, mas que nunca havia sido utilizada para compartilhar conteúdo pago. Apenas no primeiro final de semana desde o seu lançamento, o álbum de Thom Yorke atingiu 430.000 downloads ao redor do mundo (GARDNER, 2014).

O protocolo BitTorrent é um facilitador do compartilhamento de arquivos pesados e, portanto, em muitos casos, um facilitador da pirataria. Quando questionado sobre aparecer na mira da justiça, Averill (2014) explica que isso não acontece porque as entidades americanas como a MPAA e REAA sabem que a tecnologia do BitTorrent foi criada para usos legítimos e que a intenção nunca foi serem facilitadores da pirataria.

Nós não hospedamos conteúdo que infrinja as leis de direito autoral, nós não os promovemos, e nós não temos nenhuma afiliação com sites de pirataria. Então, nunca estivemos na mira da justiça e francamente nós provavelmente nunca vamos estar, porque nós nunca vamos ultrapassar essa linha127 (tradução nossa).

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O álbum é composto por oito músicas e um vídeo e está disponível na plataforma

BitTorrent Bundle, <https://bundles.bittorrent.com/bundles/tomorrowsmodernboxes>, acesso em: 14 out. 2014.

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Do original, “We don’t host copyright infringing content, we don’t promote it, and we have no affiliation with those piracy websites. So we’ve never been in the target of the copyright lawsuit and frankly we probably never will be, because we’ll never step over that line”.

Para o diretor de comunicações, por mais que pirataria não seja a intenção do BitTorrent, isso foge do controle da empresa, ainda mais porque o protocolo criado por Cohen é de código aberto. Isso significa que mesmo que a empresa terminasse, a pirataria não deixaria de acontecer.