2. Frame of reference
2.1. Incentives
2.1.1. Individual incentive systems
Localizada na região de Ribeirão Preto, a usina é resultado da diversificação das atividades da empresa controladora, que é do segmento da construção civil. Na safra 2001/2002, a usina moeu entre 800 mil e 1,2 milhão de toneladas de cana, sendo classificada como de médio porte. A fonte energética primária é o bagaço de cana, que é queimado nas fornalhas de três caldeiras, suprindo as quantidades de vapor necessárias ao acionamento das turbinas de preparo, o difusor, a turbina do terno de secagem, as turbobombas e para a geração de energia elétrica.
Utiliza-se para geração de energia o ciclo térmico de Rankine, aproveitando o vapor das caldeiras para acionar duas turbinas de contrapressão, às quais se acoplam, por meio de redutores de velocidade e dois geradores elétricos: um de 7.500 kVA (instalado em 1996) e outro de 3.750 kVA (instalado em 1986). São turbinas a vapor de contrapressão, de 21 quilos e de múltiplos estágios. O conjunto de geração está em operação desde 1986, sendo a energia gerada na tensão primária de 13,8 kV, atendendo praticamente a demanda da usina nos meses de safra. Na entressafra, a usina é atendida pela CPFL.
A eficiência produtiva é inferior à obtida com tecnologias de ponta, sendo gerado 530 quilos de vapor com uma tonelada de bagaço. As turbinas das moendas, por exemplo, são de único estágio e poderiam ocorrer investimentos em turbinas de múltiplos estágios, assim como ocorre com a geração de energia elétrica, fato que possibilitaria a produção de maior quantidade de vapor e, por conseqüência, economia de bagaço.
A unidade industrial necessita de vapor a 1,5 kg. Nesse caso, haveria necessidade de investimentos em válvula de turbo-pressão para promover a redução da pressão. Todavia, optou-se pela geração de energia elétrica, pois após gerar a energia elétrica, o vapor residual (de escape) é obtido justamente na pressão necessária para a unidade industrial (1,5 kg).
Assim, na visão do entrevistado, a venda de energia elétrica para a Companhia Paulista de Força e Luz tem um custo zero, pois o objetivo da firma seria obter vapor na pressão desejada e a geração de energia elétrica seria uma etapa necessária para atingir tal objetivo. Desse modo, a receita obtida com a venda de excedentes é considerada como sendo lucro líquido.
Segundo o entrevistado, se não houvesse a necessidade de vapor, a produção de excedentes de energia elétrica não seria viável economicamente, mostrando a importância da especificidade dos ativos nessa atividade. Ainda, conforme o entrevistado, considerando o preço do bagaço a R$ 20,00/tonelada e o preço ofertado pela CPFL de R$ 70,00/MWh, a venda do bagaço in natura seria mais atraente do que a geração de excedentes. De acordo com estudos elaborados pelo entrevistado, o break- even point (no qual receitas igualam-se aos custos) para que a usina queimasse bagaço apenas para geração de energia elétrica ocorreria quando o preço do MWh ofertado pela CPFL fosse de R$ 116,00.
A Figura 4.4 procura apresentar, de forma simplificada, o esquema produtivo da usina.
Fonte: Resultados de pesquisa (2003).
Figura 4.4 – Processo de geração de energia elétrica e vapor, Usina E.
Queima da biomassa Entrada de calor Caldeira T urbina Gerador Processo industrial e unidades administrativas Excedente
Energia elét rica
Energia elét rica Vapor (alt a pressão)
Apesar de a empresa vender excedentes para a CPFL, a estratégia principal continua sendo a de “gerar muito bem para a empresa”, semelhante a da Usina C, mas com a preocupação de manter uma capacidade estratégica ociosa para o futuro. Para atender essa estratégia, conforme mencionado, há necessidade de gerar energia elétrica para promover a redução do vapor, na pressão específica à unidade industrial. Porém, as necessidades de energia elétrica para a unidade industrial são inferiores à geração total de eletricidade. Assim, há excedentes que são comercializados à distribuidora local.
Não obstante, de acordo com o entrevistado, o objetivo principal ainda é atender as necessidades de vapor de baixa pressão da usina. Não seria interessante à usina fechar contratos para gerar excedentes acima do atual, pois haveria necessidade de queima de uma quantidade maior de bagaço e o vapor residual (de escape), considerando que a unidade industrial já é auto-suficiente, não seria aproveitado e, segundo o entrevistado, a queima do bagaço com o objetivo único de gerar excedentes de energia elétrica não é viável economicamente, pois o preço de venda do bagaço in natura ainda é atraente na região.
Em suma, o objetivo da engenharia industrial tem sido o de gerar vapor de escape de baixa pressão para a unidade produtiva. Como conseqüência, ocorre a geração de eletricidade para a unidade industrial e o excedente tem sido comercializado à distribuidora local. Quando ocorre a geração de vapor acima das necessidades industriais, na visão do entrevistado, está ocorrendo a queima desnecessária de bagaço e o processo precisa ser ajustado de forma a manter somente o atendimento à auto- suficiência.
A comercialização de excedentes ocorre desde 2001, quando do advento da crise de energia, sendo a CPFL a única compradora. Até dezembro de 2002, o contrato da CPFL previa a compra de 900 MWh, ao preço de R$ 70,00/MWh, reajustado anualmente pelo IGPM. A CPFL ofereceu o contrato pelo prazo de dez anos, mas a diretoria da usina considerou o prazo de cinco anos mais adequado, pois acreditava que o cenário da crise de energia poderia apresentar continuidade.
Na safra 2002/2003, a usina estava gerando entre 1.100 MWh e 1.200 MWh, bem superior aos 900 MWh contratados. Até janeiro de 2003, o excedente ao contratado era comercializado ao mesmo preço de R$ 70,00/MWh. Todavia, a partir daquela data, a CPFL unilateralmente propunha aditar o contrato no sentido de pagar o excedente aos 900 MWh o valor vigente no mercado spot, na época R$ 5,00 o MWh.
De acordo com o entrevistado, a CPFL exerce um poder de monopsônio devido à questão dos investimentos que seriam necessários para promover a venda a outros agentes do setor elétrico: no caso, seria necessária a construção de uma subestação elevadora (pois a usina gera em 13,8 kV e seria preciso transmitir em 138 kV) e de uma linha de transmissão até a subestação mais próxima da CPFL, distante cerca de dez quilômetros da usina sucroalcooleira, já que a linha de distribuição da CPFL está no limite da capacidade de transporte, de acordo com a distribuidora. O custo desses investimentos seria de responsabilidade do agente sucroalcooleiro, sendo uma forte barreira à entrada na comercialização a outros agentes do setor.
Existe sobra de bagaço que é comercializada essencialmente com a fábrica de papel e celulose Rio Pardo, localizada em Santa Rita do Passa Quatro. Há, ainda, a formação de estoque de bagaço, que é poupado para promover a partida nas caldeiras no início de cada safra. De acordo com o entrevistado, o mercado de bagaço in natura é demandante: “o que tivermos de bagaço, o mercado compra”. A colheita mecanizada representa aproximadamente 25% do total. Não ocorre o aproveitamento das palhas e ponteiros por dois motivos principais: pela função que os resíduos cumprem na preservação do solo e pelos investimentos que seriam necessários para o seu aproveitamento (enfardadora, caminhões para transporte dos fardos, mão-de-obra para separar o fardo etc.).
Para o entrevistado, a maximização da geração de energia elétrica em uma usina sucroalcooleira (melhor aproveitamento do bagaço e das palhas e ponteiros) depende da situação do setor elétrico, mas também é fortemente influenciada pela capacidade e desejo de investimento do agente sucroalcooleiro e isso estaria fortemente relacionado com o retorno financeiro das atividades do core business do setor (produção de açúcar e álcool). Estando o setor capitalizado, geralmente ocorrem investimentos no aprimoramento tecnológico para a geração de energia (com melhor aproveitamento do bagaço e das palhas e ponteiros), até para criar capacidade de geração preventiva.
Paradoxalmente, a situação do setor elétrico passa a ser a variável importante quando os negócios centrais do setor sucroalcooleiro apresentam resultados insatisfatórios. Nesse caso, o agente sucroalcooleiro busca alternativas para manter a rentabilidade mínima exigida pelos acionistas, procurando diversificar as atividades com geração de energia elétrica ou venda de bagaço.
Em relação ao mercado de créditos de carbono, os custos envolvidos na certificação são considerados fortes barreiras à entrada nesse mercado. Todavia, o fato agravante tem sido o estágio atual desse mercado, onde a falta de liquidez na comercialização dos créditos é freqüente. Dessa forma, considerando que as empresas certificadoras têm adotado a estratégia de cobrança de seus serviços antes da venda efetiva dos créditos, a diretoria da usina, apesar de estudar o assunto, tem adotado a estratégia de aguardar até o momento em que esse mercado apresente mais liquidez para não incorrer em sunk costs.
Ainda, na opinião do entrevistado, a venda do bagaço in natura é mais promissora do que a da energia elétrica. Mesmo com investimentos em eficiência energética (que poupem bagaço), algumas usinas que adotaram a estratégia de queimar bagaço para geração de energia elétrica deverão comprar bagaço no mercado para cumprimento de seus contratos com as distribuidoras locais, fato que deverá elevar o preço do bagaço in natura, momento em que as empresas optantes pela comercialização do bagaço in natura poderão auferir lucros extraordinários. Para o entrevistado, mesmo que o core business da usina apresente baixa performance, a usina não deverá alterar a estratégia de “gerar muito bem para a empresa” para a estratégia de “queimar bagaço para geração de energia elétrica”, pois considera o mercado de venda de bagaço in natura mais atraente do que gerar energia para o setor elétrico.