O momento atual da modernidade100, além de posterior a uma era gestada ao longo de séculos, é significativamente marcado pela emergência de fenômenos que, ora retratam a radicalização ou o enfraquecimento de características, há muito, evidentes, ora refletem transformações tão acentuadas quanto processadas em velocidade semelhante àquela que assistimos na correria dos centros urbanos. A definição dessa época, teorizada por vários autores, é extensa, mas apenas para citar alguns dos aspectos de maior visibilidade e mais recorrentemente constatados, podemos apontar:
a ênfase, ainda maior, aos ideais individualistas de autonomia, de liberdade pessoal e de autorrealização, em oposição àqueles de caráter grupal e de natureza coletiva;
100 Não há, entre os autores, consenso a respeito de uma data que estabeleça o início de uma nova modernidade.
A designação do termo que a define é, também, variada. Como existem implicações, inclusive, semânticas nessa definição, refiro-me ao momento atual das sociedades ocidentais, processado desde as últimas décadas do século XX, apenas para marcá-lo do ponto de vista temporal, com expressões, como: pós-modernidade, nova modernidade, era pós-industrial, contemporaneidade ou, mesmo, atualidade.
o alto investimento em novas tecnologias, a diversificação das mídias e do acesso rápido à informação;
a padronização da estética, a supervalorização do consumo, da aparência e dos símbolos de poder econômico;
o interesse contínuo pela busca (também padronizada) de bem estar, de felicidade, de lazer e de longevidade101.
A leitura interpretativa desses e de outros fenômenos emergentes nessa era pós- industrial é, igualmente, variada e comporta versões que, mesmo interligadas, assinalam diferenças que não permitem generalizações. A fim de evitá-las, prefiro, novamente, limitar- me à abordagem focal de algumas ideias que compõem as análises empreendidas no presente trabalho.
A ascensão crescente do individualismo, como decorrência de um descrédito generalizado em torno dos projetos coletivos, é, reiteradamente, apontada como uma das principais características da chamada era pós-moderna de nossa civilização. Lasch102, ao empreender uma análise histórico-filosófica sobre a realidade norte-americana, evoca, dentre outros princípios psicanalíticos, a noção freudiana de narcisismo para descrever e para interpretar a pregnância de valores individualistas naquela sociedade. Como parte de suas reflexões apontam para a emergência, relativamente simultânea, de características comuns nas sociedades ocidentais das ultimas décadas do século XX, e como, em grande medida, as suas ideias são frequentemente convocadas ao debate psicanalítico sobre a atualidade das interrelações, remeto-me, aqui, a algumas de suas considerações sobre as características de uma sociedade marcada pelo que ele denomina de “cultura do narcisismo”.
Integrado à lógica competitiva do capitalismo, o culto narcísico do ego, reflete, segundo o autor, o cultivo incessante de uma imagem idealizada de si mesmo e detentora de uma potência imaginária como a única capaz de alcançar o sucesso prometido pelo sistema e
101 Essas características, sinteticamente descritas, são algumas das mais apontadas nos textos especializados.
Lipovetsky faz referências a elas, ao marcar as especificidades de suas posições sobre esses tempos, que ele chama de “hipermodernos” (LIPOVETSKY, Gilles. Os Tempos Hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.).
102 LASCH, C. A cultura do narcisismo: a vida americana numa era de esperanças em declínio. Rio de Janeiro:
de superar as tensões e os medos que advêm com essa busca. O narcisismo, como dimensão constitutiva da subjetividade, coloca-se aí no centro de uma relação dialética entre o indivíduo e a sociedade, sendo portanto, uma tentativa de defesa de um ego constantemente abalado e desiludido, diante de uma cultura que não para de incitar o seu afloramento.
Nessa sociedade, como o interesse é, para o autor, centrado no presente, vigora uma tendência constante de negação do passado e da tradição e, igualmente, uma descrença no porvir do futuro. Como a ordem é buscar satisfações imediatas, o consumo é uma das grandes promessas que acenam para o fortalecimento tanto dos princípios hedonistas de felicidade e de prazer, quanto daqueles que preservam a imagem perfeita de um ego ilusoriamente acalentado. No plano da socialização domina a “ética da sobrevivência”, pois a preocupação maior é centrada nos interesses pessoais e naqueles restritos ao grupo de pertinência do indivíduo e, correlativamente, o descompromisso com preceitos de justiça social voltados ao conjunto da coletividade. Nesse cenário, as interrelações tendem a ser marcadamente idealizadas, sendo o outro menos reconhecido em sua alteridade do tratado como veículo de autossatisfação narcísica para um sujeito que, nessas condições, diante do desamparo, torna-se extremamente vulnerável, abatido, ansioso e entediado. Desse quadro decorre, para Lasch que as neuroses de transferência que dominavam as afecções psicopatológicas quando do advento da psicanálise, dão lugar ao predomínio das desordens narcísicas, das somatizações e das múltiplas adicções.
Sob olhar de Lasch, as relações familiares não escapam desse panorama. Ao contrário, nessa cultura, o componente narcísico da relação dos pais com os filhos assume uma tal proporção que acaba resultando em um distanciamento emocional entre eles. Primeiro pelo inflacionamento imaginário do veículo narcísico com os filhos e pela projeção de uma imagem que é altamente marcada pela cultura vigente. Segundo, pela descrença dos pais em relação a sua capacidade de lidar com os descendentes, delegando a terceiros, além da escola, a tarefa de educá-los ou de orientar essa educação, já que tendem a desvalorizar a tradição e a desqualificar essa transmissão à geração seguinte. Com isso, os vínculos tornam-se significativamente mais frágeis, mesmo sendo movidos pela intensidade do amor – que, no fundo, centra-se mais no ego do que no outro – e inclinados a uma atribuição de privilégio e de primazia dos filhos.
As ideias de Lasch, esboçadas aqui apenas de maneira parcial e muito sinteticamente, tornam-se eixos importantes à produção de novos pensamentos sobre a natureza dos vínculos atuais e, inclusive, daqueles vividos na esfera familiar. Algumas de suas posições, não imunes a críticas, são reiteradas em análises desenvolvidas por diversos autores, ainda que de forma limitada, pela abordagem de contextos diferentes daquele de origem a pela emergência de novos fenômenos. Esses, evidentemente, ora corroboram e até fortalecem peso das teses laschnianas e ora conferem a elas, uma devida relatividade. De todo o modo, as questões levantadas pelo autor integram o debate atual em torno das novas modalidades dos laços afetivos e sociais e das formas de mal estar que prevalecem na psicopatologia contemporânea; debate no qual o conhecimento psicanalítico não apenas é recorrentemente convocado como, não raramente, é de seu próprio campo que advém muitas das ideias, hoje veiculadas.
Adentrar, com profundidade, na discussão dessas ideias não corresponde aos objetivos do presente trabalho. Mas, ao inclinar-me sobre os vínculos parentais – especialmente paternos – estabelecidos com a criança e, extensivamente, sobre as possibilidades que essa criança encontra para construir novos laços sociais, não posso furtar- me à tarefa de compreender os modos prevalentes de inscrição desses vínculos na cultura atual – já diversa, como vimos, sob vários aspectos, daquela na qual a psicanálise foi gerada.
Antes disso, contudo, penso que vale aqui uma certa digressão. Primeiro, para refletir um pouco mais, sobre a pertinência da contextualização em estudos que, centrados sob o ponto de vista psicanalítico, retratam de maneira muito evidente, a confluência de elementos subjetivos com outros, de cunho social. Depois, para situar algumas circunscrições envolvidas na leitura psicanalítica dos fenômenos culturais.
4. A abordagem psicanalítica de fenômenos sociais: reflexões sobre