4.6 Analysis using linear models
4.6.2 Including genetic covariates
Embora, existam inúmeros processos em todo o Brasil com o intuito de reconhecimento de uma União Homoafetiva como família, ainda é bastante comum em nossa região a ausência de demanda, por motivos semelhantes, ou seja, preconceito, desconhecimento da família, dentre outros.
Nesse contexto, foram identificados diversos elementos relevantes e marcadores sociológicos que ilustram as razões pelas quais as pessoas que necessitam de tais direitos muitas vezes deixam de buscar o Poder Judiciário ou mesmo os Cartórios Extrajudiciais com o intuito de registrar suas uniões, garantindo assim seus direitos.
Foram realizadas quatro entrevistas com casais homoafetivas de diferentes regiões, sendo duas formadas por mulheres e duas por homens, cada uma delas com características diferentes e foram extraídas diversos elementos que marcam os temas já tratados nos tópicos acima escritos.
5.1 “Maria” e “Heloísa”
A primeira entrevista foi realizada em uma casa localizada em um bairro de classe média alta, na cidade de São Luís, de uma mulher, à qual dei o nome de “Maria”, de 27 (vinte e sete) anos de idade, que convive em uma União Homoafetiva há quatro anos com outra mulher nominada como “Heloísa”, de 33 (trinta e três) anos de idade, ambas com nível superior completo. Maria é graduada em administração de empresas e sua companheira em Engenharia Elétrica.
A casa onde moram possui três quartos e uma área de lazer pequena, com piscina e quintal. Existem muitas plantas e muitos objetos de decoração, mas não existiam fotos da entrevistada, somente de sua companheira e de seu filho.
A entrevista foi realizada no sofá, na sala e a entrevistada estava bem à vontade, sem a presença de sua companheira. Comentou que chegaria uma colega dentro uma hora.
No início, as perguntas foram gravadas, mas após um determinado momento a entrevistada não se sentiu mais à vontade com o fato e pediu que a
mesma fosse desgravada e que eu passasse apenas a anotar as informações necessárias. Foi explicado que não seriam revelados nome, endereço, nem locais de trabalho ou estudo, mas ainda assim ela pediu que eu não mais gravasse a conversa.
Você mora junto com sua companheira há quanto tempo e como você a classificaria: Parceira? Esposa? Companheira? Amante? Amiga?
Moramos juntas há 04 (quatro) anos. Acho que Companheira, pois não somos casadas no papel, só moramos juntas, é diferente. É diferente de ser casada, pois só a gente sabe.
E as famílias de vocês como reagem?
Nossas famílias não sabem. A minha nem desconfia. Se minha mãe sabe, me mata... Ela mora em Itapecuru, não sabe de nada. Mas não gosta de Heloísa, morre de ciúmes. Pensa que somos só amigas. Jamais teria coragem de contar. Ela acha que estou estudando para concurso e dividindo apartamento com Heloisa. A família dela também não sabe, ou pelo menos finge que não, mas acham esquisito, pois depois do marido, ela não teve nenhum namorado. O filho de Heloísa ainda não sabe. Acho que quando ele tiver uns 10 anos saberá com certeza. Quando tinha uns cinco anos perguntou porque eu não dormia no meu quarto e dormia no quarto da mãe dele, respondi que era meu quarto também e ele teimou e ficou indignado, quase que defendendo a “propriedade” do quarto da mãe, afirmando ser da mãe. Eu me calei e não discuti, não discuto com criança.
Você tem um bom relacionamento com a família da sua companheira?
Tenho com o filho dela. Na verdade muito bom. Eu ensino o dever de casa, pois a Heloísa trabalha o dia inteiro, a empresa é muito longe, então quando ela chega, eu já peguei na aula de inglês e já fizemos as tarefas. Às vezes eu o coloco para dormir e às vezes ele dorme na nossa cama. Com a irmã de Heloísa também é bem legal, pois ela sabe da gente. Ela é minha amigona, gosta de mim e é madrinha do Paulinho, filho de Heloísa, logo como o menino é louco por mim ela aceita e não fala nada... Mas pede pra gente não contar para ninguém que ela sabe, porque o marido dela sabe e não suporta a gente, só chama a gente de sapatão. Ele é tão enjoado que não deixa ela vir aqui em casa pra conversar. Um saco!
Você já teve outros relacionamentos com mulheres?
Já, dois, mas nada sério, só mesmo “fiquei”. Namorar, somente com um menino, quando eu tinha 18 anos, namoramos por um ano e meio mais ou menos. Fiquei com alguns meninos na adolescência, e com meninas, fiquei com duas, além da Heloísa. Uma delas a Heloísa odeia, a Ana. Ela morre de ciúmes da Ana, diz que não me quer falando com ela no “face” ou no “MSN”. Mas às vezes, a gente se encontra em Itapecuru, quando eu vou visitar meus pais em Brasília. Sempre brigo com Heloísa nessas viagens, mas não tem jeito, eu e Ana temos uma “paixonite aguda” que nos une desde a adolescência, basta a gente se olhar e pronto!!! Meus pais nunca souberam da Ana. Pensam que ela também é só uma “amiga”. Ana namora, tá até noiva, imagina? Essa louca... Heloísa nem sonha dessa menina Ela pensa que a Ana não gosta mais de mulher.
Você já entrou na justiça alguma vez para pedir alguma coisa? A União de vocês por exemplo?
Já uma vez no Juizado Especial, quando a Cemar cortou minha luz indevidamente. Pedi danos morais e ganhei R$ 2.500,00 (Dois mil e quinhentos reais). Quanto a nossa união, acho que só meus pais iriam me matar... Principalmente minha mãe... Jamais eles entenderiam... Acho que seria em vão...Eles não mandariam mais dinheiro, seria um fracasso minha vida. Sabe, eu estudo para concurso e estou desempregada. Minha mãe me ajuda com R$1.000,00 e paga meu cursinho. Pagou minha pós, mas eu não consegui emprego... Heloisa ganha bem, mais de R$ 3.000,00 (três mil por mês). Mas não daria para manter nós duas, nem ela deixaria de dar as coisas para o Paulinho para comprar roupa, sapato, para mim. Dependo da minha mãe e do meu pai, sei que é difícil dizer isso, porque eu já tenho 27 (vinte e sete ) anos, mas é a verdade. Não acho que mudaria nada. Acho que só ficaria com vergonha de todo mundo...
Como vocês dividem as tarefas domésticas? Como funciona o cotidiano de vocês?
De manhã, eu vou para a aula. Eu almoço perto do cursinho em um self- service e Heloisa lá na empresa em que trabalha. O Paulinho almoça na casa da madrinha dele todo dia, só não sábado e domingo. No final de semana, eu faço o
almoço. A casa eu limpo e coloco a roupa na máquina. Às vezes chamamos a diarista para ajudar.
Quem paga as contas da casa?
Nós duas. Mas Heloísa paga mais. Aqui tudo é nome dela. A luz, a Caema, a Oi, o aluguel... Ela já morava aqui quando eu cheguei. Às vezes me incomodo com esse fato quando tenho que comprovar residência. Sempre levo minha conta de celular. É meu único comprovante de endereço. Às vezes não aceitam.
Como vocês se conheceram?
Na Pós-Graduação. A Heloisa ainda era casada e eu já sabia da minha condição... Me interessei de cara...Ela é atraente, engraçada. Ela nem ligou no início, nem sonhava em ter caso com mulher. Mas já estava mal com o marido. Eles brigavam muito e ele era muito grosseiro com ela. Uma vez ele bateu nela. O Paulinho tinha 01 ano, não se lembra, mas foi na frente dele. Ele é bruto demais... Até hoje... Ele quando vem buscar o Paulinho, só falta me bater, me olha atravessado e mal fala comigo, deve saber, não temos nenhuma certeza, mas deve saber...
Nesse momento da entrevista, Maria pediu para eu anotar as informações e desgravar a conversa. Foi explicado que a finalidade era meramente científica e o uso era restrito a pesquisa, mas ainda assim, não concordou mais em continuar gravando e pediu para eu trocar os nomes e não gravar mais, pois ela não estava se sentindo bem. A companheira não sabia da entrevista, estava viajando a trabalho e o filho dela estava na casa da madrinha (tia). Ainda assim a entrevista continuou, somente com anotações, sem o gravador:
...não é por nada não, mas a Heloisa não sabe, nem pode sonhar que eu tô aqui com você. Ela não deixaria por causa do Paulinho. Ele é a vida dela, qualquer coisa que o magoasse ela me deixaria. Ela vive dizendo que ninguém é mais importante do que ele. Eu entendo, embora não tenha filho, mas entendo, vejo o quanto ela é boa mãe.
Neste momento houve uma pausa. A entrevistada ofereceu água, refrigerante e biscoito. Fizemos um pequeno lanche e a colega da entrevistada chega e ela pede que a mesma aguarde no quarto. A entrevista segue de forma um
pouco mais apressada e tensa. Foi perguntado se a entrevistada gostaria de continuar em outro momento, mas ela quis que fosse dado continuação.
A Heloisa foi infiel com o marido, mantendo uma relação com você.
A entrevistada fez uma pausa, respirou fundo e continuou...
...não, ela já tinha se separado, quando ficamos a primeira vez. Mas já existia uma atração muito forte. Só sentávamos juntas na aula, fazíamos todos os trabalhos juntas, eu geralmente ajudava muito ela, porque ela tinha o emprego, o Paulinho, o marido... Ela ia para o meu apartamento e ficávamos até tarde juntas. O nosso primeiro encontro foi lá. Um dia tomamos uma caixa de cerveja juntas e ficamos “altas”. Depois eu convidei a Heloisa para uma festinha de despedida de uma amiga nossa que ia embora de São Luís, ia morar em Belém e aí ela ficou mais tempo do que devia e rolou... Neste dia nos beijamos e transamos pela primeira vez. Foi tudo de uma vez só. Foi ótimo. Nem parecia que eu tinha sido a “primeira” da Heloísa. Até hoje eu não acredito nessa história.... Parece que ela já era experiente, não sei porque...
Quando foram morar juntas?
Depois de um ano que estávamos juntas, fui demitida da empresa que trabalhava. Aí não consegui mais ficar no meu “AP”. Ficou caro demais, muita despesa. A Heloísa me convidou para dividir a casa com ela, pois a casa tinha 03 quartos e morava ela e o filho. Falei com o meu pai e ele me pediu para ficar lá com ela, até eu arrumar outro emprego, mas claro que como amiga. Cada uma no seu quarto.
Você pensa em ter filhos?
Penso sim. Penso em ter 2 filhos, um menino e uma menina. Penso em inseminação artificial. Quero ficar grávida. Morro de vontade. A Heloísa diz que foi a melhor coisa que aconteceu na vida dela. Ela me incentiva muito. Depois que eu passar no concurso quero engravidar, já estou perto dos 30 e casar não está nos meus planos.
Você considera sua relação com Heloísa uma família?
Sim, mas não consigo ainda falar com meus pais... Isso é muito ruim. Sofro muito. Eles querem que eu volte para Itapecuru...
Na entrevista percebi uma nítida divisão feita pela entrevistada entre pessoas casadas (oficialmente, com documento de certidão de casamento) e pessoas solteiras.
A entrevistada faz a sua própria definição de casamento e define a sua relação completamente fora dessa esfera, tratando a o casamento como oficial e legal e define o seu relacionamento como algo muito particular, privado, sem publicidade.
Assim, a não publicização da união no contexto das famílias de ambas aponta para o “não legal” oficialmente; a proibição social que causa vergonha e sofrimento demarca a presença da “abjeção”.
A entrevistada faz a diferença entre uma família tida como “tradicional” e uma família “homoafetiva”, já definidas anteriormente, momento em que ela claramente chama a família onde nasceu de “família” e a família em que vive de “união” ou “relacionamento”.
Notei também certa “competição” com o filho da companheira, ou seja, embora tenha um relacionamento bom a criança, não admite um vínculo de filiação com ele, mas de amizade.
Nesse contexto, restou claro que na visão da entrevistada, a monogamia é um elemento fundamental e que o mesmo quando violado era de forma sigilosa, ou seja, “ilegal” para o sistema normativo estabelecido entre a entrevistada e sua companheira.
Percebi a descrença da entrevistada na justiça, no que tange aos seus direitos enquanto família com a sua companheira. Tal fato não se dá por ignorância das mesmas ou desinformação, mas principalmente por questões pré-definidas em sua família de origem, tais como a definição do conceito “tradicional” de família (pai, mãe e filhos); pré-conceitos acerca de “sexo” e “gênero” e especialmente pela questão pessoal de uma “auto definição” de dentro de um sistema normativo pré- estabelecido, capaz de fazer com que a entrevistada “isole” de parte do grupo social que convive a sua condição enquanto família homoafetiva.
Os papéis familiares são muito bem definidos pela entrevistada. Percebe- se que ela representa o modelo familiar que apreendeu em sua vida desde a infância: “a família tradicional”.
O comprovante de endereço para a entrevistada representa uma certa “apropriação” da sua condição. Uma vez que a entrevistada possuísse um mesmo comprovante de endereço da sua companheira, haveria uma comprovação “por escrito” que moravam juntas.
Existe também o “encantamento” da entrevistada com a sua companheira e uma relação de poder desta sobre a entrevistada, especialmente acerca de padrões estéticos de beleza estabelecidos pela sociedade ocidental, aos quais a entrevistada não se adequava e a sua companheira sim.
A relação da entrevistada com o ex-marido da sua companheira é de muito rancor, pelas agressões físicas e psicológicas que a mesma sofria enquanto casada.
Quanto ao aspecto da filiação, percebemos que a gravidez é tida para a entrevistada como condição. Ela deseja gerar um filho e não criar um filho gerado por qualquer outro alguém.
Já a “falta de coragem” de assumir a união para as famílias, representa algo pessoal, ou seja, a entrevistada não consegue assumir para ela mesma a sua condição enquanto família homoafetiva, nem tampouco “contar” para os pais, embora fique claro que os mesmos tem conhecimento, mas preferem ficar omissos acerca do assunto, traduzindo a ideia/concepção de que um relacionamento conjugal de parceria amorosa, não sendo legitimado pelo casamento, não pode ser designado como família.
5.2 “Joana” e “Fabiana”
A segunda entrevista foi realizada em um Shopping Center, na cidade de São Luís, em um ambiente bastante informal, por opção da entrevistada, tendo em vista ter sido sugerida a sua casa e esta informar que a mesma estava em reforma, não podendo receber ninguém no momento.
A entrevistada foi uma mulher, à qual dei o nome de “Joana”, de 42 (quarenta e dois) anos de idade, que convive em uma União Homoafetiva há nove anos com outra mulher nominada de “Fabiana”, de 34 (trinta e quatro) anos de idade, ambas com nível médio completo e residentes em um bairro de classe média
baixa na cidade de São Luís-MA, sendo a primeira (a entrevistada), autônoma, trabalha com marketing em empresas e a segunda, a companheira da entrevistada, vendedora em uma loja.
Foi explicado para a entrevistada que não seriam revelados nome, endereço, nem locais de trabalho ou estudo.
Você mora junto com sua companheira há quanto tempo? Como você classificaria sua companheira: Parceira? Esposa? Companheira? Amante? Amiga?
Na verdade eu vivo com Fabiana há 09 anos e com os meus filhos, mas nunca me separei no papel do meu ex-marido, aquele “sacana”. Ele foi um “sacana” comigo e com as crianças. Ele nunca deu nada pra eles desde que me separei. Comigo, sempre me tratou mal enquanto eu era casada. Até na cara me bateu uma vez!
A entrevistada conta, demonstrando bastante revolta com o ex-marido que não recebe nenhuma “ajuda” financeira do pai dos seus filhos para o sustento dos mesmos, assim como ele os vê de forma esporádica.
Como reagem as famílias de vocês sabem?
Sabem, mas não gostam, na verdade não suportam...
A entrevistada, embora diga que as famílias não gostam, não aparenta se importar com o assunto.
Já a minha filha mais velha de 15 anos sabe, mas não gosta. Me provoca o tempo todo. O mais novo tem só 10, se sabe, não entende, já foi criado vendo Fabiana. Uma vez ela me perguntou, aí eu desconversei, só disse que éramos amigas. Mas eu sei que ela sabe, porque uma vez eu ouvi uma conversa dela com uma amiga da escola e ela contava que a mãe era “um macho” em casa e que tinha “mulher e tudo”. Não consigo conversar com ela sobre nada! O idade! Aborrescência... como dizem né... Ela pergunta, meio que me provocando, jogando indiretas meio diretas, sabe, como se ela não entendesse, tipo assim: “Mãe, você não dorme mais só é? Mãe, você não tem namorado não é? Papai é casado há um tempão e você não se casa... com homem.” Uma vez ela disse que eu era sapatão aí eu bati na boca dela com o chinelo e disse para ela me respeitar, pois eu não admitia esse palavrão em casa. Eu sou evangélica e na minha igreja não pode dizer essas coisas. Já o meu filho menor não sabe dessas coisas não. Ele só implica por
que eu não durmo com ele. Ele é medroso, não dorme só, aí vai pro quarto da irmã toda noite, porque, eu durmo de porta trancada.
Na igreja, como o pastor reage?
Não sabe de jeito nenhum! Não é permitido essas coisas na igreja, mas é coisa da carne né, não podemos evitar, não precisa ninguém saber por lá. Fabiana não frequenta a igreja. Ela já foi umas vezes, mas não gosta. Eu não obrigo, religião é coisa de cada um, é muito pessoal né.
Você já teve outros relacionamentos com mulheres?
Já tive uma relação sexual, uma vez antes de casar, mas nem o meu marido soube. Mas relacionamento sério foi só com Fabiana mesmo. Foi com uma menina na escola uma vez. Eu tinha uns 17 anos, jogava vôlei. Foi depois de um campeonato entre escolas. Nós ganhamos, aí eu e minha colega resolvemos beber cerveja para comemorar. Aí depois fui dormir na casa dela e aconteceu. Fabiana sabe. Eu contei para ela que não tinha muita experiência com mulher, porque ela já teve outras namoradas. Nunca foi casada com homem e não tem filhos. Ela é bem experiente. Já foi até casada, ou melhor morou junto com outra mulher, porque a gente não pode casar né...mas não teve uma boa experiência, porque quando se separou ficou com uma mão na frente e outra atrás. A gente não tem direito a nada mesmo. A casa que ela ajudou a pagar e mobiliar ficou com a outra. O carro dela era no nome da outra, porque na época ela estava com o nome sujo e não poderia tirar o carro no nome dela.
Vocês já entraram na justiça alguma vez?
Eu já fui na delegacia quando sofria violência do meu marido. Ele era muito “cavalo” comigo. Ele me batia muito, na frente da menina. Ela via muita grosseria. Ele me dava bofetada na cara quando chegava bêbado e eu não tava em casa. Eu tava no serviço, mas ele achava que era farra. Todo homem é assim! Por isso não gosto de homens! Eu já fui na delegacia três vezes. Da primeira vez em 1999, ele me pediu perdão na frente da delegada e eu perdoei. Da segunda foi em 2001, ele só me empurrou e fez eu dizer para a delegada que não foi nada. Da última foi em 2003, foi quando a gente se separou. Foi pior, porque ele quebrou meu braço e deixou meu corpo todo inchado e escuro de tanta pancada. Na última vez que eu fui na delegacia, ele não foi e não deu em nada. A delegada disse que ele
não foi encontrado, mas todo mundo sabe que ele mora em Rosário com uma mulher, tem até filho. Nunca foi preso.
Já Fabiana nunca entrou na justiça, pois acha que é perda de tempo, porque tem muita gente que entra e não ganha nada, só passa vergonha. Ela também sofreu muito com a antiga mulher né. Ela apanhava muito. Ela não tinha vida. Era praticamente uma empregada. Cozinhava, lavava, passava, limpava a casa, tudo... e “a outra” só explorava ela... A outra tinha até namorada fora e ela nem se importava. Se Fabiana não fizesse o que ela queria, ela batia em Fabiana. Uma vez nós saímos juntas, só como amigas mesmo, Fabiana apanhou muito. Ela bateu até na cabeça dela e Fabiana nunca procurou uma delegacia.
Vocês sabiam que a Lei Maria da Penha protege a mulher da violência doméstica?
Nós não sabíamos que essa Lei protegia mulher com mulher. A televisão só mostra a defesa de violência de homem contra mulher, nunca pensei que violência de mulher contra mulher valia também. Agora eu já sei, tenho uma colega que apanha muito também, vou dizer para ela ir na delegada.
Tomamos um café e água e depois de um tempo voltamos às perguntas.