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In document Concierge Masters (sider 164-175)

Intuindo uma melhor abordagem da temática em estudo, realizamos um levantamento das produções teóricas que tratam da temática investigada. Depois dessa análise e objetivando apreciar o contexto histórico, social e político da Alfabetização nos anos iniciais da década de 1960, à luz dos discursos com os quais dialogamos, incluímos participações nos eventos que culminaram com as comemorações dos “50 anos das 40 Horas de Angicos”, bem como entrevistas e conversas desenvolvidas com pessoas relacionadas à pedagogia freireana. Esses eventos, textos, entrevistas e conversas realizadas contribuíram para nos aproximar mais das pistas histórico-documentais que nos deram base e nos permitiram refletir sobre os significados que a experiência de Angicos trouxe para a educação popular no Brasil.

Quanto aos instrumentos para produção de dados, utilizamos acervo documental e bibliográfico, retidos em bibliotecas in loco ou online, em visitas realizadas ao Instituto Paulo Freire, em São Paulo e no Centro de Referência Paulo Freire, em Recife; ainda, participamos de seminários e palestras que tinham como principal foco a temática estudada. Além disso, realizamos entrevistas – conversas – informais, dada a sua flexibilidade, enquanto técnica de produção de dados de que dispõem as ciências sociais, através do uso da História Oral. (HAGUETTE, 1992, p. 95).

Por isso, usamos câmeras digitais para fotos e vídeos, bem como gravadores. A entrevista, a conversa, a audição, o relato dos sujeitos – ex-alunos e ex-monitores –, ou seja, as narrativas orais, algumas transcritas em textos comemorativos, que permeiam nossa pesquisa nos levaram a adentrar em suas histórias de vida, suas subjetividades acerca do processo de alfabetização e dos processos de conscientização e politização ali desenvolvidos. Mesmo reconhecendo que, ao privilegiarmos as falas, enveredamos por um caminho complexo, problemático; ao mesmo tempo, entendemos que o depoimento oral associado às fontes documentais, juntos, interagem, complementando-se mutuamente, “embora requeiram tratamento técnico/metodológico especifico” (MONTENEGRO, 1992, pp. 21-22).

Fato é que por se basear no depoimento pessoal e na memória, a História Oral está, portanto, sujeita a críticas a despeito da validade de seus dados. Por esse motivo, sentimos a necessidade de observar em nossa pesquisa as bases supracitadas da HO por entendermos que

o espaço de cinco décadas poderia levar a memória dos sujeitos participantes do diálogo empreendido à imersão de reinterpretações, “seja pela distância existente entre o fato passado e o depoimento presente que já incorpora possíveis mudanças de perspectiva ou de valores do ator social, seja porque o fato pode ser reinterpretado à luz de seus interesses” (HAGUETTE, 1992, p. 94).

A entrevista, enquanto instrumento técnico para a produção de dados, continua a autora, pode ser definida como um processo de interação social entre duas pessoas, que tem por objetivo a obtenção de informações. Para ela,

[...] como qualquer outro instrumento, está submetida aos cânones do método científico, um dos quais é a busca de objetividade, ou seja, a tentativa de captação do real, sem contaminações indesejáveis nem da parte do pesquisador em de fatores externos que possam modificar aquele real original (HAGUETTE, 1992, pp. 87-88).

Todavia, devido a interpretação de dados subjetivos, é preciso considerar que o ponto chave no controle de qualidade dos dados em todos os casos se situa no uso sistemático de dados de outras fontes relacionadas com o fato observado a fim de que seja possível analisar a consistência das informações fornecidas e sua validade. Por isso, além dos ex-alunos e ex- monitores, buscou-se dialogar com outros sujeitos que se relacionam com as 40 Horas de Angicos, como a professora Eneide Araújo, filha de ex-alunos das 40 Horas; bem como relacionar/cruzar as informações produzidas com documentos e textos que teorizam a temática, inclusive as reportagens sobre Angicos à época.

Tendo por referência as características dos instrumentos utilizados e alicerçados pela natureza da abordagem qualitativa, ressaltamos que o significado que os sujeitos deram às coisas e à sua vida também foram focos de nossa atenção. Nesse estudo, foi pretensão nossa capturar a perspectiva dos participantes, sua maneira de ser informante e como veem as questões que estão sendo focalizadas. Diante disso, a análise de dados tendenciosamente seguiu um processo indutivo, de maneira que, como pesquisadores, não nos preocupamos em buscar evidências que comprovassem hipóteses definidas antes do início dos estudos, mas em trazer evidências, curvas, contingências, contradições que, de forma indiciária, dão-nos mostras do movimento em torno do fenômeno.

Essa característica, próxima à proposta ginzburguiana, revela-nos e se corporifica com o que coloca Haguette (1992)sobre os instrumentos que elegemos para a nossa pesquisa. De acordo com a autora, eles precisam ser vistos em termos de suas peças individuais, ou seja, da informação de um único depoente – como ocorreu com o moleiro Menocchio em O queijo e

os vermes de Carlo Ginzburg –, mas indo além delas, em termos de um conjunto de depoimentos que culmina no despontar de um todo que emerge para nosso objeto de estudo.

Dessa forma os dados podem ser checados não só internamente – entre os depoimentos – como externamente, confrontando-os com todos os dados disponíveis através de outras fontes (HAGUETTE, 1992, pp. 94-95).

As análises da investigação, portanto, seguindo o itinerário dos estudos bibliográficos e documentais já realizados sobre as 40 Horas de Angicos, das narrativas orais, das entrevistas, dos seminários, dos eventos em que participamos, com suas pistas, constituem, usando a metáfora de Ginzburg (1989), os fios do tapete que “arrumam” uma pesquisa desenvolvida sob a perspectiva do método indiciário. Nesse caso, o investigador é aquele que tenta recompor como a tapeçaria se constituiu, já que, de outra forma, a postura estratégica do investigador, sem um precavido afastamento, ficaria comprometida. O tecelão assume a postura daquele que busca os indícios, os sinais, reunindo as informações em uma interpretação que encontra sentido e significado no contexto histórico20 sustentado pelo

entrelaçamento dos fios. Por isso, tratamos dessa característica da pesquisa com o desvelar merecido.

Acho que existe uma grande diferença entre os temas históricos que se justificam por si mesmos e aqueles que devem ser justificados por uma abordagem específica. Ou seja, quando se escreve um livro sobre a Revolução Francesa, ele pode ser bom ou ruim, mas não é preciso justificar a ideia de escrevê-lo. Mas, quando se escreve um livro sobre, digamos um moleiro do século XVI, é preciso justificá-lo. É preciso justificar o próprio tema (GINZBURG, 1989, p. 260).

Hoje, as 40 Horas de Angicos se constituem parte da história da educação popular brasileira. Sem estudá-las ou, pelo menos, refletir sobre o que ali aconteceu, certamente, muito do que fizemos (ou do que poderíamos ter feito) sobre seu desenvolvimento – progressos e retrocessos –, em especial, na prática da educação de adultos, perder-se-ia (ou se perdeu) junto ao que não ficou esclarecido – “arrematado” – no seu processo constitutivo.

Mais do que “2.400 minutos de aulas”, nas palavras de Paulo Freire pronunciadas no dia 02 de abril de 1963, forjou-se um novo cenário para a educação de adultos, cujas características, por conseguinte, estabeleceram uma nova forma de olhar a educação popular,

20 Mais adiante, no inicio em capítulo posterior, mais uma vez, tratamos sobre a importância dada por Ginzburg para o conhecimento histórico, o contexto histórico dos fatos e situações a serem analisados.

fornecendo aos atores sociais envolvidos novas e outras participações políticas, sociais e culturais:

Quebramos uma série de tabus metodológicos. Superamos a Escola pelo que nós chamamos Círculo de Cultura; o Aluno, pelo participante de Debates; a Aula pelo Diálogo; o Programa Acadêmico por Situações Sociológicas desafiadoras, que pomos diante dos grupos com quem debatemos e de quem arrancamos uma sabedoria que existe e que é, esta sabedoria, opinativa e existencial do povo (FREIRE in LYRA, 1996, p. contracapa).

Entretanto, em torno dessa experiência, implica esclarecer que muito ficou por ser dito ou, então, “revisto”, não através de um simples retorno ao que foi ali vivenciado, à luz de relatos descritivos. Mas, ouvindo as vozes silenciadas, conhecendo os lugares que ficaram para trás e descobrindo nas entrelinhas (ou nas entrefalas, como diz Homi Bhabha, 2001, “nos entre-lugares”) das histórias narradas, oralizadas e documentadas pelos sujeitos participantes (ex-alunos e ex-monitores) e por pessoas envolvidas com as 40 Horas de Angicos aquilo que parece ter ficado na “penumbra”, durante mais de cinco décadas. Tal afastamento do que ocorreu naquele período, seja por causa do Golpe Militar de 1964, seja pelo “esquecimento”, pelo que ficou “perdido no tempo”, é, dentre outras problemáticas, o que justifica nosso estudo, a investigação realizada, pois, conseguimos enxergar lacunas – talvez, provenientes da memória – em meio às experiências vividas, historicizadas. Diante dessa compreensão, concordamos com Haguette (1992, p. 95) quando continua sua reflexão sobre a História Oral:

Outro ponto a considerar é que a compreensão de uma época ou de um evento passa necessariamente pelo entendimento das ideologias, daí por que saber se o relatado é verdadeiro ou não e, em certos casos, secundário. Do contrário, poder-se-ia arguir que a simples descrição de um fenômeno é insuficiente para atingir a compreensão de suas causas, ou seja, para que se possa explicá-lo.

Em O local da cultura, Bhabha (2001, p. 27) fala sobre o conceito de “entre-lugar”. Ele diz que “o trabalho fronteiriço da cultura exige um encontro com ‘o novo’ que não seja parte do continuum de passado e presente. Ele cria uma ideia do novo como ato insurgente de tradução cultural. Essa arte não apenas retoma o passado, causa social ou precedente estético; ela renova o passado, refigurando-o como um ‘entre-lugar’ contingente, que inova e interrompe a atuação do presente. O ‘passado-presente’ torna-se parte da necessidade, e não da nostalgia, de viver”. Trazemos o conceito de entre-lugar justamente por permitir uma abertura diante das contingências que permeiam as 40 Horas de Angicos.

As histórias orais, as entrevistas e conversas mantidas com os alunos da experiência que tivemos contato, através dos eventos que participamos juntos ou da audição individual, permitiram que fosse observado que suas memórias estão atravessadas por uma memória coletiva (HALBWACKS, 2006), bem como pelo que aprenderam e ouviram falar a respeito da experiência. Por isso, buscou-se seguir um processo seletivo e criterioso das falas emitidas. É certo que se faz necessário não apenas “caçar” ou, ainda, “reunir” informações evidentes que constam das referências analisadas, mas, trazer dados históricos para contextualizar o momento – tempo e espaço – da experiência desenvolvida num pequeno município do Rio Grande do Norte, no início dos anos 60 do século passado. Ginzburg, em suas reflexões, justifica a utilização de dados históricos como possibilidade de analisar os fenômenos semelhantes em diferentes espaços de tempo e lugar, mesmo quando as conexões tipológicas ou formais sejam alheias ao território – ao lugar – do historiador. Além disso, o método indiciário, como perspectiva de um paradigma emergente, fundamentou-nos na vinculação entre as análises qualitativas e sua interpretação. Fato que justificou seu uso em nossa investigação: ser um paradigma que orientou, através dos indícios “esgarçados”, a obtenção de uma visão prática do campo de conhecimento investigado.

Capítulo Segundo – O CONTEXTO

MEMÓRIAS DA ALFABETIZAÇÃO NOS ANOS INICIAIS DE 1960:

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