8.1.3&Goals&
8.2 Alternative&Strategy&
Neste texto, tratamos de identificar, dentro da metodologia utilizada, o espaço geográfico em que ocorre o célebre movimento de educação popular em nosso país no ano de 1963, e os sujeitos que fizeram dessa história um divisor de águas para a gnosiologia de Paulo Freire e para a educação de jovens e adultos no Brasil.
1.2.1 Angicos, do sertão norte-rio-grandense para o mundo
Angicos (de angico, árvore de grande porte). O município está localizado na zona do sertão, centro-oeste do Estado. A cidade, com 109 metros de altitude, à margem esquerda do rio Pataxó ou Angicos, dista, em linha reta, 156 quilômetros da capital estadual (LYRA, 1996, p. 148).
O cenário que fixa nossa investigação é o município de Angicos, onde se deu a experiência mais famosa da teoria do conhecimento pensada por Freire. Nos anos iniciais de
1960, a alfabetização encerrava o que havia de mais forte nos movimentos de educação popular e, na mesma dimensão, “as relações entre o trabalho de Paulo Freire e a promoção popular eram bem marcantes” (MANFREDI, 1981; FREIRE, 2001). Assim como em todo o país, no Rio Grande do Norte se vivia um tempo de mudanças e Angicos, pequeno município do Estado, teve o olhar dirigido para o que ali se anunciava.
FIGURA 2
Mapa Político de Angicos
Fonte: Imagem extraída do livro “Angicos, ontem e hoje”, de autoria de Maria Zélia Moreira Alves da Cunha, 1992.
Diante desse “olhar”, problematizamos algumas questões que, apesar do tom de retórica por já fazerem parte do passado, chamam a atenção para a representatividade dessa escolha: quais características do município de Angicos se sobressaem? Geograficamente, onde está localizado? O que favoreceu a opção por esse município para sediar a prática pedagógica freireana?
Angicos, há mais de cinquenta anos, como a maiorias dos municípios brasileiros, em especial, nordestinos, apresentava graves problemas educacionais, entre outras sérias dificuldades no campo social. Faltava estrutura física e recurso humano. Mas, mesmo com essas características, o município, desde 1933, contava com uma Estação Ferroviária que, pela
sua localização, atuava como principal polo de mobilidade para a região, constituindo-se parte da linha E. F. Sampaio Correia15, aberta em 1906 no Estado. O que, contraditoriamente, era
sinal de desenvolvimento, embora em 1962 o município sequer contasse com um mapa geográfico político.
FIGURA 3
A Estação Ferroviária de Angicos em 1963.
Fonte: Cessão Wagner Rodrigues - Imagem Arco Iris TV.
Hoje, o prédio da antiga estação ferroviária é a “Casa de Cultura Paulo Freire”, um espaço que recebe visitantes de todos os lugares, e conta com um pequeno auditório, salas de exposição e venda do artesanato de artistas locais, como os objetos, quadros e imagens produzidos por Silvana Pacheco, autora da imagem de Paulo Freire produzida para esta pesquisa.
FIGURA 4
A Estação Ferroviária de Angicos em 1963.
15Em reportagem da Folha de São Paulo, datada de 18/04/1964, neste mesmo ano (ressalte-se: ano posterior à realização da experiência), choveu bastante na região da cidade de Açu, município vizinho de Angicos, de tal maneira que foi declarado estado de calamidade pública pelo governo. Açu não tinha trem, mas foi este transporte que interviu na situação posta e evitou que o desabastecimento total chegasse à região, que se encontrava ilhada. Assim, conforme relato jornalístico, foi um trem da E. F. Sampaio Correia que, enviado até a estação de Angicos com 26 toneladas de alimentos, pode saciar a fome dos inúmeros desabrigados da região de Açu.
Fonte: ARAUJO, Silvânia L. de Araújo, Nov. de 2014. Acervo pessoal da pesquisadora.
Quanto ao analfabetismo à época, impunha-se como a marca registrada da maior parte dos habitantes do lugar (FERNANDES e TERRA, 1994; LYRA, 1996; GUERRA, 2013). Angicos, naquela ocasião, representava, num diagnóstico preciso, o que acontecia nos municípios pobres dos demais Estados do Nordeste brasileiro.
[...] Enquanto tática política, esta mobilização poderia garantir, a curto prazo, certos resultados substanciais à medida em que, no Brasil, a taxa de analfabetismo ainda bastante alta e as possibilidades de alfabetização garantiriam o aumento maciço do eleitorado, principalmente nas zonas rurais dos estados do Nordeste (MANFREDI, 1981, p. 24).
Guerra (2013a, p. 32) se refere ao município naquele momento histórico-político assim: “Os analfabetos eram maioria. Os chefes políticos controlavam um eleitorado de 800 votantes. De repente, um novo equilíbrio deveria ser estabelecido com o acréscimo de 300 novos eleitores. O mesmo ocorria no Estado, e no país”. Por si só, esse fato explicava, parcialmente, porque começar esse projeto de Alfabetização em Angicos.
Era a terra do Governador, que tinha autoridade moral para impor depois o mesmo Programa a seus correligionários, em seus feudos eleitorais. Isto ficou evidente imediatamente, quando logo depois fomos iniciar os trabalhos em Mossoró. Fomos recebidos pelo Chefe Político aliado do Governador, um médico influente na cidade, que me recebeu educadamente, colocou um revolver em cima da mesa e nos mandou de volta, conforme já havia dito ao Governador. Na cidade dele tal programa não era bem vindo (GUERRA, 2013a, pp. 32-33) (Grifos nossos).
Através das partes destacadas no texto acima, observamos que a afirmação de Marcos Guerra ratifica a “escolha do lugar” por parte do Governador do Estado: era sua terra natal, seu irmão Expedito Alves era o prefeito e, ainda, havia a possibilidade de expandir a proposta pedagógica para outros “currais eleitorais” coligados ao seu grupo político-partidário. Todavia, ao continuarmos a leitura da citação acima, em especial, nas partes sublinhadas, chegamos a uma contradição do autor ao destacar a ida do grupo de monitores a Mossoró no intuito de dar prosseguimento à proposta, já que esse era o interesse de Aluízio Alves: ampliar o número de eleitores por todo o Estado.
Segundo o autor, ao chegarem ali, ele e outros monitores, foram recebidos pelo chefe político aliado do Governador de forma educada, mas, este se mostrou firme ao dizer que não aceitaria o “tal programa” na cidade, no meio do povo mossoroense, pois, enxergava-os como “comunistas” e os mandou de volta. Essa afirmação veio acompanhada de uma situação, no mínimo, constrangedora, diante a circunstância ali desenhada: o aliado do Governador “colocou um revólver em cima da mesa”, como forma de não apenas demonstrar a veemente recusa acerca do desenvolvimento da proposta em seu “curral eleitoral”, mas, sobretudo, amedrontar o grupo enviado para lhe explicar a proposta. Contudo, assim como o influente médico, num ato reflexo de defesa, destemido, nos idos de sua juventude, Marcos Guerra abriu sua bolsa e também dali tirou um revólver e o colocou à sua frente na mesma mesa. Segundo relato do autor16, as pessoas que o acompanhavam naquela “reunião”, não sabiam
para onde olhar e o que falar diante da situação inusitada ali formada, mas, compreendido o “parecer” do médico sobre a proposta de Alfabetização, o grupo voltou para Natal.
Além disso, continua Guerra, a escolha do lugar se justificava ainda porque o Projeto trazia vantagens e avanços. O município de Angicos ganharia uma nova Escola Estadual, dentro do programa de educação do Estado do Rio Grande do Norte, bem como a formação de todos os seus professores. Igualmente, tornou-se conhecido como o berço das “40 Horas”, tendo em vista a enorme repercussão da experiência. Mas, ao mesmo tempo, esse município conheceu uma das primeiras mobilizações espontâneas de operários da construção civil no interior do Estado.
Dentre os operários que construíam a Escola, alguns eram alunos nos Círculos de Cultura. Quando já podiam ler sem dificuldades, numa das aulas estava programada a leitura da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas), que suscitou grandes debates quanto ao repouso semanal remunerado, horas
16 Esse relato consta de uma palestra realizada em setembro de 2012 proferida pelo prof. Marcos Guerra na Universidade Federal Rural do Semiárido em Angicos. Ressalte-se que esse texto também pode ser encontrado no livro de Carlos Lyra (1996, pp. 15-16), embora com menos detalhes em sua narrativa.
extra, e algumas garantias trabalhistas. Direitos que passaram a exigir da empresa construtora, que se recusou a aceitá-los, e mandou recrutar trabalhadores numa cidade vizinha, Fernando Pedroza. Os operários fizeram um piquete na estrada, e conversaram com os que viriam substituí-los, convencendo-os a voltar para casa. O patrão telefonou para o Secretário da Educação, pedindo sua intermediação. Novamente o Calazans Fernandes se divertiu com a situação, e recomendou ao empresário que pague os direitos, já que não podia sugerir outra saída (GUERRA, 2013a, p. 33) (Grifo nosso).
Destacamos uma pequena parte desse texto: “Quando já podiam ler sem dificuldades”, porquanto consideramos que esta afirmação é passível de questionamento, já que o tempo utilizado para o processo de alfabetização foi curto e não houve a pós-alfabetização. Talvez, o autor pudesse ter se expressado: “Quando já podiam ler sem tantas dificuldades [...]”.
Dia 15 de março, Marcos registra, abrindo o seu quinto caderno de anotações: ‘Denúncia – Chico Torres recebe 1.200 por cada e paga somente 400,00’. Depois da quadragésima hora, greve na construção de uma escola, em Angicos. A primeira. Nem as horas extras eram pagas, entre outras irregularidades. A greve era justa. Os alunos operários, conscientes e atingidos nos seus direitos, pararam (LYRA, 1996, p. 17).
Política. O motor propulsor da escolha por Angicos para sediar a experiência foi motivada pela política. Em jogo, muitas questões envolviam o que ali se pretendia. Lyra (1996, p. 15) afirma que depois de divulgada a escolha, “as lideranças políticas do Estado foram acalmadas”. Mudanças. A partir daquele momento, o que se veria eram homens e mulheres alfabetizados politizados, possivelmente, conscientes da natureza das mudanças sugeridas. E o que parecia difícil naquele longínquo lugar aconteceu: uma greve. A primeira. Nesse caso, o Serviço Cooperativo de Educação do Rio Grande do Norte (SECERN) se viu diante de uma contradição: o programa ousado de alfabetização de jovens e adultos estava batendo de frente com o programa de expansão de construção de escolas. Conflitos no interior da SECERN. Diante desse impasse,
O governador convoca Calazans ao seu gabinete:
- Veja o que você está fazendo, uma greve dentro da sua Secretaria que vai parar o seu projeto todo!
- Para se você quiser, porque Angicos é sua cidade. Se você não tiver prestigio suficiente para ‘aparar’ isso em Angicos, toda a sua liderança no Estado será questionada, porque Angicos é sua cidade! (LYRA, 1996, pp. 17-18).
Angicos se mostra bem mais do que o berço da gnosiologia freireana. Angicos se mostra para o mundo. De “massas manipuladas” (MANFREDI, 1981, p. 30) a “subversivos
em potencial” (LYRA, 1996, p. 13). Essa foi uma das marcas, talvez, nem tanto a que chamou a atenção de todo o país e de outros países, mas que foi nutrida, em especial, pelos alunos da experiência. E, de modo geral, foram muitas as pessoas que se sentiram marcadas pelo que estava acontecendo em Angicos. Em entrevista concedida durante as comemorações dos 50 anos da experiência, D. Idália Marrocos da Silva17 (86 anos), ex-aluna da experiência, disse
em vídeo gravado para a UFERSA: “A roda grande tá entrando na pequena”. Em conversa mantida para esta pesquisa, perguntamos o que ela quis dizer com isso ao ser entrevistada, e a ex-aluna nos respondeu:
“As coisas estão mudando. Eu disse isso porque via 40 trabalhadores para limpar toda uma fazenda. E por quanto saía isso? Trinta cruzeiros para dividir pra todos. O rico crescendo às custas do pobre. Acabou-se o tempo de escravidão” (Entrevista com a pesquisadora, Nov. de 2014).
Segundo sua fala, interpretamos que a roda grande é o povo pobre mobilizado, entendendo, política e conscientemente, seus direitos. A roda pequena é o rico que, agora, tem que aceitar a compreensão do povo acerca de seus direitos sociais e cidadãos. Nas suas palavras, os tempos mudaram...
Por Angicos, dada a repercussão, passaram observadores e especialistas em educação nacionais e internacionais, enviados especiais de jornais e revistas brasileiras, correspondentes de jornais da América Latina, dos Estados Unidos, da Europa, da União Soviética, do Japão, do Egito e de Israel, jornalistas renomados, “sem que a pacata cidade, à beira do rio Pataxó, perdesse sua calma” (LYRA, 1996, contracapa). Em entrevista ao repórter da TV Cabugi, trinta anos depois, no seu retorno a Angicos, Freire responde: “Eu considero Angicos um dos pontos, um dos momentos, um dos locais em que muita coisa de meu trabalho, de meu pensamento, se encontra enraizada” (Idem ibidem, p. 13). Angicos, portanto, independente dos seus desdobramentos, foi e é parte preponderante da história da educação popular brasileira.
1.2.2 Alunos e Coordenadores de CC: da “fome da cabeça” à “fome da barriga”
17 D. Idália nasceu em 1º de janeiro de 1929. Quando participou da experiência em 1963, estava com 34 anos. Era solteira, vivia com sua mãe, numa casinha no Alto da Alegria, subúrbio de Angicos. Trabalhava na roça de seus irmãos ou na casa de farinha. Estudou no CC que funcionou na casa do velho Chico Guilherme (Alto da Alegria), numa sala em que só ficaram mulheres, com a professora Rosali Liberato.
O sr. Antônio Ferreira da Paz, ex-analfabeto, agora com 71 anos, indagou sobre o porquê da interrupção daquelas ‘bocas de noite que matavam a fome da cabeça’ (Idem ibidem, p. 13).
Esse foi o questionamento, trinta anos depois, de um dos participantes da experiência feito a Paulo Freire. Mas, quem foram, afinal, esses analfabetos? Que alunos participaram desse movimento de educação popular? Nessa experiência, foram matriculados 380 alunos – mulheres e homens –, embora apenas 300, de acordo com os textos que reproduzem a experiência (LYRA, 1996; FERNANDES e TERRA, 1994) tenham sido considerados alfabetizados e politizados no Programa; e os monitores18, os coordenadores dos Círculos de
Cultura, que eram alunos e alunas universitários e secundaristas.
Para a nossa pesquisa, as falas e os textos produzidos por alguns ex-alunos, ex- monitores e pessoas relacionadas à temática se configuram como interlocutores relevantes para nosso diálogo, alicerçados pelos diversos autores, estudiosos da obra de Freire que reunimos para a sua fundamentação teórica.
Ressalte-se, contudo, que, no caso dos coordenadores dos Círculos de Cultura, eles não constituíam um bloco único, homogêneo, nem todos eram militantes e politizados ou, ainda, ligados à área da educação. Apesar de estarem vinculados à União Nacional dos Estudantes (UNE), transitavam por cursos e níveis de estudo diferenciados. Havia graduandos de Farmácia, Filosofia, Direito, Medicina, Odontologia, Serviço Social e, ainda, uma coordenadora de Círculo que cursava Pedagogia, Maria Madalena Freire; outros, por sua vez, estavam concluindo o Científico e, um, Talvani Guedes, encontrava-se no 4º Ano Ginasial.
Os coordenadores de Angicos, em sua maioria estudantes universitários, haviam sido devidamente treinados pela equipe do SEC da Universidade do Recife. As dez aulas do curso de treinamento versaram sobre os seguintes temas: Atualidade Brasileira, Planificação do Desenvolvimento, Processo de Desalienação, Deficiência e Inorganicidade da Educação no Brasil; Considerações Gerais sobre o Método de Alfabetização: fundamentação teórica e metodológica (MANFREDI, 1981, p. 111).
À sua maneira, cada monitor se identificava como um agente ideológico. Independente dos conceitos internalizados na proposta de alfabetização, sob a orientação de Paulo Freire e equipe do SEC, sobretudo os conceitos e significados dados aos termos “politização” e “conscientização”, cada um deles levava consigo suas próprias aspirações, suas próprias ideias. Sobre essa particularidade, tratamos com mais ênfase em capítulo posterior, quando
evidenciamos o papel dos coordenadores de Círculo de Cultura para o desenvolvimento do evento em Angicos.
Os alunos, em contrapartida, formavam parte da parcela adulta da população angicana que estava fora da escola e se ocupava, principalmente, de afazeres ligados à agricultura, à indústria (havia 38 operários), à vida doméstica, ao trabalho informal (artesãos, serventes de pedreiro, pedreiros, comerciantes, motoristas, carpinteiros, lavadeiras, bordadeiras, parteiras, mecânicos, vaqueiros) e, ainda, ao funcionalismo público, entre outros.
Dentre os 380 alunos matriculados (número inicial), parte teve que desistir das aulas porque o momento os fizera optar entre a “fome da cabeça” e a “fome da barriga”. Fevereiro chegou. Março veio logo em seguida. As chuvas, de forma tímida, mas contínua, foram chegando e inundando o solo inóspito do sertão norte-rio-grandense. Não era possível optar sem pensar nas consequências imediatas. Era preciso pensar por alternativas. Entre a fome da cabeça e a fome da barriga, para alguns deles, a segunda tinha mais urgência19. Mais uma
vez, entrava em evidência certo movimento no terreno da deusa métis, denunciando o uso de uma inteligência astuta, prática, precavida, correspondente às necessidades imediatas.
“Com a chegada das chuvas (inverno) daquele ano de 1963, muitos alunos saíram para as ‘frentes de trabalho’” (LYRA, 1996, p. 13). Bom lembrar que a “frente de trabalho” no sertão é feita pelo poder público diante de calamidade provocada por seca prolongada. Nesse caso, não é expressão usada para quando os particulares vão para seus “roçados” cultivar uma “pequena terra” (em geral, é um chão de terra muito próximo das casas) e plantar. Assim, o que é que realmente estava acontecendo em Angicos, em 1963? Todos que saíram dos CC ou faltaram aulas por causa das chuvas, evadiram-se para as “frentes de trabalho” ou para seus “roçados particulares”? Com efeito, havia ali necessidades primeiras a serem supridas. Para muitos alunos, talvez, maiores do que o desejo de ler e escrever ou, ainda, de participar democraticamente dos processos eleitorais. Por isso, fica perceptível nos documentos sobre as 40 Horas de Angicos certo descrédito da população no início da proposta: a desistência de parte dos alunos matriculados; a demora da chegada dos recursos tecnológicos a Angicos; a não compreensão do verdadeiro significado da expressão “comunismo”, o que se tornou uma barreira a ser vencida no meio do povo; a falta de entusiasmo da equipe de pedagogos do SECERN; a falta de chuvas e o ar desolado de uma paisagem esturricada por um sol escaldante de 40º C.
19 Quando a chuva chegou naquele ano em Angicos, notou-se certa dispersão por parte dos alunos da experiência. Sendo esse um fato que merece uma reflexão mais profícua, retomamos a discussão mais a frente.
Enfim, o que se via no entorno da proposta de alfabetização era a realidade de uma cidade inteira, cuja materialização se impunha nua e crua. Mas, dificuldades à parte, a experiência aconteceu num contexto favorável, já que em Natal, Recife e João Pessoa, para lembrar lugares mais próximos, aconteciam campanhas sincronizadas para a alfabetização de adultos.
Dada a sua importância no processo metodológico da pesquisa, o senso comum dos sujeitos envolvidos tem sido colocado em evidência. Isto porque “num mundo onde há uma interação permanente entre a verdade e os valores socialmente vividos” (MAFFESOLI, 1998, p. 56), não há como escapar das subjetividades que emergem desses encontros. Na verdade, isto faz parte da “lógica do conhecimento sensível” (Idem, 2010, p. 61). Segundo o pensamento maffesoliano, e com o qual comungamos, hoje, não há mais uma verdade única, geral, aplicável em qualquer tempo e lugar, mas, ao contrário, o que há é uma multiplicidade de valores que se relativizam entre si, complementando-se, cambiando-se, combatendo-se e valendo menos por si mesmos do que por todas as situações, fenômenos e experiências que supostamente exprimem sentido. Em seu pensamento, este é o lugar do senso comum:
[...] algo que tem sua validade em si, como uma maneira de ser e de pensar que basta a si própria e que não carece, quanto a isso, de nenhum mundo preconcebido, fosse qual fosse, que lhe desse sentido e respeitabilidade (Idem, 1998, p. 161).
Essa perspectiva encontra abertura para um estado de espírito que seja menos dogmático do que receptivo, indicado por Nietzsche que, citado por Maffesoli (1998, p. 56), afirma: “É preciso esperar e preparar-se; espreitar o jorrar de fontes naturais, estar preparado, na solidão, para visões e vozes estranhas”. Mas, será que essa não é ipis litteris a atitude do caçador? Aquele que, como identifica Ginzburg (1989, p. 154), “agachado na lama, escruta as pistas da presa”?
O diálogo mantido com os sujeitos de nossa pesquisa caminha nesta perspectiva maffesoliana. De fato, concordamos com o autor quando entende que nada ou ninguém jamais é exclusivamente aquilo que parece ser em um dado momento. Para ele, as coisas e/ou os sujeitos “são sempre mais, e isto porque há, em cada um e em cada fenômeno, algo de pré- formado que convém desenvolver” (Idem ibidem, p. 60). É, portanto, buscando este “é sempre mais”, também anunciando por Freire no conceito de “inédito viável”, quando ele imprime ao ser humano a possibilidade de “ser mais”, que enxergamos todos os participantes
– diretos e indiretos – envolvidos nesta pesquisa e comprometidos com o que se forjou ao longo das 40 Horas de Angicos.