• No results found

Improving water quality with local institutions and farmers

3. Results and discussion

3.5. Improving water quality with local institutions and farmers

Diferenciada da Morte mostrada em “Réquiem” encontramos entre os poemas dobalinos uma figuração da Morte que se faz comparada, pelo uso do símile, “como uma cobra cascavel de quatro ventas”17. Tal cobra que compõe o cenário deste poema, também existe em outros territórios, mas, esta subespécie mencionada somente é encontrada na caatinga. A configuração é composta a partir de elementos do ambiente sertanejo que

17

cascavel-de-quatro-ventas (Crotalus durissus) é uma espécie de cascavel cuja área de distribuição se estende, descontinuadamente, do México até Argentina. Existem cinco sub-espécies, dentre elas: Crotalus

durissus cascavella, forma nordestina, é uma serpente característica das caatingas, que ultrapassa 1,60 m de comprimento. Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cascavel-de-quatro-ventasAcesso em: 7 ago. 2013.

compõem, num trocadilho de palavras, um “fim-de-mundo” que é a própria presença da Morte e vice-versa:

FIM-DE-MUNDO É por vontade de Deus

que se morre assim neste fim-de-mundo Como as cascavéis

enroladas ao sol,

como as cascavéis de quatro ventas, a morte escolhe os seus acasos:

Pedro Galinha, morto no caminho da roça, Jasão, de cinco anos mal vividos,

morto no terreiro de casa,

Graciosa, égua de sela, égua de estimação, morte longa de dois dias,

e o Cel. Miguel dos Anjos, morto

quando o calor da tarde parou seu coração. É por vontade de Deus

que se vive assim neste fim-de-mundo. Como as cascavéis,

a vida escolhe os seus acasos. Andam no céu os aliados da morte, os urubus de longo voo,

E no chão onde secam os cururus mortos, que os urubus rejeitam,

a vida vagarosa

vai desfiando os seus dias. Pobre vive de teimoso. aqui ninguém se suicida. Todos vivem teimosamente

mas, a morte-morrida, a morte-matada é a própria vida

de cada um.

Aqui a vida é um morrer vagaroso, um ir-e-vir de sofrimento

consumido de febre, não a febre do amor, a febre da fome a febre da doença a febre de sezão

a febre certa das cinco da tarde Ai que terribles cinco de la tarde. 18

18

Verso de intertexto do poema “Pranto por Ignácio Sánchez Mejias” (1935), do poeta espanhol Federico Garcia Lorca ( que é poema elegíaco à morte do amigo do poeta, um toureiro que, conforme relata o poema, morreu numa tourada às cinco da tarde. O referido verso, em itálico, tal como aparece no poema de H. Dobal, consta dentre os últimos versos da primeira parte do poema Lorquiano: /Ai que terribles cinco de La tarde./ Entretanto, uma variação do verso,/às cinco horas da tarde/, aparece em grande destaque no poema, repetido por 25 (vinte e cinco) vezes nessa primeira parte, também em itálico, sempre alternando-se com outros versos de natureza

65

Ai que tardes terríveis, ai que vida mal cumprida arrastando desfiando sua morte

por todos os seus dias (DOBAL, 2007, p. 118-119, grifos nossos).

“Fim-de-Mundo” é um dos poemas mais longos da obra dobalina, construído em 42 versos de vária medida, distribuídos em oito estrofes iniciadas por um dístico que serve de moteaos demais e que é repetido uma vez como espécie de refrão: \É por vontade de Deus\, \que se morre neste fim-de-mundo\. O dístico retoma o título quando refere ao fim-de-mundo e circunscreve uma ambiguidade em relação ao lugar ao qual o poema noticia \[...] neste fim- de-mundo\, que não se trata exatamente de um final dos tempos, mas, “um lugar no mundo” em que não há condições para se viver: um “fim-de-mundo” - numa conotação suavemente pejorativa associada a lugar ermo, desabitado e sem vida. Mas, percebe-se também que há uma proposital dubiedade que se mostra construída para permitir que, lado a lado, o leitor também construa, na sua recepção, a ideia do “fim-de-mundo” enquanto aquele lugar inóspito em que a vida se esgota, mas também de “tempo final”, portanto, tempo de morte. Acontece que apesar do dístico anunciar a Morte como vontade de Deus, ele a anuncia como um jeito peculiar de morrer: \É por vontade de Deus que se morre “assim” neste mundo\. Esse jeito de morrer “assim” é detalhado nas estrofes seguintes. E a Morte se manifesta como se fossem “acasos” nesse “fim-de-mundo”, os quais os versos enumeram.

Na segunda estrofe, de onze versos, mostra-se um elenco desses “acasos” que, “por vontade de Deus”, a “Morte como uma cascavel de quatro ventas” escolhe para esse lugar, dito “Fim-do-Mundo”: O Pedro morreu no caminho da roça, Jasão morreu no terreiro de casa, a égua Graciosa teve morte longa de dois dias, e o Coronel Miguel dos Anjos, seu coração parou no calor da tarde – com máscaras dessemelhantes, as mortes chegaram a todos eles. A “Morte” que se apresenta ao acaso, mas, entende-se que pode acontecer a qualquer um daquele “fim-de-mundo”, mostra-se na metáfora da “cascavel enrolada ao sol”, pois é surpreendente, inesperada. Na quarta estrofe, em contraponto à “Morte”, o sujeito “Vida” também escolhe os seus acasos. Então, “Morte” e “Vida”, sujeitos, escolhem os seus “acasos” naquele “Fim-de-mundo”. Na quinta estrofe é construído um cenário de vida, entretanto, ao invés de ícones da vida, são mostrados os aliados da morte: no céu, os urubus que sobrevoam

narrativo-descritiva do episódio chamado “A captura e a morte”. Além dos vinte e cinco versos mencionados, o poema ainda tem outros aproximados: /Eram cinco da tarde em ponto/, /As cinco em ponto da tarde/, /Eram cinco horas em todos os relógios/, /Eram cinco horas da tarde em sombra/. LORCA, Federico Garcia. Antologia Poética.Porto Alegre: L&PM, 2006. O poema de Lorca traz a representação poético-narrativa da morte do amigo morto. Por destacar tanto a morte, foi escolhido por H. Dobal para o sugestivo intertexto.

e, no chão, somente os cururus mortos que aqueles urubus não querem. Depreende-se que a vida, de alguma forma, é aliada da morte e segue adiante, porém, segue vagarosa. Na sexta estrofe é a respeito dos homens pobres que o eu lírico se detém e acerca deles elabora versos em tom de uma “crítica magoada”, repetindo expressões populares de cunho pejorativo e preconceituoso, como se propositalmente, estampasse a opinião pública afastada de uma consciência política sobre a realidade social e em relação à situação da pobreza nos “fins-de- mundo” dos sertões.

Os versos a respeito dos pobres parecem oriundos de frases populares ali reunidas para lembrar a imagem que se apregoa a respeito da pobreza nos sertões, cujos teores insinuam que essa gente pobre sequer tem condições de viver, mas que, surpreendentemente, por terem grande apego à vida, mesmo sem condições mínimas, insistem na luta pela sobrevivência. E seguem-se os versos, nesse tom, acrescentando ainda que aquele pobre, de vida tão infeliz, nem mesmo pensa em suicídio, de certa forma, insinuando que essa atitude poderia até ser uma solução. Quanto à busca pelo sobreviver, o sujeito lírico diz que é atitude de pura teimosia, pois uma vida tão infeliz não deveria sequer ter continuidade. Nesta estrofe o sujeito lírico conclui ainda que a “vida desse pobre é a própria “morte-matada” ou “morte-morrida”, ou seja, a vida do pobre é igual à morte. A estrofe toda deixa transparecer que o comentário é oriundo de uma constatação da existência dessa grande pobreza que se faz realidade bastante generalizada, existindo, assim, uma categoria social “esquecida”, à qual se atribui o rótulo estereotipado “pobre que vive de teimoso”.

Percebe-se que há um sentimento que perpassa todo o poema e se faz presente de alguma forma indignado, mas também uma espécie de humor irônico, que afasta o eu lírico da opinião constada nos versos. Ele somente as pronuncia em nome de “supostas verdades” incorporadas pelo senso comum. O eu poético é somente o “portador das sentenças”, porém tais conceitos pertencem a uma possível mente coletiva culturalmente abastecida pela opinião de um senso comum, arraigado e introjetado nas sociedades dos centros urbanos. Ao mesmo tempo, percebe-se que os versos elaborados com a adoção de expressões e dizeres conhecidos, às vezes, de forma preconceituosa, têm a intenção de provocar a reflexão do leitor, fazendo-o tomar posição a respeito daquela pobreza narrada poeticamente. Afinal, aquele pobre é realmente um “teimoso”? Então, ele não merece viver com mais dignidade? Deixando para trás a crítica levantada na sexta estrofe, na sétima, ele esclarece o porquê da assertiva sobre a igualdade “vida e morte”, afirmando que a vida para aquelas pessoas, nada mais é do que um morrer vagaroso, sofrimento consumido por vários tipos de “febre” que se mostram como metáforas da fome, doença, sezão – as febres certas das cinco da tarde. A palavra febre,

67

repetida a cada verso, ao todo por seis vezes, faz a reverberação do som e dá intensidade ao calor dessa febre, talvez estabelecendo conexão com o calor da tarde, mas, por outro aspecto, também pode estar aludindo a algum delírio ou devaneio. O som do fonema /f/ trazido a destaque pelas seis repetições da palavra “febre” instaura uma sonoridade ao poema, que além de reforçar a ideia da febre mesmo, também se associa à palavra sofrimento, na mesma estrofe: /um ir-e-vir de sofrimento/, /consumido de febre,/, /não a febre do amor,/, /a febre da fome/, /a febre da doença/,/a febre de sezão/, /a febre certa das cinco da tarde/. É neste detalhe do poema que ao transcrever um verso de um poema em itálico, “Ai que terribles cinco de la

tarde”, Dobal dialoga com o poema Pranto por Ignácio Sánchez Mejías do poeta espanhol

Federico Garcia Lorca (2006, p. 145), que relata em versos a morte do amigo toureiro, que aconteceu às cinco da tarde (proclama insistentemente o poema).

Dentre a literatura em poesia visitada no decorrer deste estudo, consideramos que os versos elegíacos de Federico Lorca é um dos mais expressivos e angustiados poemas sobre a Morte, e nele, o poeta espanhol repete, por 24 vezes, o verso /Às cinco da tarde/, a hora precisa do evento de morte do amigo. Refazendo a tradição poética de Lorca, além deste verso, Dobal ainda destaca outros versos que principiam com o Ai, das cantigas trovadorescas, tal como no poema na língua materna de Lorca: “Ai que terribles cinco de la tarde”, /ai que tardes terríveis/, /Ai que vida mal cumprida/. Os versos transcritos asseguram a proposição

dobalina de figurar de um ponto de vista universal sobre o tema da morte, trazendo como

intertexto o famoso verso de Lorca. Um quarteto conclui as ideias do poema na sua ultima estrofe, ao dizer que a “vida mal cumprida” arrasta e desfia a morte, por todos os dias. Em se tratando da análise das figurações do perecer, tem-se a Morte como a cascavel de quatro ventas, surpreendendo aos seus escolhidos, além disso, figura a morte como a própria vida mal cumprida, sofrida, que se “arrasta e desfia morte.” Novamente não se trata de uma morte em persona, mas uma morte representada pelo seu oposto “um viver de teimoso”, “sofrer vagaroso”, “ir e vir de sofrimentos”. O lugar poetizado que se fez poema, na medida em que representa o “fim-de-mundo”, é a própria Morte. Em jogos de palavras, esse “lugar de morte” ou “Fim-de-mundo” que se exibe neste poema é um possível paradigma dos sertões do interior do Piauí de H. Dobal, mas que, também, sem dúvidas, representa todos os territórios de condições semelhantes no grande sertão nordestino. Na mesma expressão do poema “Réquiem”, o sol, dentre outras causas, também se mostra impiedoso causador de mortes que, apesar de não se exibir claramente, depreende-se pela característica presença dos urubus. Há também uma referência ao sol através da febre, ainda que seja das cinco da tarde, quando a sua intensidade já se ameniza. No cenário poético proposto, essa febre constante faz-se

associada à presença do sol, sob o qual se encontram enroladas as cascavéis de quatro ventas. Na sequência destas buscas, tem-se que este poema dialoga com os versos de “O verão”, que mantém a presença do sol e da poeira.