5. Marco teórico
5.2. Importancia y retos de la cooperación frente a la pandemia
Em alguns depoimentos, existe a idéia implícita de que o agravamento do estado de saúde do doente estaria relacionado não só ao câncer, numa relação de causa e efeito, mas também à inadequada postura do próprio médico, que neste sentido, produziria o mal.
As noções de bem e mal, associadas ao trabalho médico, vêm sendo amplamente discutidas no campo da Bioética, com a definição dos princípios de beneficência (produzir o bem) e não-maleficência (não produzir o mal), intensificando a reflexão sobre a necessidade de relativização ética na interpretação de algumas ações, o que não dilui os dilemas enfrentados pelo médico em sua atuação.
Os dados obtidos nas entrevistas permitiram-me observar que o médico adapta sua linguagem à qualidade e à quantidade de informações, pautado no comportamento do doente, com base em suas próprias observações e naquelas oriundas de seu contato com familiares ou pessoas próximas ao doente. Além disso, o exercício da profissão e o convívio com uma diversidade de situações vivenciadas, acrescidas ao maior amadurecimento pessoal, constituem valiosos fatores no manejo das informações, pois o auxiliam na definição dos limites sobre o que pode ser dito.
A trajetória de vida dos informantes também foi mencionada como um importante aspecto na condução do diagnóstico, principalmente quando envolve situações pessoais ou com familiares. Alguns médicos relataram, por exemplo, que após tornarem-se pais, passaram a apresentar mais sensibilidade ao atender crianças com câncer, chegando, algumas vezes, a recusarem-se a prestar atendimento nessa área. Segundo eles, dependendo do grau de intimidade, essas dificuldades podem incidir na relação do médico com o doente.
Em relação à progressiva naturalização das experiências de dor e sofrimento vivenciadas no contato com os doentes, os informantes mencionaram que o tempo na profissão e a convivência com as rotinas institucionais, contribuem para produzir uma espécie de “anestesiamento” de certas emoções. Ao se referirem às suas experiências profissionais dois informantes relataram:
Já me emocionei bastante, já sofri muito, mas hoje eu já consigo ter uma distância tal, que eu tenho compaixão, eu sinto pelo paciente, mas eu sei que se eu me envolver, pra mim vai ser pior e pro paciente também. Porque a minha racionalização, de como eu estou vendo o problema, vai me atrapalhar, se eu não tiver isso (médica da Radioterapia).
A gente se torna muito frio, muito calculista, muito impessoal, muito estatístico, né?! Porque a gente não pode se envolver com o sofrimento dos outros. Porque quando a gente se envolve, a gente perde a capacidade de tratar, na minha visão. Eu não posso me envolver com o paciente, né?! (médico-cirurgião).
Muitos informantes caracterizaram esse distanciamento como uma estratégia de proteção que ajuda o médico a lidar com sentimentos que são despertados na sua relação com o doente.
Elias (2001) afirma que nossa época nos tem privado da capacidade de fornecer ajuda e afeição aos moribundos, justamente porque a morte do outro remete à lembrança da própria morte. Assim, muitos profissionais preferem manter um afastamento afetivo dos doentes, como uma forma de controlar as emoções que podem surgir dessa relação (MENEZES, 2004),
incluindo o sentimento de culpa pelo fracasso em “curar” a doença. Segundo uma médica da Radioterapia:
Não deixo de dormir porque o paciente tem dor, porque ele não tem o que comer, porque se eu for sofrer com cada um deles, eu não vou conseguir viver, dar, melhorar aquele sofrimento. Hoje eu já mantenho uma certa distância em relação a isso. Não uma distância de o paciente lá e eu aqui. Eu não vou fazer nada, virar as costas e fingir que tá tudo bem. Não, eu mantenho uma distância para que eu examine o paciente, eu encaminhe ele pra internação ou vá lá no quarto dele pra ver como ele está, mas ir pra casa e estar tudo bem.
Pelo exposto nas entrevistas, parece haver uma certa preocupação de que o médico não seja afetado pelos problemas particulares do doente, não só em relação à doença, mas também a outras dificuldades, como a sua precária condição de vida e a conseqüente dificuldade de promover e manter sua saúde. Entretanto, uma atitude sensível e respeitosa para com as dificuldades do doente foi apontada como característica fundamental à ação médica.
Outra questão levantada em relação à postura do médico referiu-se à importância do “toque”, o contato físico com o doente, tema abordado por uma médica da Radioterapia. Um dos motivos levantados para essa afirmação foi justificado pelo período que antecede a confirmação diagnóstica, durante realização de exames locais, muitas vezes desconfortáveis para o doente, seja do ponto de vista físico como moral, a exemplo dos exames ginecológicos e retais, por sua relação com aspectos da sexualidade.
Segundo uma informante, muitos procedimentos podem se tornar agressivos ao doente, sem que haja dor física, por representarem uma invasão à sua privacidade, o que requer atenção e habilidade por parte do médico. Por outro lado, o contato físico, uma característica peculiar local em comparação a outros estados brasileiros, também pode ter uma representação positiva ao tornar a relação entre ambos mais próxima e pessoal. Na opinião de uma médica da Radioterapia:
Eu acho que o toque, o paciente daqui de Belém precisa ser tocado. Nem que seja um aperto de mão, a idéia que eu tenho, nem que seja só olhar, ver se a mucosa tá corada. Então assim, São Paulo é diferente. Você examina, mas aquilo faz parte da rotina para ele. Examinou, examinou. Mas não muda. O paciente não fica satisfeito de ser examinado... Em São Paulo era assim, pediu um raio X de tórax e um hemograma, eles ficavam felizes demais porque parecia que tu estavas te interessando mais pelo caso dele. Aqui não. Basta tocar neles que eles já ficam felizes.
A meu ver, um dos motivos para a referência ao “toque”, provavelmente está relacionado ao fato de que, para alguns doentes, o contato por meio da ausculta e da apalpação, bem como os gestos de cumprimento realizados pelo médico, são valorizados
como indícios de zelo, cuidado e atenção, além de constituírem também uma importante forma de comunicação não-verbal. Conforme afirma Ismael (2005, p. 98), “o toque legitima a existência de quem tocou e de quem foi tocado”.
Em algumas entrevistas, os médicos relataram que questões relacionadas à vida sexual do doente, durante o período de realização do tratamento radioterápico, também devem ser abordadas. Na opinião de uma médica, apesar de não ser freqüentemente trazido à tona pelos doentes, esse tema não deve ser interpretado como falta de interesse, tendo em vista os efeitos do procedimento nessa dimensão da vida humana.