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5. Marco teórico

5.1. Cómo afecta el COVID-19 en América Latina

A formação acadêmica foi analisada pelos informantes como limitada e carente no que se refere a temáticas que agreguem ao conhecimento técnico na área médica, reflexões sobre as conseqüências sócio-psicológicas do adoecimento, incluindo disciplinas como Sociologia, Psicologia e Psiquiatria. Em conseqüência disso, muitos profissionais têm dificuldades em lidar com situações para as quais não receberam treinamento na Academia, e acabam solidificando seu aprendizado no dia-a-dia profissional, o que nem sempre resulta em uma conduta adequada.

Os informantes mencionaram críticas em relação à fragmentação na formação profissional e à excessiva valorização das especialidades que, segundo eles, constituem fator

de empobrecimento e de deturpação da atuação do médico. Uma médica da Quimioterapia afirmou:

[...] tá com uréia e creatinina aumentada, chama o nefro e esquece que aquele paciente é teu. Entendeu?! esquece! Eu não sou especialista, mas pera lá, eu sou médica. Tem algumas coisas que são básicas e eu tenho que saber fazer, entendeu?! Eu não vou simplesmente dizer: tá com uréia e creatinina aumentada, então chama o nefro e

agora ele que se vire pra dizer o que é. E eu não vou nem discutir com o nefro.

Para uma informante, a atitude do médico diante do enunciado do diagnóstico também tem relação com a forma como ele reconhece as suas possibilidades e limites de atuação. Ela citou situações em que alguns médicos supervalorizaram o diagnóstico na tentativa de lidarem com o sentimento de impotência diante da impossibilidade de cura da doença:

[...] porque o ônus de não dar certo é muito grande, né?! O ônus de não dar certo o tratamento, de você não conseguir curar, é muito grande para algumas pessoas. Então melhor eu superestimar e aí, se não deu certo, era porque a doença era muito grave mesmo. Do que eu mesma, comigo mesma, me sentir fracassada e a família também me achar. Achar que eu não fiz (médica da Quimioterapia).

De maneira geral, os depoimentos evidenciaram que, durante o acompanhamento aos doentes, os médicos experienciam momentos de alegria e de tristeza que lhes propiciam oportunidades de reflexão e crescimento, e acima de tudo, de aprendizado e de confronto com as possibilidades e limites de sua ação.

Como exemplo, uma informante mencionou a delicada decisão pela interrupção de um tratamento quimioterápico em conseqüência das seqüelas produzidas no organismo que podem conduzir o doente a um agravamento de sua condição, e em casos mais graves, levá-lo à morte, em decorrência principalmente da ação das drogas no sangue. Freqüentemente, essa opção por parar o tratamento ocorre após o reconhecimento dos limites terapêuticos para enfrentar a doença.

Entretanto, o momento de “saber parar” o tratamento foi descrito como um dilema, tanto para o médico, como para o doente e sua família. O fato de grande parte das quimioterapias realizadas no Hospital funcionarem como tratamento paliativo e, portanto, não oferecem nenhuma opção de tratamento para reter o avanço da doença, foi descrito como uma etapa difícil de ser abordada pelo médico. Conforme uma médica da Quimioterapia:

Quando eu era mais nova, eu criava um vínculo de uma forma que eu ainda não sabia lidar muito bem e esse vínculo acabava me trazendo esse desgaste emocional muito grande. Eu não sabia esse limite de parar. Eu tive, eu tive alguns pacientes, que eu não

soube parar, que eu quis ir até, como diz uma paciente, até a última gota de quimioterapia.

Na opinião de uma informante, a insistência em continuar o tratamento pode estar associada à dificuldade de aceitação da morte como um evento inexorável da vida:

Eu acho que muita gente, muito profissional da área, fica tentanto curar, curar a morte. Como se a morte tivesse cura, entendeu?! E a morte não tem cura. A gente tem que saber lidar com ela e dar uma qualidade de sobrevida (médica da Quimioterapia).

Em relação a esse tema, os informantes também pontuaram que alguns médicos reforçam de maneira intencional a expectativa de muitas famílias em torno da possibilidade de sobrevivência à doença. Segundo eles, essa postura pode estar motivada por interesses comerciais, uma vez que existem pessoas capazes de tudo a fim de obter o prolongamento da vida de seus familiares doentes, até mesmo de adquirir dívidas para arcar com os custos de novos tratamentos, os quais dificilmente têm eficácia. Ao referir-se a essa situação, uma médica da Quimioterapia relatou:

Você tá vendo que é um tumor, que a evolução já está no final, num estádio final, aí você diz: Ah! Mas tem uma droga que está usando nos Estados Unidos, custa setenta

mil. Aí a família vende casa, carro, tudo! Faz a droga. E o paciente vai a óbito. Então

será que ele pensou no paciente ou ele pensou no poder que ia dar de retorno, no valor da quimioterapia? Porque nesse local tem um percentual, ele recebe a cada quimioterápico que ele prescreve. Então isso me preocupa muito.

Uma informante mencionou que existe uma diferença significativa entre o aprendizado acadêmico e o cotidiano de trabalho. Segundo ela, na Academia, geralmente, o médico não é educado para o enfrentamento das variáveis sociais e econômicas que atuam como determinantes da saúde, especialmente na rede pública de assistência. Em decorrência disso, muitos jovens recém-formados, especialmente aqueles que tiveram poucas experiências de estágio, ingressam no mercado de trabalho ainda com um idealismo distanciado da realidade. Para uma médica da Radioterapia:

No início foi difícil, logo que eu entrei na faculdade, talvez porque eu só soubesse do romantismo da coisa, mas a realidade foi mais difícil. Mas, dá vontade de sair correndo às vezes. Dá vontade de sair correndo porque é complicado. A Medicina na teoria é uma coisa, outra é você não ter condições de passar o remédio pro paciente. Você saber que ele não tem o que comer, não ter como se medicar. É bem difícil. A Medicina pública no Brasil é muito complicada.

Os informantes mais jovens e com recente especialização na área de Oncologia mostraram-se menos conflituosos em relação à obrigatoriedade das informações ao doente por julgarem que se trata de um direito. Alguns deles evidenciaram atitude otimista em relação às possibilidades de tratamento, nas quais a participação do doente torna-se imprescindível, mas com ressalvas nos casos em que a família solicita silêncio sobre certos assuntos.

As dificuldades no manejo do diagnóstico relacionadas à falta de preparo do médico pela Academia podem levá-lo a transferir responsabilidades a outro profissional da área, ocasionando a este, não raras vezes, surpresa diante do fato de que o doente ainda carece de informações sobre sua doença e/ou tratamento.

Uma informante relatou que, nos Estados Unidos da América, as universidades disponibilizam disciplinas durante a graduação médica por meio das quais o acadêmico aprende como se conduzir na comunicação do diagnóstico, tamanha a preocupação com as repercussões éticas e legais naquela realidade. Embora esse tipo de prática guiada mereça ressalvas, sua relação com as características sociais daquele contexto torna-se compreensível e constitui-se em importante oportunidade para reflexão e discussão do tema da prática médica.