CHAPTER 5: HUMAN RESOURCES
6.4 Capital as a production factor .1 Ox-Cultivation
6.4.1.4 The importance of ox-ploughing
Normalmente, o local escolhido é a própria casa do colaborador, mas há casos de entrevistas feitas no local de trabalho, em um restaurante ou até mesmo durante um passeio. De qualquer forma, seja qual for o local escolhido, “[...] quase sempre, o melhor é ficar sozinho com o informante. A completa privacidade proporcionará uma atmosfera de total confiança em que a franqueza se torna muito mais possível.” (THOMPSON, 2002, p. 265). Quanto ao tempo de duração da entrevista, é preciso estar atento ao estado de ânimo do colaborador, que não se deve cansar a ponto de perder o interesse. “Em circunstâncias normais, uma hora e meia ou duas horas será em todo caso um tempo máximo razoável.” (THOMPSON, 2002, p. 273).
Todas essas orientações práticas e de conduta devem ser consideradas no momento da entrevista, aliadas a um fator certamente importante para a obtenção de bons resultados: é preciso deixar claro, desde os primeiros contatos com o colaborador, que o que se deseja não é “estudar” o entrevistado, mas sim “aprender” com ele.
Embora possamos ser doutores em qualquer matéria entrevistando analfabetos, na situação de campo são eles que têm os conhecimentos. [...] Podemos ter status, mas são eles que têm as informações e, gentilmente, compartilham-nas conosco. Manter em mente esse fator significa lembrar que estamos falando, não com “fontes” – nem que estamos por elas sendo ajudados –, mas com pessoas. A questão não é que tipo de expressões já consagradas pelo uso empregamos em nossa abordagem; as boas maneiras são meramente a manifestação externa de respeito genuíno. Caso contrário, poderemos repetir o verbo “aprender”, em vez de “estudar”, o quanto quisermos, mas nossos interlocutores com certeza não se deixarão enganar. (PORTELLI, 1997, p. 25).
1.1.5 Transcrição, textualização e transcriação
Como seria talvez normal supor, a maioria dos oralistas mostra-se como excelentes narradores, compartilhando suas experiências provenientes do estudo e da prática da história oral. Numa dessas narrações, Portelli nos conta a história de uma entrevista transcrita de forma excessivamente objetiva e literal, em que o termo “tosse” foi intercalado entre uma palavra e outra proferidas pelo narrador. Disso surgiu um questionamento a respeito do significado daquela informação:
[...] estaria o narrador limpando a garganta? Seria sua tosse intencional ou irônica? Teria ele engasgado? Seria tuberculoso? E a tosse, seria um sintoma ou um sinal? A postura “objetiva” do encarregado da transcrição impossibilitava a inclusão dessa informação, porque implicaria o risco de compreensão intelectual, em vez da neutralidade da transcrição (teoricamente) “mecânica”. Na verdade, em lugar de um discurso objetivo sobre a fonte, o texto transformou-se em um discurso subjetivo sobre o historiador: a única informação transmitida era que a entrevista fora transcrita por um estudioso muito objetivo – que acredita ser científico dar nome aos dados, mas não se arrisca a nos dizer o que, segundo acredita, esses dados são. (PORTELLI, 1997, p. 26).
Transformar uma narrativa oral num texto escrito é um processo complexo. A simples transcrição literal de tudo que foi dito pelo narrador não dá conta de evidenciar completamente os sentidos de uma fala. “Muito do que é verbalizado ou integrado à oralidade, como o gesto, a lágrima, o riso ou as expressões faciais – que na maioria das vezes não têm registros verbais garantidos em gravações –, pode integrar os discursos que devem ser trabalhados para dar sentido ao que foi expresso numa entrevista de história oral.” (MEIHY, 2005, p. 21). Por isso, em lugar de transcrição, alguns autores adotam o conceito de transcriação: “[...] uma mutação, ação transformada, ação recriada de uma coisa em outra, de algo que, sendo de um estado da natureza, se torna outro.” (MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 133). Tal procedimento permite maior riqueza de informações, não só relativas ao contexto em que uma frase é dita, mas abrangendo a intenção dessa fala, numa tentativa de diminuir as diferenças entre o oral e o escrito. Não se trata de modificar o que foi dito pelo entrevistado. É preciso reproduzir textualmente as palavras ditas por ele. Mas elementos constitutivos da performance do entrevistado podem fazer parte do texto.
Essa interferência do autor do trabalho no texto escrito jamais deve ser dissimulada. “O que deve vir a público é um texto trabalhado no qual a interferência do autor seja clara, dirigida para a melhoria do texto.” (MEIHY, 2005, p. 182). Ao optar pela transcriação de uma narrativa, portanto, o oralista aproxima a história oral da literatura, já que certo senso estético torna-se necessário para levar a bom termo tal empreitada.
É claro que o aspecto “criativo” da transcriação deve respeitar limites no que diz respeito à interpretação das intenções e da performance do narrador. “A responsabilidade pela interpretação, é óbvio, não chega a reivindicar, para nossas interpretações, acesso completo e
exclusivo à verdade.” (PORTELLI, 1997, p. 27). O que resulta desse trabalho de transcriação, então,
[...] adquire uma dimensão dialógica intrínseca, na qual nossas interpretações e explicações (expressamente claras) coexistem com as interpretações contidas nas palavras que reproduzimos de nossas fontes e, ainda, com as interpretações que os leitores delas fazem. [...] Conseqüentemente, aquilo que criamos é um texto dialógico de múltiplas vozes e múltiplas interpretações: as muitas interpretações dos entrevistados, nossas interpretações e as interpretações dos leitores. (PORTELLI, 1997, p. 27).
Para chegar à transcriação, porém, é preciso antes passar pela transcrição e pela textualização. A transcrição é o resultado bruto, onde se transfere para o papel tudo o que pode ser ouvido na gravação: as perguntas do entrevistador, pronúncias erradas, sons externos, risos, miados, latidos. Na textualização, são eliminadas as perguntas, sons, ruídos, erros gramaticais e palavras sem peso semântico, tornando o texto mais “limpo”, facilitando o trabalho da transcriação.
Na moderna história oral, todo texto escrito resultante de uma entrevista gravada recebe tratamento em primeira pessoa do singular. “Nesse percurso, o ‘eu’ narrador é assumido pelo autor do projeto, que ao verter o discurso oral para o escrito se coloca no lugar daquele.” (MEIHY, 2005, p. 130).