CHAPTER 5: HUMAN RESOURCES
6.4 Capital as a production factor .1 Ox-Cultivation
6.4.2.1 Seeding rates for the major crops
Segundo a definição de história oral por nós assumida, foi necessário elaborar um projeto de trabalho. Mais do que uma simples formalidade, um projeto de história oral deve estabelecer objetivos e orientar o trabalho de campo. A própria natureza desse trabalho admite alterações no decorrer do processo. “A dinâmica da aquisição e organização de textos de história oral, por ser matéria viva, indica mudanças constantes nos planos iniciais.” (MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 45). Porém, justamente por ser passível de ajustes, o projeto é essencial, já que possibilita uma linha mestra a ser seguida, evitando desvios excessivos.
Todo projeto de história oral deve levar em conta três perguntas básicas: história oral de quem, como e por que. “O projeto contempla esses três vértices da proposta, porém dedica- se com mais detalhes ao ‘como’. ‘De quem’ é parte constitutiva das intenções sempre
expressas nas justificativas, e, da mesma forma, o ‘por que’ ampara a intenção militante, de transformação do status quo do grupo abrangido.” (MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 45). Assim, como “linha mestra a ser seguida”, apresentaremos um projeto sintético de história oral, elaborado após a coleta do primeiro relato (excetuando-se o relato que consideramos como nosso ponto zero7). É preciso deixar claro que tal projeto foi elaborado por imposição decorrente de nossa opção em fazer deste um trabalho de história oral. Respeitamos a definição de história oral que assumimos e, portanto, elaboramos o projeto a seguir, com base no exemplo de Projeto Sintético constante do “Manual de história oral” (MEIHY, 2005, p. 221-227), que elenca os seguintes itens em sua constituição:
• tema • justificativa • documentação • metodologia • hipótese de trabalho • referências bibliográficas • cronograma
Considerando que o Tema, a Justificativa e a Hipótese de trabalho já foram suficientemente abordados no capítulo introdutório deste trabalho, e que as referências bibliográficas constarão do final desta dissertação, partiremos do Tema apenas enquanto título do projeto e desenvolveremos os itens Documentação, Metodologia e Cronograma.
TEMA
História oral temática de pequenos proprietários de terras localizadas em Unidades de Conservação Ambiental: a experiência decorrente de uma ação do Ibama em 2002 e suas conseqüências no processo de educação ambiental.
DOCUMENTAÇÃO
Com o objetivo de enriquecer a pesquisa e assim proporcionar resultados mais expressivos, ampliamos nosso universo inicial de colaboradores. Assim, além dos relatos de
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Entende-se por ponto zero “[...] a primeira pessoa ou grupo que é sondado para se proceder a continuidade das entrevistas.” (MEIHY, 1996, p. 53). “Há casos em que o ponto zero se transforma na primeira entrevista, mas normalmente isso ocorre não porque esse encontro seja mais informativo e não se desenrole segundo os padrões regulares do andamento de uma gravação, mas sim porque muitas vezes ele se transforma em guia capaz de orientar o andamento das entrevistas.” (MEIHY, 2005, p. 178).
pequenos proprietários rurais, trabalhamos também com o relato de pessoas que não se encaixam nessa categoria, mas que fazem parte da problemática estudada. Dessa forma, analisamos os relatos de:
Marlon – 30 anos, solteiro, 2º grau completo, trabalha como guia turístico, diagramador, fotógrafo e auxilia a família na gestão da Pousada Ajuru, nosso mais constante local de estadia em Aiuruoca. Consideramos o relato de Marlon como nosso ponto zero, já que ele foi nosso primeiro colaborador, auxiliando nos contatos iniciais com prováveis entrevistados e nos guiando por toda a região, detalhadamente conhecida por ele. Marlon esteve presente durante toda a ação do Ibama em 2002, pois foi contratado como fotógrafo pelo próprio Ibama.
Dirceu José – 53 anos, casado, 1º grau incompleto, proprietário de oficina mecânica, morador de um bairro periférico da cidade, mas fora da zona rural. Foi multado em 2002 por trabalhar com uma draga sem licença. Apesar da recepção bastante séria, aceitou nos ceder seu relato na hora, sem qualquer contato prévio.
Sargento Martins – 43 anos, casado, 2º grau, policial militar, atualmente servindo na Polícia Ambiental (normalmente chamada de Polícia Florestal). Quem agendou nosso encontro com o Sargento Martins foi Naide, proprietária da Pousada do Sol e grande colaboradora, que, embora não tenha nos cedido seu relato, nos auxiliou de várias maneiras, desde questões práticas até indicações de outros três colaboradores: Cícero, seu ex-marido, seu amigo Gilberto e seu primo Paulinho Senador. Um desencontro impediu a gravação da entrevista com Paulinho Senador.
Marco Túlio – 57 anos, divorciado, contador, morador da cidade, mas proprietário de um pequeno terreno na zona rural. Foi multado em 2002 e declarou ter passado meses doente em decorrência da multa. Marco Túlio é amigo e contador de Dirceu José, e foi por seu intermédio que realizamos nosso primeiro contato. Além de nos ceder a entrevista, Marco Túlio nos auxiliou constantemente durante todo o trabalho: nos levou a seu terreno na zona rural e nos apresentou pessoalmente a outros três colaboradores: sua sogra, dona Rosa, sua cunhada, Sandra, e seu amigo, Joaquim Bernardo.
Dona Rosa e Sandra – Dona Rosa tem 76 anos, é viúva, tem o ensino fundamental (“Eu estudei nas colinas lá da Ponte Alta... A minha escola não tinha ‘grau’, não tinha nada. A gente estudava um pouquinho e parava. Aprendi a ler.”) e é dona de casa. Mora na zona rural, onde nasceu e de onde só se ausentou durante o período de estudos de seus filhos, morando então na cidade. Dona Rosa fala pouco, mas quando fala é certeira no que quer dizer. Seu
relato foi gravado juntamente com sua filha Sandra, 53 anos, viúva, 3º grau completo, moradora da zona rural. De início, Sandra apenas acompanharia a entrevista com sua mãe, como “espectadora”, mas acabou por ser uma excelente narradora.
Marquinhos – 44 anos, casado, biólogo com mestrado em Entomologia, professor e diretor de escola de ensino fundamental localizada na zona rural, onde mora. A gravação da entrevista com Marquinhos foi decorrência de uma feliz série de acontecimentos. Na casa de Marco Túlio, conhecemos o filho do sr. José Mauro, proprietário de um estabelecimento comercial na zona rural, mais especificamente num bairro rural chamado Tamanduá, e que já havia sido multado, porém não na ação do Ibama em 2002. Seu filho nos sugeriu que procurássemos o sr. José Mauro. Fomos até o Tamanduá, mas a conversa com o sr. José Mauro, embora gravada, revelou-se pouco fértil. Foi sua esposa, dona Fátima, quem acabou por sugerir uma visita à escola do local para uma conversa com Marquinhos, diretor da escola. Sua sugestão foi excelente. Marquinhos nos recebeu e cedeu um relato de mais de uma hora.
Joaquim Bernardo – 76 anos, casado, aprendeu a ler e a escrever com seu pai, em casa. Nascido e criado na zona rural, na Serra dos Garcia (a localização de sua propriedade pode ser vista na Figura 3: na relação de Cachoeiras, o item 14 marca a localização do Poço do Joaquim Bernardo, lugar de visitação turística). Não temos pudor em confessar que foi o colaborador que mais nos emocionou, junto com sua esposa, Mariana (69 anos, também nascida na zona rural) e seu filho Dirceu, que acabaram por participar da gravação do relato. Joaquim Bernardo e dona Mariana são pessoas que podemos adjetivar como “simples” (jamais “simplórias”) e que revelam uma sabedoria de vida e uma forma de colocá-la em palavras que nos marcaram profundamente. Foi o relato mais longo, quase uma hora e meia de gravação, e só pressionamos o stop do gravador porque tínhamos outra entrevista agendada.
Cícero – 60 anos, divorciado, advogado “clínico geral”, como ele mesmo diz. Cícero foi entrevistado por dois motivos: costuma defender proprietários de terras na região que são multados por crimes ambientais e é ele mesmo um proprietário de terras na zona rural. Muito articulado, bem humorado e sincero, forneceu-nos um ponto de vista extremamente fértil.
Nosso grupo de colaboradores conta ainda com Gilberto, 29 anos, solteiro, com formação em Teatro, funcionário público na Secretaria de Cultura de Seritinga. Entrevistamos Gilberto por sugestão de Naide. Gilberto é famoso (isso não é um eufemismo) em Aiuruoca por ser um estudioso diletante da história e da cultura da cidade. Por esse motivo o entrevistamos, e também por ele nos oferecer uma visão certamente distante da questão
ambiental. De fato, Gilberto sequer menciona os acontecimentos de 2002, apesar de nossa insistência em formular perguntas sobre o assunto. Sua narrativa tem foco na cultura, na história de Aiuruoca, e sua visão de historiador nos surpreendeu positivamente8.
Segundo Bom Meihy (2005, p. 65), “[...] pode-se dizer que todos os projetos de história oral marcam os compromissos de categorização da memória”, categorias essas divididas entre 1. classe social; 2. etnia; 3. gênero e 4. circunstância histórica. “É imperioso justificar a estruturação de comportamentos que fazem da memória dessas – e de outras – categorias fator de identidades”. Assim, com base no perfil de nossos colaboradores, parece- nos correto escolher como “filtro que conduz a narrativa das experiências” a categoria circunstância histórica, já que os acontecimentos ocorridos na região de Aiuruoca em 2002 certamente funcionaram como filtro para as narrativas, “[...] evocando memórias que se organizam a partir de fatores circunstanciais que passam a ser fundamentais na vida das pessoas e dos grupos” (MEIHY, 2005, p. 68).
METODOLOGIA
Considerando comunidade de destino como o “motivo central que identifica a reunião de pessoas com algumas características afins” (MEIHY, 2005, p. 260), qualificando um grupo, colônia como “coletividade ampla que tem uma comunidade de destino marcada” (MEIHY, 2005, p. 260) e rede como “subdivisão da colônia, segmento específico de um grupo com afinidades definidas pela comunidade de destino” (MEIHY, 2005, p. 262), estabelecemos como comunidade de destino os proprietários de terras em regiões rurais brasileiras localizadas em ou próximas a Unidades de Conservação Ambiental que, por motivos decorrentes da falta de informação a respeito da legislação ambiental, tanto de forma geral quanto específica para essas áreas, produzem em desacordo com a lei. A questão das penalidades legais é apenas um marcador desse universo, já que seria impossível delimitá-lo de outra forma.
Como colônia, entendemos os proprietários de terras – comercialmente produtivas ou não – em regiões rurais localizadas em, ou nas proximidades de Unidades de Conservação Ambiental no município de Aiuruoca (MG), multados pelos órgãos reguladores das leis
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Ao final de nossa pesquisa de campo, verificamos que seria interessante gravar mais um relato: o de Guilherme, proprietário de uma pousada localizada na Serra do Papagaio, multado em 2002 e, como se verá, personagem bastante citado em outros relatos. Infelizmente, isso não foi possível. Mas reproduzimos, no anexo F, mensagem pessoal recebida por [email protected], onde Guilherme aborda a ação do Ibama em 2002 e o tema “preservação ambiental” como um todo.
ambientais. E, como rede, viabilizando o trabalho, temos os proprietários de terras localizadas em regiões rurais próximas a ou em Unidades de Conservação Ambiental no município de Aiuruoca que foram multados durante a ação do Ibama em julho de 2002, ou posteriormente a essa ação.
Após nossos primeiros contatos com pessoas envolvidas nessa questão e, principalmente, depois da coleta do primeiro relato, verificou-se que perguntas específicas a respeito dos temas “preservação do meio ambiente” e “legislação ambiental” não proporcionam grandes esclarecimentos. As respostas eram curtas e vagas, tornando o material resultante demasiadamente árido. Ao contrário, quando deixamos os colaboradores livres para falar a respeito dos temas propostos, o resultado foi bastante fértil. Dessa forma, optamos em não apresentar um questionário fechado no momento da gravação dos relatos, apenas levantando questionamentos pontuais nas ocasiões em que maiores esclarecimentos tornare- sem necessários.
Abrimos aqui um parêntese decorrente de aspectos teóricos da história oral. Ao definirmos nosso projeto como “história oral temática”, deveríamos necessariamente nos valer de um questionário, já que, nesse gênero específico de história oral, “[...] ele torna-se peça fundamental para a descoberta dos detalhes procurados.” (MEIHY, 2005, p. 163). No entanto, mais do que informação, desejamos obter as impressões dos pequenos produtores a respeito da ação do Ibama em julho de 2002, da legislação ambiental em vigor, da transmissão de informações relativas à tal legislação e da preservação do meio ambiente, já que nosso objetivo nada tem a ver com coleta de dados, mas sim com a experiência dos colaboradores. Tampouco pretendemos entender ou questionar a legislação ambiental brasileira ou a atuação de seus órgãos reguladores, e estudos a respeito desses temas não fazem parte deste trabalho. Sabemos que “[...] há projetos temáticos que combinam algo de história oral de vida.” (MEIHY, 2005, p. 165). Porém, não seria correto enquadrar nosso projeto na categoria “história oral de vida”. Assim, embora não tenhamos conduzido as entrevistas a partir de perguntas estanques, já que isso se mostrou infrutífero, apoiamos os “questionamentos pontuais” na seguinte relação de questões:
- Você sabe por que foi multado?
- Você sabia que isso era proibido, que você poderia levar uma multa?
- Você concorda com essa proibição?
- Você sabe de outras coisas que são proibidas?
- Houve alguma explicação sobre como fazer para produzir legalmente e não ser mais multado?
- Você já viu algum tipo de material (cartaz, cartilha, impresso, propaganda de rádio ou TV) que tentasse explicar essas proibições?
- Como eram esses materiais? Tente descrever.
- Eles só mencionavam o que é proibido ou explicavam o porquê da proibição? - A maioria desses materiais é feita por órgãos do governo. Isso faz diferença? Se fosse um material feito por uma escola, ou uma igreja, você prestaria mais atenção, levaria mais a sério?
- Vale a pena produzir respeitando as leis ambientais, ou é mais barato pagar as multas?
- Você entende por que as leis ambientais existem?
A esse rol de “questionamentos pontuais”, acrescentamos perguntas relativas especificamente à APA Serra da Mantiqueira, como:
- Você sabe o que é uma APA?
- Você sabe que sua propriedade está dentro da APA Serra da Mantiqueira? - Quando a APA foi criada, em 1985, você recebeu alguma orientação a respeito? - Você sabe o que é e o que não é permitido fazer dentro de uma APA?
- Você conhece os limites geográficos da APA?
- Você concorda com as restrições ambientais impostas pela legislação referente à APA?
Questionamentos mais abrangentes, feitos no início das gravações como forma de situar os colaboradores e orientar a entrevista, levaram em conta a temática “meio ambiente” de uma forma geral, assim como a relação do colaborador com a natureza no que diz respeito ao trabalho como produtor rural.
CRONOGRAMA
Devido a problemas de ordem prática, relativos à distância entre São Paulo e Aiuruoca e dificuldades de acesso à residência de alguns de nossos colaboradores, foi praticamente impossível seguir um cronograma à risca. Por mais que tentássemos agendar visitas, entrevistas e gravações com antecedência, as chegadas à Aiuruoca sempre revelavam surpresas, algumas desagradáveis, como a ausência do colaborador que seria entrevistado e outras extremamente providenciais, como encontrar pessoas desconhecidas que, ao tomar conhecimento de nossos objetivos, nos indicavam prováveis colaboradores. De qualquer forma, boa vontade, receptividade, hospitalidade e uma surpreendente compreensão da importância de nossos objetivos sempre foram constantes em todo o processo de pesquisa.
Todas as entrevistas foram gravadas utilizando-se um gravador de MP3, por sua praticidade, não necessidade do uso de fitas e alta capacidade de armazenamento (72 horas). Nenhuma das sessões de gravação ultrapassou 90 minutos de duração.
Todos os colaboradores que cederam seus relatos fizeram a conferência dos textos finais (em alguns casos, tivemos que realizar a leitura do texto em voz alta) e assinaram as cartas de cessão de direitos para uso dos textos devidamente aprovados. Algumas cartas de cessão não possuem firma reconhecida em cartório. Isso se explica porque alguns colaboradores não têm firma aberta e nos pareceu demasiado penoso solicitar tal procedimento a pessoas de idade avançada que moram na zona rural, muito distante de qualquer um dos três cartórios de Aiuruoca.
Finalmente, após a apresentação de nossa dissertação de mestrado, encaminharemos um exemplar da mesma a cada um dos nossos colaboradores e também à Casa de Cultura de Aiuruoca, numa primeira forma de “devolução” dos resultados, “condição básica para se justificar um projeto de história oral” (MEIHY; HOLANDA, 2007, p. 17).